O gramado da Casa Branca amanheceu fantasiado de octógono. A explicação oficial é que o evento do UFC dá início às comemorações dos 250 anos da Independência dos Estados Unidos. Mas o espetáculo de sangue, suor e testosterona televisionada acontece no dia em que Donald Trump completa 80 anos. Não é só uma festa de aniversário embalada como celebração nacional. É a privatização simbólica do Estado por um presidente que mistura patrimônio público com salão de festas particular.
Mas o abuso da máquina pública é apenas a primeira camada desse bolo patriótico com gosto de propaganda. Raspe a tinta do octógono e aparece um governo tentando esconder, atrás de luzes, câmeras e golpes, que já não tem muito a oferecer além de barulho.
A escolha do UFC não é casual nem estética, mas eleitoral. Com ele, Trump fala diretamente com uma parcela que cultivou como um exército de ressentidos: homens jovens, conectados, descrentes das instituições e seduzidos por uma ideia de “masculinidade positiva”. Esse voto ajudou a empurrá-lo de volta ao poder. Agora, diante da frustração com salários, moradia e futuro, esse grupo começa a abandoná-lo.
Como resposta, Trump oferece a pedagogia do soco. Não há plano robusto de emprego, nem alívio consistente no custo de vida, nem perspectiva concreta para quem está entrando na vida adulta com a conta no vermelho. Há, em vez disso, uma jaula montada no jardim da Presidência. O Coliseu se repete como farsa, ri a partir de seu túmulo, em Londres, o velho barbudo.
Donald Trump e Josh Hokit. Foto: reprodução
O problema é que o estômago vazio não se distrai para sempre. A inflação dos alimentos corrói a renda das famílias de classe média e baixa. O preço dos combustíveis aperta quem depende do carro para trabalhar em uma sociedade em que o carro reside não na garagem, mas no altar. E a conta da estupidez no Irã chegou ao caixa do supermercado, à bomba do posto e ao orçamento doméstico de quem não tem helicóptero da Força Aérea esperando no gramado.
Tudo isso é consequência de um governo que vem usando a ameaça da força em sua única política administrativa. A mesma lógica que leva a Casa Branca a virar palco de UFC é a que empurra o país para conflitos desnecessários, cadeias de suprimento rompidas e petróleo mais caro. Antes, os EUA jogavam bombas para baixar o insumo, agora seguem na contramão. No fim, quem paga a coreografia imperial é sempre o mesmo elenco: trabalhadores, famílias endividadas e soldados enviados para sustentar a vaidade de quem não tem coragem de arcar com o próprio espetáculo.
O velho “pão e circo” romano funcionava porque, ao menos, havia pão. Trump parece satisfeito em entregar apenas o circo, digital e em alta definição, e ainda mandar a população pagar a arquibancada através do uso do espaço público para um evento, na prática, privado.
“Michelle Obama is a man” shouted on the White House lawn in a ring sponsored by Bud Light only available on Larry Ellison’s Paramount Plus. What a way to celebrate America 250 and the twilight of liberal democracy. pic.twitter.com/MCTjdB3slg
Enquanto lutadores se digladiam diante do aniversariante e de uma plateia com muitos nomes escolhidos a dedo, o massacre mais importante acontece fora das câmeras. Está no salário que não acompanha os preços, no combustível que engole o orçamento e nas mortes de crianças em uma guerra vendida como grandeza, tudo cobrado por boleto que talvez seja pago em novembro, nas eleições de meio de mandato.
Transformar a Casa Branca em rinha televisionada é mais do que mau gosto. É uma síntese de um governo de muita pose e pouca entrega, de muito músculo e pouca política pública, de muito espetáculo e nenhuma vergonha. No fim, alguns levantarão os braços no octógono. Mas, na economia real, quem seguirá perdendo por nocaute são os trabalhadores dos EUA e do resto do mundo.