Está nas vitrines das grandes lojas, nos armarinhos do comércio e nas produções das influenciadoras digitais. O crochê, técnica transmitida principalmente entre mulheres ao longo de gerações, voltou à moda e já movimenta comerciantes, empreendedores e quem encontrou na prática uma forma de bem-estar.
O enorme ‘tapete’ de crochê suspenso instalado na rua ao lado do Mercado de Carne, no Complexo do Ver-o-Peso, é mais do que um ponto estratégico para visitantes fazerem belos registros no centro comercial de Belém. A instalação confeccionada por 250 artesãs também marca um ponto onde crocheteiras vão em busca dos mais variados tipos e cores de linhas disponíveis hoje para trabalhos manuais.
A loja especializada em artesanato em geral existe há 20 anos e tem acompanhado o crescimento na procura por materiais ligados ao crochê nos últimos anos. “Na verdade, o crochê já teve, há muito tempo, essa valorização. Mas agora, com as mídias sociais, com as blogueiras aparecendo com peças, aparentemente deu uma valorizada novamente. E ele está valorizado não só no vestuário, mas também na decoração, em acessórios. Tem muita coisa que é feita com crochê que saiu daqueles paninhos de penteadeira e que hoje estão na alta costura”, aponta a proprietária do armarinho Ponto Cheio Patrícia Resque.
“A gente percebeu esse aumento desde o fim da pandemia. Como as pessoas ficaram em casa, ansiosas, elas foram buscar trabalhos manuais e um dos mais escolhidos foi o crochê e o bordado. Porém, como o crochê tem mais opções de produtos, até para fonte de renda, ele fica mais valorizado do
que o bordado”.
“Dá para fazer tudo de crochê. Então, tem uma época que sai de um foco e vai para outro, mas tudo dentro do crochê. Tem momentos que o que está em alta é vestuário, depois decoração, bolsa e fica nessa rotatividade”, considera. “Agora, está muito em alta as bolsas de crochê e, como está se aproximando a Copa do Mundo, também estão em alta os croppeds, bolsas, chapéu nas cores do Brasil”.
POSSIBILIDADES
Essa diversidade também aparece nas linhas. Além da própria espessura e cor, há variações nos tipos de materiais usados, que vão desde linhas 100% algodão, a fibras naturais e pelúcias. “Hoje em dia, praticamente todo mês os fabricantes de linhas lançam produtos novos. Então, a gente acaba ficando com a loja pequena para abrigar tudo porque a gente tem que trazer os lançamentos, mas também tem que manter o que já havia no mercado. Hoje, existem fios que as crocheteiras falam que têm uma maciez tão grande que não dá vontade de parar de tecer porque é um fio muito gostoso de trabalhar”.
O prazer despertado pela atividade de entrelaçar fios e formar pontos que dão origem a peças únicas é conhecido pela advogada e artesã Rosiele Baeta. Crocheteira desde pequena, Rosiele aprendeu a tecer com a avó e até hoje guarda esse ensinamento por puro prazer à arte manual. “Foi passado de geração em geração. Minha avó ensinou a minha mãe, a minha mãe me ensinou e eu sou uma das filhas que tem isso como um hábito de fazer tanto para mim, quanto para os outros. Eu gosto muito de presentear, então, é, eu faço isso por prazer mesmo”, conta.
Habituada à técnica há bastante tempo, ela também percebeu essa mudança na variedade de materiais disponíveis no mercado, hoje, e o boom que o crochê está vivenciando nos últimos anos. “As linhas mudaram muito. Antes eram aqueles fios ‘da vovó’, que faziam crochês como aquelas toalhas de mesa enormes, rendadas – inclusive minha avó fazia demais, ela era crocheteira de mão cheia – e agora tem uma variedade imensa”, avalia, ao contar que já foi impactada por uma mudança recente encontrada na loja.
