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A cantora potiguar LEOA, nome artístico de Luísa Nascim, teve o visto norte-americano no último dia 9, no Consulado dos Estados Unidos em Recife, mesmo após receber convite oficial para se apresentar no SXSW Music Festival 2026, em Austin, no Texas. Selecionada entre milhares de inscrições do mundo inteiro, a artista integraria a programação oficial de um dos maiores eventos globais de música, inovação e negócios criativos, marcado para acontecer entre 12 e 18 de março.
A negativa foi comunicada pela própria artista nas redes sociais. “Eu e Gabriel Souto tivemos nossos vistos negados no consulado de Recife. Mesmo com carta convite e toda documentação necessária em mãos”, escreveu a artista nas redes sociais.
Para LEOA, a frustração vai além da perda de um show. O SXSW representa uma vitrine estratégica para artistas independentes, conectando músicos a curadores, produtores e festivais de diversas partes do mundo.
“Para quem não entende tão bem assim, o quanto South by Southwest, o SXSW, é importante para quem trabalha com música, primeiro que é muito difícil ser selecionada, rolam milhares de inscrições do mundo inteiro, todo ano. E essa foi a primeira vez que eu fui selecionada para ir para lá”, explicou.
A cantora já havia participado de uma live do festival durante a pandemia, mas esta seria sua estreia presencial. Segundo ela, o evento funciona como uma grande feira de negócios, muito além da lógica tradicional de um festival. “Não é só um festival, é uma feira de negócios. Pessoas do mundo inteiro, curadores de festivais, de todas as regiões do mundo, estão lá para ver essas promessas, essas bandas e esses artistas que foram selecionados a dedo ali, pelo SXSW. Então, realmente, é uma grande vitrine”.
LEOA afirma que enxergava na participação uma possibilidade concreta de internacionalização da carreira. “Eu estava muito, muito, muito feliz, porque eu sei que iria abrir muitas portas para eu tocar em outros lugares do mundo, até na Ásia. Conheço histórias de artistas que, depois de tocar no SXSW, conseguiram fechar turnês mundiais”.
Por isso, a negativa do visto foi recebida como um duro golpe. “Realmente, é uma pena muito grande que eu tenha tido esse visto negado. Porque era uma oportunidade de ouro”.
Documentação em dia e visto correto
De acordo com a artista, toda a documentação exigida foi apresentada, incluindo carta-convite emitida pela organização do SXSW. O visto solicitado era o indicado para turismo e participação em conferências e feiras, já que a apresentação não seria remunerada.
“Essa é uma situação complexa, porque a gente estava tentando um visto, que é um visto justamente para turismo e para pessoas que vão participar de feiras, conferências, etc. Não era um visto de trabalho, porque esse show não era um show remunerado. Inclusive isso consta na carta-convite, eles explicam certinho que o visto que a gente estava tentando era o correto”.
Ainda assim, segundo LEOA, houve insistência por parte da equipe consular em questionar uma possível remuneração. “A moça ficou toda hora perguntando se ia ser um evento pago, se a gente ia receber alguma coisa, eles estavam muito preocupados com isso, se a gente ia fazer algum dinheiro lá”.
A artista também relatou dificuldades no atendimento. “Não sei exatamente por que o visto foi negado, realmente precisava de uma pessoa que tivesse o mínimo de boa vontade, e a gente sabe que é difícil isso acontecer nesses consulados”.
“A pessoa que atendeu Gabriel, primeiro que eu, ela já não foi muito bacana e ela já é uma figura famosa por ser uma pessoa, assim, complicada, por não ter aquela boa vontade para compreender a complexidade de cada situação”. Para LEOA, o processo se assemelha a uma loteria. “Não dá para saber direito, é uma grande roleta russa, depende muito de quem você pegar lá para te entrevistar”.
Clima hostil a artistas latinos
A negativa ocorre em um momento de tensão para artistas e imigrantes latino-americanos nos Estados Unidos. LEOA contextualiza o episódio dentro de um cenário político mais amplo. “Esse momento está muito complicado para artistas latinos imigrantes nos Estados Unidos. O que já era chato, difícil, burocrático, ficou ainda mais complicado, existe uma política, assim, de perseguição, sim”.
Ela acredita que o grupo acabou sendo diretamente afetado por esse ambiente. “E dentre os artistas que estavam lá, nós fomos também escolhidos para ter esse boicote”.
Mesmo diante do revés, a cantora reforça que não pretende recuar. “Óbvio que eu não vou desistir, vou seguir na luta. Com certeza, isso não vai ser o primeiro nem o último não, ou porta fechada que eu vou ter na minha carreira. Mas, com certeza, era uma oportunidade muito importante para mim”.
A artista também destaca que levar a cultura potiguar para fora do país sempre fez parte de sua trajetória. “Sobre levar arte potiguar para o mundo, isso já faz parte da minha trajetória, independente de onde eu esteja, eu estou sempre levando, sempre reforçando as minhas raízes, o lugar de onde eu vim. Isso já faz parte do meu trabalho, independente de qualquer coisa”.
Bad Bunny, política e representatividade
A negativa do visto aconteceu um dia após a apresentação histórica de Bad Bunny no intervalo do Super Bowl, marcada por forte discurso político e celebração da cultura latina. LEOA acompanhou o espetáculo e se disse profundamente tocada. “Sobre a apresentação do Bad Bunny, achei maravilhosa, fiquei super emocionada. Ele foi incrível”.
