Uma atendente freelancer de um bar em Belém afirma que deixou de ser chamada para trabalhar após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições, realizado no último domingo (25/10). Segundo a trabalhadora, o dono do estabelecimento justificou a decisão com críticas ao presidente eleito e chegou a dizer: “O Lula vai ajudar você”.
A mulher, que terá a identidade preservada, trabalhava no Bodega Prime, localizado na avenida Conselheiro Furtado, no bairro da Cremação. centro de Belém. Mãe solo de três filhos, ela relata que prestava serviços no local havia cerca de três meses e que dependia da renda para sustentar a família.
De acordo com a atendente, o empresário já havia perguntado sobre sua posição política durante uma conversa anterior. Ela afirma que revelou sua preferência pela esquerda após ser questionada e que as divergências políticas passaram a aparecer no ambiente de trabalho.
Na terça-feira (27/10), a trabalhadora entrou em contato com o proprietário para saber se deveria comparecer ao estabelecimento. A resposta, segundo ela, deixou clara a insatisfação do empresário com o resultado eleitoral. “Ele falou: ‘Não, o Lula vai ajudar você. Ele não gosta de micro empresário’”, relatou.
Empresário criticou políticas para pequenos negócios
Em áudios enviados à trabalhadora, o proprietário argumentou que as políticas atribuídas a Lula poderiam prejudicar os empresários e provocar demissões.
“As pessoas ficam desempregadas, entendeu? Se a gente não tem recurso, a gente não pode dar recurso para o empregador. Aí o que acontece? As lojas fecham. Aí o que acontece? A pessoa fica recebendo auxílio e não tem uma segunda opção. Ou vai traficar ou vai roubar”, afirmou.
Em outro trecho, ele voltou a criticar o presidente eleito e questionou como os empresários conseguiriam pagar os funcionários.
“O Lula não gosta de micro, ele não gosta de empresário. Da onde a gente tem que tirar para pagar os funcionários? Quando ele tira, se ele tira de mim, ele tira de ti também. Aí é mais ou menos isso”, declarou.
A atendente afirma que a decisão não teve relação com a qualidade do serviço prestado. Segundo ela, o proprietário costumava elogiar seu trabalho e a convocava com frequência.
“Eu sei que ele deixou de me contratar por isso, porque eu sei que eu sou uma boa funcionária. Inclusive, eu tenho várias mensagens dele me elogiando e tudo mais”, disse.
Ela conta que trabalhava no estabelecimento praticamente todos os dias, com exceção das segundas-feiras, quando ficava com os filhos.
A reportagem original realizada pela site “Alma Preta” informou que entrou em contato com o sócio do Bodega Prime, mas não obteve resposta até a publicação. O espaço foi mantido aberto para manifestação dos responsáveis pelo estabelecimento.
Mãe solo diz que depende do trabalho para sustentar os filhos
A trabalhadora afirma que ficou abalada com a situação, principalmente porque depende dos serviços noturnos para garantir o sustento dos três filhos. Ela também explica que precisa organizar a rotina profissional para dar suporte a um dos filhos.
“Como sou mãe atípica e mãe solo, só posso trabalhar à noite porque tenho que passar o dia dando suporte pro meu filho. Sou mãe de três filhos. Não posso deixar de trabalhar porque tenho que sustentá-los”, relatou.
Segundo a mulher, a discussão sobre política começou durante a campanha eleitoral. Em uma conversa, o proprietário perguntou em quem ela se identificava politicamente. Ela explicou que suas experiências pessoais, incluindo as dificuldades vividas durante a infância em Manaus, influenciavam sua identificação com a esquerda.
“Eu sou de Manaus, eu não tive uma infância tão boa. Então é claro que eu sempre vou pender mais pela esquerda por conta das minhas vivências mesmo. Não tem como eu ser de direita. Isso é normal, não interfere no trabalho”, afirmou.
Ela relata que, depois dessa conversa, o empresário passou a fazer comentários frequentes sobre as eleições e a demonstrar resistência à posição política dela.
MPT apura denúncias de assédio eleitoral
O Ministério Público do Trabalho (MPT) considera assédio eleitoral a prática de constranger ou pressionar trabalhadores, valendo-se de uma relação de poder no ambiente profissional, para influenciar suas escolhas políticas ou eleitorais.
Segundo os dados divulgados na reportagem original, o órgão havia recebido 1.937 denúncias de assédio eleitoral até a última segunda-feira (26/10), em âmbito nacional. No Pará e no Amapá, 88 denúncias foram formalizadas entre agosto, quando começou a campanha, e terça-feira (27/10): 75 no Pará e 13 no Amapá.
O Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região (TRT-8) também manifestou preocupação com relatos de intimidação e possíveis represálias relacionadas à preferência política de trabalhadores.
A presidente do tribunal, desembargadora Maria Valquíria Norat Coelho, ressaltou que ameaças de perda do emprego motivadas pelo exercício da liberdade política não encontram amparo legal.
O tribunal orienta que trabalhadores que enfrentem ameaças ou constrangimentos guardem, sempre que possível, mensagens, áudios, e-mails e outros registros que possam ajudar na apuração. As denúncias podem ser encaminhadas ao MPT, inclusive por seus canais digitais, e aos sindicatos.
Caso envolve publicações sobre demissão de eleitores de Lula
A situação relatada pela atendente ocorre em meio à repercussão de publicações nas redes sociais que sugerem dispensar funcionários por suas preferências políticas.
Na última segunda-feira (26/10), a vereadora de Belém Patrícia Queiroz (PP), pastora evangélica, compartilhou conteúdos que incentivavam empresários a observar as manifestações políticas dos empregados e considerar o desligamento de quem demonstrasse apoio a Lula.
Uma das publicações era de Victor Ruiz (PP), candidato não eleito a deputado federal por São Paulo. Ele sugeria que empresários verificassem os perfis dos funcionários nas redes sociais para identificar manifestações de apoio ao petista.
“Não faz sentido nenhum manter na tua empresa quem odeia empresários”, escreveu Ruiz.
A vereadora também republicou um vídeo do empresário Raphael Hanzol, da empresa Avelloz, intitulado “Vou demitir a minha melhor funcionária”. Na gravação, ele comparava uma funcionária a uma “fruta podre” e usava uma analogia com o câncer para defender a possibilidade de demissão por posicionamento político.
Na terça-feira (27/10), o MPT no Pará e no Amapá confirmou o início da apuração de uma possível prática de discriminação política no trabalho relacionada ao caso da vereadora.
Já nesta quarta-feira (28/10), a vereadora Vivi Reis (PSOL) informou ter solicitado ao órgão a apuração de denúncias de assédio eleitoral, discriminação política e retaliação contra trabalhadores que votaram em Lula. Ela também pediu a criação de canais específicos para receber esse tipo de denúncia.
Fonte: https://diariodopara.com.br/belem/atendente-de-bar-em-belem-diz-que-foi-dispensada-apos-eleicao-e-ouviu-do-patrao-o-lula-vai-te-ajudar/

