Memória, radiação luminosa

 

É raro Age de Carvalho, um dos nomes centrais da poesia em língua portuguesa, entregar aos leitores um novo livro. De-estar, entrestrelas, publicado agora pela Cobalto, surge dez anos depois do último volume. O intervalo largo se explica: Age é poeta da carnadura integral da linguagem, operando com detalhes, desvios e filigranas.

Os poemas do novo livro recusam a fala excessiva e a discursividade convencional, preferindo antes a concentração dos recursos expressivos, postos em tensão máxima. A poesia é, em De-estar, entrestrelas, como de resto em toda a obra poética do autor, um artefato denso, corpo de palavras integrado ao corpo geral das coisas e dos seres: “carne/ do verbo escarlate”. Os poemas do autor são canções exigentes, querem reter, transfigurada, a experiência – “flama guardada na concha ardente/ da mão”. São o contrário do consumo e da mercantilização da linguagem.

Os textos do livro são feitos de nascimentos e desaparições, reencontros e despedidas. Pensam sobre o que desafia a finitude e amplia as possibilidades da presença. O livro abre com a intuição da morte, mas não trata da aceitação resignada do fim. O poeta afirma a sobrevivência e aposta na continuidade. Entre o sentimento do sagrado e a celebração profana do presente, Age de Carvalho reflete sobre aquilo que fica, “resto/ um resquício querido” daquilo ou daqueles que, inscritos a fogo na memória do mundo, continuam.

São várias as imagens da circularidade e da sobrevida no livro. Estão disseminadas em diferentes planos: em ecos sonoros, palíndromos, espelhismos de linguagem. Ou na representação, nos poemas, de arquivos públicos e privados: notícias de jornal, fotografias, dados armazenados em nuvens digitais. A palavra exata para pensar De-estar, entrestrelas talvez seja pervivência. Perviver: continuar a viver, viver por meio de, ou através de outro corpo, outro ser. Viver para além do seu tempo: prolongar, expandir-se.

É o que os poemas parecem fazer com o rol de fantasmas que povoam o livro. Os mortos amados se metamorfoseiam, vivem no próprio poeta, como em “Cunca”: “És tu quem,/ quando passo, passas/ a mão sobre a cabeça/ do meu filho”. Viajam como líquido vital no interior do corpo, são parte daquele que agora fala: “Estou fora,/ mas estou dentro: longe,// perto do sangue”. Ou se reúnem no sujeito que enuncia, como em “Blackstar”: “sou todos agora”.

Num poema de recordação do pai, “o homem-ponte,/ atravessando, by-pass, as quatro câmaras/ do coração”, o poeta percebe em si a continuidade do órgão que um dia parou de bater. O coração do pai, entre safena e bypass, persiste no próprio peito do poeta. Desdobrado e diferido, é o mesmo e também é outro. Continua.

Desde o momento em que o pai adentrou “a sua noite estrelada”, o poeta sabe que a ligação foi feita mais uma vez. O belo título do livro, assim, talvez revele uma de suas dimensões (a outra certamente está ligada ao elemento erótico): estar entre estrelas é habitar o território ambíguo – espaço da memória, página do poema – no qual o inominável da morte está suspenso.

Pervivem também no livro, num gesto que expande a lembrança e o luto privados na direção da pólis e da política, personagens da vida pública de diferentes épocas. Entre escritores e figuras da vida civil, destacam-se Walter Benjamin e um imigrante anônimo da Síria atual. Ambos estão no exílio entre pátrias ausentes e tentam atravessar o caos da História.

Benjamim, no poema, retorna enfim liberto. Num tempo feito de agoras (em aceno ao conceito de jetztzeit proposto pelo pensador), os momentos finais de sua vida se refazem, ele está mais uma vez na fronteira: “agora,/ o espaço no tempo/ neste quarto de-horas/ onde a mala se reafivela, voltas/ a ferver em febre,/ voltas, vivo de novo,/ podes respirar”.

Já o imigrante, “anjo refugiado crivado de balas” que buscava o pai, “ascende”, isto é, de algum modo também retorna: “acima das sirenes/ de emergência cores explosões,/ sobre-/ vive”. Conectado a esse personagem, e pensando também que “esta noite/ um bote à deriva sob constelações/ irá a pique, águas escuras, vozes/ subindo aos céus”, Age de Carvalho perfaz a linha que vai do luto íntimo à catástrofe social, num processo de expansão e integração da dor. Em De-estar, entrestrelas, a dimensão fundamental da lírica é esta: abranger, estabelecer ligações.

A relação conteúdo-continente, que firma laços entre o eu e o outro, entre o eu e o cosmos, se reparte em várias direções. Um par de expressões recorrentes nos poemas, “dentro de mim” e “eu em-ti” (e suas variações), sintetiza aquela que parece ser uma das questões centrais do livro – e motivo lírico fundamental retomado e reproposto por Age de Carvalho: a passagem do um ao outro, do Uno ao múltiplo.

Essas expressões indicam, com sentido inverso, a mesma ideia: o eu se abre, reconhece aquilo que, do outro, segue com ele – seja a experiência erótica, na qual os limites entre os corpos se desfazem, seja no diálogo entretecido pelos poemas com outros textos, nos quais o poeta rememora encontros e leituras, pondo à prova a integridade da própria autoria. Age escreve por entre frases ou versos tomados ao outro, criando ao redor deles, aberto à sua presença avassalante.

É significativa em De-estar, entrestrelas a relação que o poeta mantém com a poesia e a vida de Max Martins. O magnífico verso que fecha o poema derradeiro do livro, tomado (refeito) ao Caminho de Marahu, de Max, dá bem a medida da questão. “O rio que eu sou não sei ou me perdi” aponta a desmedida e o estranhamento de si, uma vez que diz da perda de referências, da confusão entre sujeito e mundo.

Situado nessa zona de passagem entre presença e ausência, Age de Carvalho elabora os poemas de seu novo livro no limiar entre tempos e estrelas extintas (que, no entanto, ainda brilham). Dessa condição intervalar o poeta extrai, “rente/ à franja do novo presente”, os materiais com os quais compõe um trabalho mais que notável. Obra de mestre.

Gustavo Silveira Ribeiro é professor de literatura brasileira da UFMG e um dos editores da Ouriço, revista de poesia e crítica cultural

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