Prefeito do PL suspende ônibus em São Leopoldo com narrativa de “desabastecimento mundial de combustível ” desmentida pela ANP

A Prefeitura de São Leopoldo (RS), comandada por Heliomar Franco, do PL, suspendeu a circulação de ônibus no município neste domingo (15) com uma justificativa que não encontra respaldo na posição oficial da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP): a de que haveria “desabastecimento de combustível em nível mundial”. A versão foi publicada pela própria administração municipal em nota oficial e reproduzida nas redes do município e da concessionária do transporte público.

No comunicado, a prefeitura afirma ter sido informada pelo Consórcio Operacional São Leopoldo (COLEO) de que os horários do transporte público precisariam ser reduzidos no sábado, 14 de março, e totalmente suspensos no domingo. O texto diz ainda que a empresa aguardava abastecimento para a sexta-feira, 13, o que não ocorreu.

O problema é que, dias antes, a ANP divulgou comunicado oficial afirmando que o Rio Grande do Sul conta com estoques suficientes para assegurar o abastecimento regular de diesel. A agência registrou “dificuldades pontuais de aquisição” relatadas no estado, mas declarou que a produção e a entrega do combustível seguiam em ritmo regular pela Refinaria Alberto Pasqualini (Refap), principal fornecedora da região.

Essa divergência expõe o ponto central do caso. Uma coisa é admitir tensão de mercado, aumento de preços e disputa comercial pelo diesel. Outra, muito diferente, é atribuir a paralisação do transporte de uma cidade inteira a um suposto “desabastecimento mundial”, formulação usada pela prefeitura de São Leopoldo sem lastro na realidade.

O que de fato ocorre com o diesel no RS

Há, sim, um cenário de pressão sobre o diesel no Rio Grande do Sul, dentro de um contexto mais amplo em que refinarias privadas ameaçam suspender importações para forçar alta no preço. A Petrobras rejeitou pedidos extras de distribuidoras fora dos contratos vigentes para evitar que compradores estocassem combustível mais barato em meio à disparada internacional do petróleo. A estatal realizou um leilão de 20 milhões de litros de diesel no estado em meio a relatos de escassez e alta de preços.

Em outras palavras, há uma crise de preço, oferta seletiva e disputa de mercado. Mas isso não equivale, até aqui, à tese de colapso generalizado ou “desabastecimento mundial” usada pela gestão de São Leopoldo para explicar a suspensão dos ônibus. A própria ANP adotou uma linguagem bem mais restrita e técnica ao tratar o caso.

Outras cidades também reduziram operação

São Leopoldo não foi a única cidade gaúcha a mexer no transporte. Em Rio Grande, a prefeitura informou redução de horários em algumas linhas após comunicado da concessionária Transpessoal, que atribuiu os ajustes à “indisponibilidade momentânea de diesel para compra”. O caso foi tratado como redução temporária, não como interrupção total do sistema.

Primeira-dama ocupa secretaria na gestão

O episódio ocorre em uma gestão que também abriga a primeira-dama no primeiro escalão. Simone Dutra aparece no site oficial da prefeitura como secretária de Desenvolvimento Social e, em publicações da própria administração, é apresentada simultaneamente como primeira-dama e titular da área.

Heliomar Franco foi eleito prefeito de São Leopoldo pelo PL nas eleições de 2024. O dado reforça o enquadramento político do caso: uma administração da extrema direita local adotou uma versão maximalista sobre o diesel justamente quando o órgão federal responsável pelo setor falava em abastecimento regular e dificuldades pontuais.

Bastidor político

No entorno do prefeito, Simone Dutra também aparece em articulações políticas com o grupo dos irmãos Zucco. Há registros públicos de sua presença ao lado do deputado federal Luciano Zucco e menções, na cobertura local, a uma possível candidatura dela. Também há manifestação pública do deputado estadual Rodrigo Zucco afirmando que o irmão Luciano é pré-candidato ao governo do estado e que ele próprio mira uma vaga de deputado federal.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/sao-leopoldo-onibus-diesel/