Operação Unha e Carne, investigação da Polícia Federal sobre agentes públicos, crime organizado e contratos do Estado do Rio de Janeiro, entrou nesta terça-feira (5) em sua 4ª fase com 7 mandados de prisão preventiva e 23 mandados de busca e apreensão expedidos pelo Supremo Tribunal Federal. A nova etapa mira fraudes em compras, serviços e obras de reforma na Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro, cumpre ordens na capital, em Campos dos Goytacazes, Miracema e Bom Jesus do Itabapoana, e tem entre os alvos o deputado estadual Thiago Rangel (Avante-RJ), preso pela PF.
A operação, no entanto, é maior que a prisão de Rangel. A Unha e Carne começou em dezembro de 2025 para apurar vazamento de informações sigilosas que teriam obstruído a Operação Zargun, investigação sobre o ex-deputado TH Joias e sua ligação com o Comando Vermelho. Desde então, a mesma apuração atingiu Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj, o desembargador federal Macário Judice Neto, assessores e agora contratos de escolas estaduais. Segundo a Polícia Federal, a fase atual apura possível direcionamento de contratações realizadas por escolas estaduais para empresas previamente selecionadas e vinculadas à organização criminosa investigada.
Operação Unha e Carne saiu do vazamento e chegou à Educação
A virada da Operação Unha e Carne é o principal fato desta terça-feira. A investigação que nasceu para apurar vazamento de informação sigilosa em favor de alvos ligados ao Comando Vermelho passou a mirar uma engrenagem de corrupção em contratos públicos da Educação.
A PF afirma que a 4ª fase busca desarticular uma suposta organização criminosa voltada a fraudes em procedimentos de compra de materiais e aquisição de serviços, inclusive obras de reforma, dentro da Secretaria de Educação do Rio.
Os investigados podem responder por organização criminosa, peculato, fraude à licitação e lavagem de dinheiro. A PF ainda não divulgou o valor total que teria sido desviado, nem a lista completa das empresas e contratos investigados.
O que a 4ª fase investiga
A fase deflagrada nesta terça mira contratos de escolas estaduais. A suspeita é que unidades da rede tenham direcionado compras e serviços para empresas escolhidas previamente e ligadas ao grupo investigado.
O foco recai sobre escolas vinculadas à Diretoria Regional Noroeste da Seeduc, região de influência política de Thiago Rangel. Rangel, porém, é apenas o alvo mais recente de uma investigação que já havia atingido o comando político da Alerj e um desembargador federal.
Informações divulgadas nas últimas horas apontam que a nova frente nasceu da análise de celulares, computadores e mídias apreendidos nas fases anteriores da Unha e Carne. Esse material teria aberto uma trilha entre a investigação original, centrada no vazamento de dados sigilosos, e contratos da Educação estadual.
Bacellar volta ao centro da Unha e Carne
Rodrigo Bacellar volta a aparecer como personagem central da Operação Unha e Carne. O ex-presidente da Alerj já havia sido preso na primeira fase da operação, em dezembro de 2025, sob suspeita de vazar informações sigilosas para TH Joias. Agora, a nova etapa também alcança o entorno político da Assembleia Legislativa do Rio.
A Fórum mostrou que Bacellar foi preso por suspeita de elo com TH Joias, ex-deputado acusado de ligação com o Comando Vermelho. A suspeita da PF era que informações antecipadas sobre a Operação Zargun tivessem permitido a destruição de provas e a obstrução da investigação.
Na primeira fase, a PF cumpriu um mandado de prisão preventiva, oito mandados de busca e apreensão e uma intimação para medidas cautelares. Após a prisão do alvo, os agentes encontraram R$ 90.840 em espécie no veículo oficial usado pelo parlamentar. Três celulares também foram apreendidos.
A Fórum também revelou que a prisão de Bacellar encurralou o grupo político do então governador Cláudio Castro e expôs a conexão entre a apuração sobre o Comando Vermelho e setores da política fluminense.
TH Joias é a origem da investigação
A origem da Unha e Carne está na Operação Zargun, deflagrada em setembro de 2025. A Zargun mirou TH Joias, nome político de Thiego Raimundo dos Santos Silva, ex-deputado estadual acusado de ligação com o Comando Vermelho.
TH Joias foi investigado por suspeitas ligadas a tráfico de armas, drogas, corrupção de agentes públicos e lavagem de dinheiro. A Unha e Carne nasceu depois, quando a PF passou a apurar se agentes públicos haviam vazado dados sigilosos da Zargun antes do cumprimento de medidas cautelares.
Esse ponto é decisivo para entender a operação. A Unha e Carne não começou como caso de contrato público. Ela começou como investigação sobre obstrução de uma operação contra o crime organizado. A frente sobre a Educação apareceu depois, como desdobramento do material apreendido.
Macário Judice foi preso na segunda fase
Em 16 de dezembro de 2025, a PF deflagrou a segunda fase da Operação Unha e Carne. O alvo mais relevante foi o desembargador federal Macário Ramos Judice Neto, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região.
A Fórum noticiou que Macário foi preso durante a Unha e Carne 2, em uma etapa que investigava vazamento de informações sigilosas relacionadas à Operação Zargun.
