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A crise do transporte público urbano e metropolitano, marcada pela perda de passageiros, aumento de custos, frota envelhecida e tarifas cada vez mais pressionadas, esteve no centro do Seminário Mobilidade Integrada e Financiamento Público, realizado no plenário da Câmara Municipal de Parnamirim, nesta sexta-feira, 19. O encontro reuniu representantes do setor empresarial, técnicos, especialistas e lideranças políticas para discutir caminhos possíveis para a região metropolitana de Natal.
Ao longo do debate, emergiu um consenso: o modelo atual, sustentado quase exclusivamente pelo passageiro pagante, tornou-se insustentável. A mobilidade urbana perdeu eficiência, a produtividade do sistema caiu e os custos cresceram em ritmo superior à capacidade de pagamento da população. A solução, segundo os participantes, passa por uma decisão política clara sobre o papel do Estado no financiamento do transporte público, reconhecido constitucionalmente como direito social e serviço essencial.
Também ganharam destaque temas como a prioridade do transporte coletivo nas vias, a integração entre modais, a modernização da frota com tecnologias menos poluentes e a necessidade de subsídios permanentes — nos moldes de experiências já consolidadas em outras regiões do País, como a Região Metropolitana do Recife. Para os especialistas, não se trata apenas de renovar ônibus, mas de repensar todo o sistema, com planejamento, transparência e divisão mais justa dos custos entre poder público e sociedade.
Alfredo Bezerra Leite: “Chegamos ao dilema entre o transporte necessário e o que o usuário pode pagar”
Vice-presidente da Federação das Empresas de Transporte de Passageiros do Nordeste (Fetronor), Alfredo Bezerra Leite, afirmou que o principal desafio do setor é a perda progressiva de mobilidade urbana, fenômeno que afeta não apenas Natal, mas as grandes cidades brasileiras. Segundo ele, congestionamentos, ausência de prioridade viária e expansão desordenada reduziram a produtividade do transporte coletivo, elevando os custos operacionais.
“O setor tem perdido mobilidade ao longo dos anos e, com isso, produtividade. Isso gera um aumento exponencial de custos, enquanto o usuário não tem capacidade de absorver esses reajustes”, disse. Para Leite, o debate inevitavelmente leva ao financiamento do sistema. “Chegamos a um dilema: oferecer o transporte necessário e decidir se quem usa pode pagar. A partir daí, entra a definição política do Estado sobre o que quer ofertar à sociedade”, acrescenta.
Sobre sustentabilidade, o dirigente ressaltou que a tecnologia atual permite reduzir drasticamente a poluição, independentemente da matriz energética. Ônibus elétricos, a gás ou movidos a diesel de nova geração, com padrão Euro 6, reduzem em até 95% as emissões. O entrave, segundo ele, é o custo. “A tecnologia é viável, mas alguém precisa pagar por ela. A questão central não é só crédito para comprar ônibus, mas financiamento do sistema como um todo”, afirmou.
Almir Buonora: prioridade viária e subsídios são decisivos para mudar o sistema
Diretor técnico da Fetronor, Almir Buonora apresentou no seminário a defesa de uma política de transporte verdadeiramente integrada, que vá além do ônibus e enfrente a mobilidade como um direito de acesso à cidade. Para ele, dois gargalos se impõem na Grande Natal: o financiamento da infraestrutura e a falta de prioridade do transporte coletivo nas vias.
“Atualmente, praticamente 100% do custo da operação é pago pelo passageiro. Isso não é sustentável”, afirmou. Buonora defendeu uma articulação entre os poderes Legislativo e Executivo, nas esferas municipal, estadual e federal, para viabilizar subsídios permanentes e investimentos estruturais.
Ele também chamou atenção para a frota envelhecida da região metropolitana e para as iniciativas ainda pontuais de inovação. Empresas locais já testam ônibus elétricos e veículos movidos a gás, mas, segundo o dirigente, a mudança da matriz energética precisa vir acompanhada de planejamento e apoio público. “Mobilidade integrada é acolher idosos, pessoas com dificuldade de locomoção e garantir deslocamento rápido, eficiente e com menor impacto ambiental”, disse.

Edneuma Assunção: tarifa é o grande gargalo e precisa de intervenção do poder público
Engenheira especialista em transporte e consultora da Fetronor, Edneuma Ferreira de Assunção foi direta ao apontar o principal problema do sistema: a tarifa. “A tarifa é o que dá acesso. Hoje, ela pesa demais no orçamento da população de baixa renda”, afirmou. Segundo ela, ao resolver a questão tarifária, outros problemas — como rotas e frequência — tendem a ser equacionados.
Edneuma também buscou desmistificar a chamada “caixa-preta” do cálculo tarifário. De acordo com a especialista, existem metodologias nacionais consolidadas e transparentes para a composição dos custos. “Não existe caixa-preta. O cálculo segue regras claras, com custos fixos, variáveis e divisão pelo passageiro equivalente”, explicou.
O ponto crítico, segundo ela, está nas gratuidades, fundamentais para garantir direitos sociais, mas hoje financiadas pelo passageiro pagante. “Quem deve pagar esse direito é o poder público, não o trabalhador que já enfrenta uma tarifa elevada. O transporte é um direito social e precisa ser tratado com responsabilidade por todos”, defendeu.

Jonathan Valença: Recife mostra que integração e subsídio funcionam
Diretor de planejamento do Consórcio Grande Recife, Jonathan Valença apresentou a experiência pernambucana como exemplo de que é possível avançar. Segundo ele, a implantação do bilhete único integrado, com tarifa de R$ 4,30 para ônibus e metrô em toda a região metropolitana, só foi viável com forte participação do governo estadual.
“O passageiro não pode arcar sozinho com gratuidades e com o custo do sistema. Quem paga somos todos, como cidadãos”, disse. Em Pernambuco, o governo aporta cerca de R$ 500 milhões por ano em subsídios ao transporte, além de investimentos contínuos em infraestrutura.
Valença ressaltou que não há soluções mágicas. A renovação da frota e a adoção de tecnologias como ônibus elétricos e a gás exigem planejamento de longo prazo, juros mais baixos para infraestrutura e coordenação entre União, Estados e municípios. “Reconhecer o problema e sentar todos à mesa é o primeiro passo. O transporte público é essencial: enfermeiros, professores e trabalhadores só chegam ao destino por meio dele”, concluiu.

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Fonte: https://agorarn.com.br/ultimas/seminario-em-parnamirim-expoe-crise-do-transporte-publico-e-cobra-novo-modelo-de-financiamento/

