Sakamoto: ‘Tenho medo de obra da Sabesp’ virou trauma na SP privatizada

Vazamento de gás natural após obras de manutenção da Sabesp. Foto: Reprodução

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Passei a pé pela rua Dr. Teodoro Baima exatamente no momento em que polícia e bombeiros isolavam a via, conhecida por abrigar tanto o histórico Teatro de Arena quanto a Laje do Baixo, para a Comgás poder consertar um vazamento que havia começado em uma obra da Sabesp. O centro estava mais cheio que de costume, uma vez que domingo vai ocorrer a 30ª Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo. O cheiro de gás era muito forte e o povaréu se dividia entre os curiosos que se amontoavam para assistir, gente bem informada que apertava o passo para sair de lá e a população que esperava poder voltar para casa em segurança.

Na esquina da rua com a Epitácio Pessoa, diante do esquema de guerra armado, ouvi um homem comentar com o amigo, em tom de desabafo: “tenho medo de obra da Sabesp”.

O temor não é injustificado. Menos de um mês atrás, em 11 de maio, uma explosão de grandes proporções matou duas pessoas e deixou dezenas de feridos e desabrigados em outra obra da empresa no bairro do Jaguaré. A população atingida, aliás, reclama que não tem uma resposta definitiva sobre as indenizações. E esse não foi o primeiro acidente com morte.

Sim, a primeira conquista da privatização da empresa foi transformar a imagem dela em uma bomba.

Em nota, diante do vazamento desta quinta, a empresa afirmou à imprensa que “ao constatar a perfuração, a equipe da Sabesp interrompeu imediatamente os trabalhos e acionou os protocolos de segurança”. Na terça, a companhia de saneamento e abastecimento havia divulgado os tais novos protocolos, focados principalmente na fiscalização das obras e na capacitação técnica dos trabalhadores envolvidos.

Desde a privatização, trabalhadores vêm denunciando a redução no quadro de empregados com mais tempo de casa, por meio de programas de demissão voluntária e outros desligamentos, e sua substituição por mão de obra terceirizada sem o mesmo conhecimento técnico do sistema. O Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente do Estado de São Paulo (Sintaema) destaca a relação entre acidentes que envolvem trabalhadores e prejudicam a população e a dispensa de trabalhadores mais experientes junto com o aumento da terceirização.

Dados do Sintaema apontam que 40% do quadro de trabalhadores diretos teria sido desligado pela Equatorial, a nova controladora, principalmente via PDV (planos de demissão voluntária), e reposto com terceirizados ou novos empregados sem o mesmo conhecimento. Vale lembrar que, para a gestão de serviços essenciais, não basta que a força de trabalho seja numerosa, mas que ela se mostre capaz de resolver problemas sem colocar a si mesma, os outros e o fornecimento de água e a coleta de esgoto em risco.

Em março deste ano, um reservatório da Sabesp que estava em construção em Mairiporã se rompeu, deixando um rastro de destruição no município. Um funcionário de uma empresa terceirizada morreu, outras pessoas ficaram feridas e dezenas, desalojadas. Já em setembro do ano passado, uma mulher de 79 anos morreu após uma tubulação de grande porte sob responsabilidade da Sabesp cair sobre a casa dela em Mauá. O caso ocorreu durante obras do sistema de água do município feitas para a empresa.

Rompimento de reservatório da Sabesp em Mairiporã – Foto: Reprodução/Redes Sociais

Isso sem contar a qualidade do serviço. O mesmo sindicato afirmou à coluna que, no final de maio, milhares de famílias de Guarulhos ficaram sem abastecimento de água após uma empresa terceirizada perfurar uma adutora durante a execução de um serviço.

Processo semelhante ocorreu com a Enel. O Sindicato dos Eletricitários de São Paulo aponta que a distribuidora de energia reduziu drasticamente o quadro de empregados diretos, perdendo memória técnica. O investimento na mão de obra terceirizada, que tem rotatividade e corpo menos qualificado para avaliar e atender os problemas, não deu conta do desafio.

Tal como a Sabesp, a Enel também fez programas de demissão voluntária, incentivou aposentadorias e demitiu corpo técnico mais antigo — que, normalmente, ganha mais.

Quase dois anos após ser privatizada pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), a Sabesp vê o número de reclamações da população sobre a qualidade do serviço aumentar ao mesmo tempo em que controladores e acionistas celebram a alta do lucro.

Levantamento de Adriana Ferraz, no UOL, usando dados da própria Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo, aponta que a média mensal de queixas cresceu 70% entre janeiro e março deste ano em comparação a 2025, passando de 1.041 para 1.770. Na periferia da capital, a água tem sido cortada com mais frequência e chegado turva. Enquanto isso, a Sabesp divulgou um lucro líquido ajustado de R$ 1,5 bilhão entre janeiro e março de 2026 — um aumento de 32,3% em relação ao mesmo período de 2025.

Já o Ebitda ajustado da empresa — o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, medida que ignora os impactos financeiros e contábeis — cresceu 26% entre janeiro e março na comparação anual, registrando R$ 3,8 bilhões.

Como já disse aqui um rosário de vezes, não sou, por princípio, inimigo de privatizações, mas a venda ou concessão de uma empresa pública precisa garantir que ela ofereça um serviço muito melhor em sua versão privada, e não um lucro maior aos acionistas.

O poder público em grandes cidades, principalmente na Europa, voltou a gerir os sistemas de água e esgoto, nas últimas duas décadas, após a experiência da privatização ter se mostrado incapaz de garantir qualidade de vida. O que vários países estão descobrindo é que efetivar o direito à água ou à luz passa por investimentos muitas vezes a fundo perdido, o que significa que podem não gerar retornos atraentes. O serviço da Sabesp estava longe de ser perfeito, mas serviço essencial guiado pela necessidade de dar lucro costuma dar um chabu ainda maior.

Talvez a privatização tenha cumprido sua promessa mais sincera: tirou o Estado do caminho. Primeiro do planejamento, depois da responsabilidade direta e, por último, da cena do desastre. Sobraram a população correndo do cheiro de gás, os trabalhadores enterrados sob a “modernização” e os fundos de investimento brindando felizes.

A conversa que ouvi na esquina da rua Dr. Teodoro Baima não é um exagero, mas colocava para fora um novo medo destravado nos paulistanos, que já não tinham poucos para lidar.

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/sakamoto-tenho-medo-de-obra-da-sabesp-virou-trauma-na-sp-privatizada/