“Eu vi essa novidade aqui, eu achei um rolão e a minha criatividade já começou a pensar em peças que eu posso fazer com um material desse. Vou levar. Os fabricantes de linha tiveram esse insight porque, como o crochê virou uma coisa muito moderna, eles investiram na produção de linhas que tem seda, que são mais maleáveis, que são mais sensíveis ao toque, então, isso é muito interessante”.
“Eu percebi esse aumento no interesse. Os meus parentes todos, inclusive as mulheres, me procuram para fazer alguma peça. Por exemplo, a minha irmã ficou louca com um lenço de cintura que está super na moda agora e ela me pediu para fazer um. Então, eu fiz em linha de seda e vou mandar para Minas Gerais”, conta. “Acho que isso é resultado muito das mídias. Inclusive, os grandes nomes da moda, no ano passado e retrasado, lançaram bastante peças em crochê: primeiro os acessórios, depois as roupas. Então, está tendo uma grande procura, um grande interesse principalmente nas confecções com franja”.
Por serem produzidas manualmente, as peças agregam um valor difícil de alcançar na produção em larga escala: a personalização. Desde a combinação de cores até o tamanho, cada peça de crochê produzida por uma artesã é única e pessoal. Essas características se refletem nas peças produzidas pela estilista e artesã Viviane Miranda, de 32 anos. Especializada no nicho de bolsas, ela conta que o crochê entrou em sua vida quase por acaso.
“Tem uns seis anos que eu comecei a trabalhar com crochê. Eu sempre trabalhei com moda, sou formada em moda e pós-graduada em design. E depois da faculdade, eu continuei”, contextualiza. “Eu era estilista de loja, mas eu tive um acidente de trânsito e isso me deixou muito tempo de molho, então eu passei a trabalhar por conta própria e eu pensei no que eu poderia fazer de algo que eu já soubesse a técnica e que eu pudesse produzir peças para vender e me ajudar naquele momento, tanto como terapia, como para fonte de renda. E assim o crochê veio”.
PERSONALIZAÇÃO
Viviane decidiu concentrar sua produção neste nicho e a união com o conhecimento que ela já detinha da costura fez o casamento perfeito entre as duas paixões. “Eu aprendi a partir de um desafio que me fizeram. Queriam uma bolsa redonda, então, eu me desafiei a fazer. Na época eu sabia fazer apenas o básico do crochê, mas eu decidi fazer e fui me especializando. E hoje o crochê é a minha única fonte de renda”.
No caso de Viviane, que comercializa suas bolsas na Praça da República, aos domingos, o crescimento do interesse pelo crochê também foi percebido, mas ela avalia que, entre outros fatores, a movimentação gerada pela COP 30 teve uma participação importante neste cenário. “Eu acho que muita gente de fora pôde ver o artesanato daqui, com fibras nossas, elementos regionais, e viram que nós também temos capacidade de trazer um artesanato para superar a ideia de que artesanato é algo simples e mostrar que pode se equiparar a grandes marcas e ser usado por qualquer tipo de pessoa”.
TENDÊNCIA
Se até pouco tempo atrás o crochê era imediatamente associado a peças mais tradicionais, Viviane conta que, hoje, muitas meninas jovens têm procurado peças em crochê. O que reforça que a técnica pode produzir peças variadas e que alcançam diferentes gostos e faixas etárias. “Hoje tem uma diversidade grande de materiais e cores que não tinha antes. Hoje temos mais possibilidades, pode agregar o couro, as ferragens. Tem muitas senhoras que vão comigo e perguntam ‘mas isso é crochê mesmo?’ porque, justamente, não é o fio que tradicionalmente elas conheciam como crochê”, aponta. “O crochê é atemporal. Tem um período que ele está morno, tem época que ele está mais quente, só que assim que lançam alguma coisa, já vira tendência e ele volta com mais força de novo. Eram as bandanas, depois vieram os lenços, aí vem algum tipo de bolsa, então, é pegar a sacada e fazer”.
Fonte: https://diariodopara.com.br/belem/croche-volta-com-forca-e-movimenta-comercio/

