A agressão registrada contra um homem em situação de rua nas proximidades do Cesupa, em Belém, expõe mais do que um episódio isolado de violência: revela um padrão que especialistas definem como “aporofobia”, termo que ajuda a compreender a lógica por trás de ataques recorrentes contra pessoas em extrema vulnerabilidade.
Relatos de moradores indicam que a vítima já vinha sendo alvo frequente de agressões, incluindo o uso de extintores e fogos de artifício por grupos que circulavam em carros de luxo — um cenário que reforça a dimensão sistemática da violência.
A palavra “aporofobia” foi criada pela filósofa espanhola Adela Cortina, autora da obra “Aporofobia, a aversão ao pobre: um desafio para a democracia”.
O termo deriva da junção do grego “aporos” (pobre, desamparado) com “fobia” (aversão, repulsa), e descreve o desprezo dirigido especificamente àqueles que não possuem recursos ou poder de troca dentro da lógica social.
Para Cortina, trata-se do “rechaço a quem não pode entregar nada em troca”, uma exclusão silenciosa, porém constante, que atinge diretamente a dignidade humana.
No caso de Belém, a violência registrada em vídeo — com estudantes perseguindo e atingindo a vítima com descargas elétricas, sob risos — dialoga diretamente com essa definição.
Não se trata apenas de agressão física, mas de uma desumanização explícita, em que o outro é visto como alguém descartável, sem valor social.
A repetição dos ataques relatados por moradores indica que a vítima já havia sido transformada em alvo, o que amplia a gravidade do episódio e aponta para uma prática que ultrapassa o limite do crime pontual.
O termo ganhou popularidade no Brasil por meio do trabalho do padre Julio Lancellotti, que o utiliza para denunciar práticas de exclusão, como a chamada “arquitetura hostil” e outras estratégias que afastam pessoas em situação de rua dos espaços urbanos.
Ao trazer a aporofobia para o debate público, Lancellotti evidencia que a rejeição à pobreza não é ocasional, mas estrutural — uma tendência histórica que se manifesta tanto em políticas quanto em comportamentos cotidianos.
A análise proposta pela filósofa Adela Cortina reforça essa percepção ao afirmar que a rejeição ao pobre é mais profunda e disseminada do que outras formas de aversão, justamente por estar naturalizada.
No episódio envolvendo os estudantes de Direito, essa naturalização parece ganhar contornos explícitos: a violência é tratada como entretenimento, registrada e compartilhada, enquanto a vítima permanece invisível em sua condição de vulnerabilidade.
Diante disso, o caso deixa de ser apenas um episódio policial e passa a ser um retrato incômodo de uma prática social enraizada, em que a pobreza, mais do que uma condição econômica, se torna motivo de exclusão, humilhação e, como evidenciado, violência reiterada.
O post Ataque a morador de rua levanta discussão sobre a “aporofobia” apareceu primeiro em Diário do Pará.
Fonte: https://diariodopara.com.br/belem/ataque-a-morador-de-rua-levanta-discussao-sobre-a-aporofobia/