Depois, a Fórum mostrou que a PF tinha indícios de que o desembargador estava ao lado de Bacellar quando o ex-presidente da Alerj teria avisado TH Joias sobre a operação policial.
A Fórum também publicou perfil de Macário Judice e mostrou que o desembargador já havia sido denunciado por ligação com jogos de azar.
A denúncia da PGR contra Bacellar, TH Joias e Macário
Em março de 2026, a Procuradoria-Geral da República denunciou Rodrigo Bacellar, TH Joias, Macário Judice e mais duas pessoas por obstrução de investigação. A acusação afirma que informações sigilosas sobre investigação de tráfico de armas e drogas teriam sido vazadas para integrantes do Comando Vermelho.
A denúncia consolidou a linha central da primeira etapa da Unha e Carne: a suspeita de que agentes públicos, com acesso a informações reservadas, teriam ajudado alvos da Zargun a escapar de diligências ou a ocultar provas.
A Fórum mostrou que a PF apontou Bacellar como liderança de um núcleo político ligado ao Comando Vermelho. Esse é o pano de fundo que dá gravidade à nova fase: a operação deixou o campo da obstrução e avançou para a suspeita de uso de contratos públicos como engrenagem financeira.
A terceira fase e a nova prisão de Bacellar
A terceira fase da Unha e Carne foi deflagrada em 27 de março de 2026, em Teresópolis. A PF cumpriu um mandado de prisão preventiva e um de busca e apreensão, também por ordem do STF, para apurar vazamento de informações sigilosas ligado à Operação Zargun.
A Fórum explicou por que Bacellar voltou a ser preso após a cassação de seu mandato. Sem o cargo, ele perdeu a proteção política que havia permitido à Alerj derrubar sua prisão em dezembro.
A Fórum também mostrou que a cassação de Bacellar levou o TRE-RJ a recontar votos e revisar a composição da Assembleia Legislativa do Rio.
Thiago Rangel entra na 4ª fase
A prisão de Thiago Rangel é o fato novo da quarta fase, mas não resume a Operação Unha e Carne. O deputado aparece agora porque a investigação chegou a contratos da Secretaria de Educação.
A Fórum publicou que Rangel foi preso pela PF na manhã desta terça durante a nova etapa da operação. Ele é deputado estadual pelo Avante e tem base política em Campos dos Goytacazes, uma das cidades onde os mandados foram cumpridos.
A suspeita investigada é que contratos de escolas estaduais tenham sido direcionados para empresas vinculadas ao grupo criminoso. A PF apura compras de materiais, serviços e obras de reforma na rede estadual de ensino.
A suspeita de lavagem em postos de combustíveis
A trilha financeira da nova fase também passa por suspeita de lavagem de dinheiro. Informações divulgadas sobre a investigação apontam que recursos públicos pagos a empresas contratadas por escolas poderiam ser sacados, transferidos por intermediários e depois misturados a valores de origem lícita.
Essa frente aproxima a Unha e Carne de outra investigação já conhecida no Rio: a Operação Postos de Midas, de 2024, que teve Thiago Rangel como alvo. Naquele caso, a PF, a Receita Federal e o Ministério Público do Rio apuravam suspeitas de fraudes em licitações, sobrepreço, desvio de recursos públicos e lavagem de dinheiro por meio de rede de postos de combustíveis.
O dado reforça a leitura de que a 4ª fase da Unha e Carne não trata apenas de contratos escolares isolados. A suspeita é de uma estrutura organizada, com influência política, contratos públicos e possível mecanismo de ocultação de recursos.
O papel da Missão Redentor II
A Operação Unha e Carne integra a Força-Tarefa Missão Redentor II, criada no contexto da ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas. A missão busca coordenar a atuação da Polícia Federal contra grupos criminosos violentos no Rio de Janeiro.
O foco declarado da força-tarefa é a asfixia financeira dessas organizações e a ruptura de conexões com agentes públicos. Por isso, a Unha e Carne tem um desenho mais amplo que uma operação policial comum: ela mira o elo entre crime organizado, política, Judiciário, Assembleia Legislativa e contratos do Estado.
Linha do tempo da Operação Unha e Carne
Setembro de 2025: a Operação Zargun mira TH Joias e apura atuação de organização criminosa ligada ao Comando Vermelho, com suspeitas de tráfico de armas, drogas, corrupção e lavagem de dinheiro.
3 de dezembro de 2025: a PF deflagra a primeira fase da Operação Unha e Carne para investigar vazamento de informações sigilosas da Zargun. Rodrigo Bacellar é preso. A PF apreende R$ 90.840 em espécie no veículo oficial usado pelo parlamentar.
16 de dezembro de 2025: a segunda fase prende o desembargador federal Macário Judice Neto, suspeito de participação no vazamento de informações sigilosas.
16 de março de 2026: a PGR denuncia Bacellar, TH Joias, Macário Judice e mais duas pessoas por obstrução de investigação.
27 de março de 2026: a terceira fase cumpre prisão preventiva e busca em Teresópolis, ainda no eixo do vazamento de informações sigilosas.
5 de maio de 2026: a quarta fase mira fraudes em contratos da Secretaria de Educação do Rio, prende Thiago Rangel e cumpre 7 mandados de prisão preventiva e 23 de busca e apreensão.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/operacao-unha-e-carne-educacao-rio/

