Desabamento do Real Class completa 15 anos em Belém

Nesta quinta-feira (29), 15 anos depois, o desabamento do edifício Real Class, no bairro de Nazaré, em Belém, segue como um dos episódios mais marcantes e traumáticos da história recente da construção civil no Pará. A tragédia, ocorrida em 29 de janeiro de 2011, não apenas tirou a vida de três pessoas, como também expôs falhas graves em projetos estruturais e provocou mudanças importantes na forma como as obras passaram a ser pensadas, fiscalizadas e executadas no Estado.

Um estrondo rompeu a rotina da travessa Três de Maio, entre as avenidas Governador José Malcher e Magalhães Barata. O prédio, com mais de 30 andares e cerca de 100 metros de altura, estava em fase final de construção quando veio abaixo de forma repentina. Em poucos segundos, o que era um dos empreendimentos mais imponentes da área se transformou em uma massa de concreto, poeira e silêncio cortado apenas por sirenes e gritos de desespero.

Mais de 100 profissionais atuaram no caso

O cenário de destruição mobilizou imediatamente equipes do Corpo de Bombeiros, Defesa Civil, Samu, Cruz Vermelha, policiais e voluntários. Mais de cem profissionais atuaram nas buscas por vítimas e no resgate dos sobreviventes. No local, o comandante do 1º Grupamento de Bombeiros Militar à época, tenente-coronel Marco Scienza, descreveu o impacto da cena encontrada. “Chegamos e vimos apenas os escombros. Foi um impacto enorme”, recordou.

Vítimas

Durante o desabamento, operários ainda trabalhavam na obra. Dois deles, José Barro e Manuel Raimundo da Paixão Monteiro, morreram soterrados. Manuel Raimundo foi o último corpo a ser encontrado, dias após o acidente. Além deles, uma idosa que estava em uma casa vizinha, Maria de Jesus, conhecida como Dona Maria, também não resistiu após ser atingida pelos escombros.

Relato de quem morava nas proximidades

Para quem morava ao lado do edifício, o trauma permanece vivo. O policial civil aposentado, Edervaldo Quintela, de 64 anos, lembra cada detalhe do momento em que o prédio veio abaixo. 

“Lembro tudo como se fosse hoje. Era entre 14h, 14h10; eu estava deitado, morava com meu pai, que já não está mais aqui, quando ouvi um barulho ensurdecedor. Parecia um relâmpago muito forte, como nunca tinha ouvido. Estava chovendo, veio um tremor. Eu disse: ‘Meu pai do céu, o que é isso?’ Saí na porta e só vi uma nuvem, tudo branco, era poeira. Aquilo demorou alguns minutos, e demorou a cair a ficha, porque foi praticamente na frente da minha casa”, relata.

“Foi surgindo várias pessoas olhando aquilo. Caiu o prédio completo”, afirma. À medida que a poeira baixava, o cenário se tornava ainda mais assustador. “Quando foi baixando mais, eu já consegui ver os destroços do prédio, cisternas e residências destruídas, entulho no meio da rua. A minha maior agonia era com meu pai, que tinha Alzheimer e câncer de próstata. Fiquei procurando ele, até que um vizinho disse: ‘Ele está aqui’. Peguei meu pai e depois saímos sem rumo, nem direção”, continuou.

Morador da área desde os 4 meses de vida, Edervaldo tinha 49 anos na época do acidente. Ele conta que casas vizinhas foram completamente destruídas e que a rotina do bairro mudou de forma abrupta.

“Tinha um outro prédio ao lado, com duas casas entre ele e o Real Class, e essas casas foram destruídas. De imediato, veio a Cruz Vermelha, anotou o nome das pessoas, e nós fomos levados para um hotel. Ficamos no hotel Formule 1 por uns 25 a 30 dias. Eles retiravam os destroços, porque a energia tinha sido toda destruída”.

Quinze anos depois, o sentimento ainda é de tristeza.

“A minha casa teve rachaduras, assim como várias outras casas. Deram suporte, reconstruíram casas que foram destruídas. Na época, fizeram um levantamento e foi pago cerca de R$ 4 mil reais pelos gastos. Mas fica um sentimento de tristeza. Ali moravam amigos meus, de infância. Tinha a esposa do Emídio e funcionários. A esposa dele foi uma das que morreu e dizia: ‘Só saio daqui morta’, e assim aconteceu”.

A causa do acidente

Laudos técnicos apontaram que o colapso foi provocado por erro de cálculo estrutural. Um relatório da Universidade Federal do Pará (UFPA) concluiu que o edifício não suportou a combinação do peso da própria estrutura, da ação dos ventos e de falhas no projeto.

Em 2016, a investigação resultou em condenação judicial do engenheiro responsável pela obra, Raimundo Lobato da Silva, por homicídio culposo de três vítimas e lesão corporal de uma quarta. A pena foi convertida em prestação de serviços comunitários e multa. Outro engenheiro denunciado, Carlos Santos de Lima, foi absolvido por falta de provas. O Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Pará (Crea-PA) cancelou o registro profissional de ambos.

O ‘Real Class’ hoje

Hoje, o local onde ficava o Real Class apresenta outra paisagem. A área está murada e tomada pelo mato alto, mas, para quem viveu aquele dia, a memória do desabamento segue intacta, como um lembrete permanente das vidas perdidas e da responsabilidade que uma obra carrega antes de se tornar concreto.

Foto: Print / Google Maps

Fonte: https://diariodopara.com.br/belem/desabamento-do-real-class-completa-15-anos-e-deixa-marcas-na-engenharia-e-na-memoria-de-belem/