Folha publica charge com túmulo após morte de juíza aos 34 anos e revolta entidades

A charge da Folha, debochando de juíza morta

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) e a Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) divulgaram manifestações públicas de repúdio à charge publicada pela Folha de S.Paulo neste sábado (9), que utilizou a imagem de uma lápide para criticar a magistratura.

As entidades associam o cartum à morte recente da juíza Mariana Francisco Ferreira, do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, aos 34 anos.

Mariana morreu em 6 de maio. Juíza do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, ela sofreu complicações durante um procedimento de reprodução assistida. Em fevereiro, havia sido designada para atuar na Vara Criminal de Sapiranga, no interior do Rio Grande do Sul. Tinha apenas três anos de carreira.

Três dias após a morte da magistrada, a Folha de S.Paulo achou por bem publicar um desenho da cartunista Marilia Marz mostrando uma lápide com a frase: “Vidinha mais ou menos, até perdê-la junto dos penduricalhos”.

Confira abaixo as notas na íntegra:

“O Conselho Nacional de Justiça manifesta profundo pesar pelo falecimento da magistrada Mariana Francisco Ferreira e presta condolências aos seus familiares, amigos e colegas neste momento de sofrimento e recolhimento.

Diante das recentes manifestações públicas, o CNJ reitera seu compromisso inabalável com a liberdade de imprensa, com a livre circulação de ideias e com o direito à crítica, fundamentos indissociáveis da ordem democrática. Tais prerrogativas, entretanto, não dispensam prudência, responsabilidade e consciência ética, sobretudo quando o debate ocorre sob o impacto da perda humana e do luto.

Em meio à consternação causada pela partida precoce de uma jovem integrante do Poder Judiciário, certas reações revelaram menos apreço pela crítica institucional legítima e mais inclinação à lógica da desmoralização contínua das instituições judiciais, por vezes reduzidas à ironia fácil, à hostilidade difusa e à negação de sua dimensão humana.

A fiscalização crítica das instituições republicanas é não apenas legítima, mas necessária. Outra coisa, porém, é a transformação sistemática da divergência em desqualificação e do debate público em ambiente de agressividade permanente.

Quando o discurso público abandona a medida, a sobriedade e a consciência dos limites civilizatórios, instala-se um processo corrosivo que empobrece a convivência democrática e enfraquece a confiança social nas instituições. A contínua deslegitimação da magistratura não atinge apenas juízes individualmente considerados; compromete uma das estruturas essenciais de proteção das liberdades constitucionais e da estabilidade republicana.

Magistrados não estão acima da crítica, nem podem estar apartados do controle social. Nada obstante, tampouco devem ser submetidos a uma cultura permanente de aversão e desprestígio institucional. A autonomia do Poder Judiciário depende, entre outros fatores, da preservação de condições mínimas de respeito público, indispensáveis para que a função jurisdicional seja exercida com independência e serenidade, livre de pressões externas incompatíveis com o Estado de Direito.

Cultivar civilidade e empatia em momentos de luto não significa restringir o debate público. Significa reconhecer que a solidez de uma democracia também se revela na capacidade de preservar a humanidade mesmo em contextos de discordância. Uma sociedade que naturaliza a supressão simbólica da dignidade fragiliza, ao mesmo tempo, os próprios fundamentos éticos da Justiça e da vida republicana para todas cidadãs e cidadãos.

Brasília, 09 de maio de 2026.

Luiz Edson Fachin

Presidente

A juíza Mariana Francisco Ferreira, morta aos 34 anos

A Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) manifesta repúdio à charge publicada pela Folha de S.Paulo neste sábado (9/5), véspera do Dia das Mães, em que a imagem de uma lápide é utilizada para ironizar tema relacionado à magistratura – justamente na semana em que a morte da juíza Mariana Francisco Ferreira, do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS), causou profunda comoção.

A AMB reconhece a liberdade de imprensa como elemento indispensável ao Estado de Direito, todavia, o exercício dessa prerrogativa constitucional exige responsabilidade: quem comunica responde também pelos sentidos que sua mensagem produz na esfera pública, sobretudo se o contexto tornar previsível uma leitura ofensiva, dolorosa e desumana.

Ainda que se alegue que a charge não tenha como alvo a magistrada falecida, é impossível ignorar a conjunção de fatores que cercou sua publicação, pois a própria Folha de S.Paulo noticiara a morte da juíza, aos 34 anos de idade, após procedimento médico relacionado ao legítimo projeto de ser mãe, um dia antes da publicação da charge que ora se repudia. A ofensa não se mede apenas pela intenção de quem publica, mas também pelo impacto concreto daquilo que é publicado.

A crítica à magistratura ou a qualquer instituição pode ser feita com rigor e contundência. O que não se pode aceitar é que o debate público perca a dimensão humana e transforme uma categoria inteira em alvo de escárnio, especialmente quando uma de suas integrantes acaba de partir em circunstâncias tão trágicas. Para tudo deve haver algum limite, ao menos o limite da humanidade.

Por trás da toga há vidas, famílias, renúncias e trajetórias marcadas por anos de estudo e dedicação ao serviço público. A AMB lamenta que a Folha de S.Paulo tenha permitido a veiculação de conteúdo tão insensível.

A entidade reitera solidariedade à família de Mariana Francisco Ferreira, ao Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul e a todas as magistradas e magistrados ofendidos pela publicação, bem como se coloca à disposição para as medidas judiciais cabíveis. A imprensa é livre para criticar, no entanto, não há crítica legítima quando o sofrimento do outro é tratado com zombaria, descaso e achincalhe.


A Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) manifesta repúdio veemente à charge publicada pela Folha de S. Paulo na edição deste sábado (9/5), que recorre à imagem de uma lápide para criticar a remuneração da magistratura. A escolha editorial é grave, insensível e revela um olhar incapaz de enxergar o ser humano por trás da função jurisdicional.

A liberdade de imprensa é pilar da democracia e contará sempre com o respeito da magistratura brasileira. Crítica institucional, porém, não autoriza a banalização da morte nem a desumanização de uma categoria formada por mulheres e homens que servem ao Estado com responsabilidade, sacrifício pessoal e dedicação cotidiana.

A gravidade torna-se intolerável diante do contexto. Na última quarta-feira (6/5), a magistratura brasileira foi atravessada pela perda da juíza Mariana Francisco Ferreira, de 34 anos, falecida em decorrência de procedimento médico ligado ao desejo legítimo de tornar-se mãe. Publicar, poucos dias depois e às vésperas do Dia das Mães, uma charge que utiliza símbolos fúnebres para ridicularizar a categoria não é descuido: é ofensa direta à dor de uma família, à dor de uma magistratura em luto e à dignidade das mulheres que conciliam a função jurisdicional com o direito fundamental à maternidade.

A Ajufe registra, com firmeza, que o exercício da crítica jornalística pressupõe responsabilidade. Quando a imprensa abandona a empatia mínima e a sensibilidade ao contexto, deixa de informar e passa a agredir. Da Folha de S. Paulo, veículo com tradição no jornalismo brasileiro, a sociedade espera mais — e a magistratura nacional reafirma que nenhuma garantia democrática dispensa o dever de respeito à dignidade humana.

Brasília, 9 de maio de 2026.”

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/folha-publica-charge-com-tumulo-apos-morte-de-juiza-aos-34-anos-e-revolta-entidades/