Ela lembra que o artista porto-riquenho já vinha construindo uma obra politizada. “Ele já vem fazendo uma arte política há um tempo, mas com esse álbum, acredito que até os brasileiros também acabaram entendendo melhor o trampo do Bad Bunny”.
Consumidora assídua de música latina e caribenha, LEOA afirma acompanhar sua trajetória há anos. Para ela, o show foi histórico. “Achei que ele fez algo muito difícil, fez uma apresentação junto com toda aquela equipe enorme, memorável, histórica. Me senti contemplada com o discurso e com a arte dele”.
A apresentação gerou reações negativas de setores conservadores e do presidente Donald Trump, que classificou o espetáculo como “terrível” e afirmou se tratar da “pior apresentação de todos os tempos”. Para muitos espectadores, porém, o momento simbolizou a afirmação identitária latina em solo americano.
“Estamos muito preocupados”
LEOA conecta sua experiência pessoal a um panorama mais amplo de tensões geopolíticas e migratórias. “Esse clima de tensão, de revolta, de perseguição que os imigrantes, não só da Latina América, mas da África e de outras partes do mundo têm sofrido com os Estados Unidos. Tem sido uma situação muito complicada, muito preocupante”.
“Agora com essa situação [visto negado], me senti completamente afetada. Sou uma artista progressista do Nordeste do Brasil, uma pessoa que tenta ter uma postura decolonial dentro dos meus limites e completamente anti-imperialista”.
Segundo LEOA, a apreensão é coletiva. “A classe artística brasileira está muito preocupada com tudo isso que está acontecendo”. A artista tenta transformar frustração em combustível criativo. Depois de um 2025 difícil, ela via no SXSW um recomeço.
Agora, resta seguir em frente com disposição de continuar abrindo caminhos, mesmo quando as fronteiras insistem em se fechar.
Super Bowl
No domingo, 8 de fevereiro, Bad Bunny protagonizou um intervalo histórico no Super Bowl ao realizar uma apresentação quase inteiramente em espanhol, com mensagem direta ao público americano: “We’re still here” (“Ainda estamos aqui”).
O artista porto-riquenho transformou o palco em um retrato da vida caribenha, com cenários que incluíam canaviais, uma casa típica de Porto Rico e cenas cotidianas como partidas de dominó, salão de beleza e treino de boxe. O repertório passou por reggaeton, trap latino e salsa, com músicas como Tití Me Preguntó, Yo Perreo Sola, Monaco e Nuevayol.
Celebridades como Jessica Alba, Pedro Pascal, Cardi B, Karol G e Young Miko participaram do espetáculo. Lady Gaga apresentou uma versão salsa de “Die With a Smile”, enquanto Ricky Martin interpretou “Lo Que le Pasó a Hawaii”, música que critica os impactos da possível anexação de Porto Rico aos EUA.
Bad Bunny encerrou o show chutando uma bola de futebol americano com a frase “Together, We Are America”, enquanto bandeiras de países latino-americanos eram erguidas pela plateia. A apresentação foi amplamente celebrada por fãs e líderes latinos, mas também gerou reação negativa de setores conservadores, incluindo o ex-presidente Donald Trump, que classificou o espetáculo como “um tapa na cara do país”.
Dias antes, Bad Bunny havia se tornado o primeiro artista a vencer o Grammy de álbum do ano com um disco totalmente em espanhol, Debí Tirar Más Fotos. Durante o Super Bowl, ele ainda entregou simbolicamente uma estatueta do prêmio a um garoto porto-riquenho.
Após o show no Super Bowl, Bad Bunny está dominando o Spotify global. O porto-riquenho quebrou recordes e emplacou várias músicas no topo, inclusive no Brasil. Tem 7 músicas no topo do Spotify global; é o 5º artista mais ouvido no Spotify Brasil; tem 12 músicas no top 200 do Spotify Brasil, com “DtMF” em 3º lugar; “DtMF” se tornou a música em espanhol mais ouvida em um dia na história do Spotify global, com mais de 16 milhões de reproduções.
Bad Bunny se apresenta no Allianz Parque, em São Paulo, nos dias 20 e 21 de fevereiro, logo após o Carnaval. Ou seja, somente duas semanas após o sucesso estrondoso com o Super Bowl.
A reinvenção de LEOA
Entre Natal e São Paulo, tradição e experimentação, LEOA constrói uma trajetória marcada por afirmação identitária. Nome artístico de Luísa Nascim, a cantora potiguar soma quase dez anos de estrada, período em que ganhou projeção nacional à frente da banda Luísa e os Alquimistas, projeto que ajudou a reposicionar o pop nordestino ao misturar ritmos regionais com reggaeton, eletrônica e beats urbanos.
Foi com os Alquimistas que LEOA passou a circular por festivais, palcos e playlists pelo Brasil, criando faixas dançantes e politizadas, sempre atravessadas por referências do Nordeste. Ao longo desse percurso, consolidou uma assinatura própria: a fusão entre ancestralidade e contemporaneidade, entre o litoral potiguar e a pulsação das grandes cidades.
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Fonte: https://agorarn.com.br/ultimas/era-oportunidade-de-ouro-lamenta-leoa-visto-negado/

