“Precisamos derrotar a extrema direita para voltar a falar do que importa”, diz Manuela d’Ávila

Em seu retorno à disputa eleitoral como pré-candidata ao Senado pelo Rio Grande do Sul, Manuela d’Ávila (PSOL) avalia que o campo progressista vive um momento que exige “responsabilidade com o presente e ousadia com o futuro”. Em entrevista ao jornalista Juca Kfouri, na TVT, a ex-deputada federal destacou que a união de forças em torno do governo Lula é vital para a sobrevivência democrática, mas que isso não deve paralisar o debate sobre um projeto nacional.

“Precisamos derrotar a extrema direita para voltar a falar sobre o que é importante. O que é importante? Um projeto nacional que garanta que as nossas mulheres e homens trabalhadores recebam bem, vivam bem”, defende.

O foco de Manuela no Senado é fruto de uma leitura estratégica sobre os movimentos do bolsonarismo para as próximas eleições. Ela alerta que a oposição já traçou rotas para inviabilizar o país caso não retome o Executivo.

“Eles têm plano A e plano B. Plano A, ganham a eleição presidencial; plano B, perdem, mas ganham maioria no Senado, impedem Lula de governar”, explicou a pré-candidata, ressaltando que sua volta às urnas se dá justamente pela urgência de “garantir que o nosso país seja protegido dessa ameaça que vem, que se organiza com tanta força, com tanta pujança”.

Eleições no RS

Na entrevista, Manuela falou sobre a composição articulada no Rio Grande do Sul unindo PDT, PT e PSOL em torno de uma chapa única para a disputa estadual.

“A gente vai ter um cenário que deve se desenhar nos próximos dias de uma aliança ampla, nossa, liderada por Juliana Brizola, torço que com Edegar Pretto de vice, eu e [Paulo] Pimenta de candidatos ao Senado. Do outro lado, nós temos a candidatura do PL com o Zucco. Vou poupar vocês dos detalhes sórdidos, mas o PP do Rio Grande do Sul, que é um partido com uma capilaridade gigantesca e que não era posicionado à extrema direita do ponto de vista da fórmula eleitoral — é claro que já era bolsonarista, mas estava com o Eduardo Leite —, rompe e vai para a extrema direita”, detalha.

Em seguida, Manuela descreve o quadro com os principais adversários do campo da direita. “Nós temos aí aquele cara que é tipo o Neymar, que acha que vai ser um menino para sempre, apesar de já ter uma idade, o Marcel van Hattem, concorrendo ao Senado junto com outro candidato deles, um deputado estadual”, aponta. “Eles se organizaram. Nós vamos aqui para a primeira disputa com o centro político mais vulnerável e com o grau de polarização mais intenso. Vê bem, nós podemos eleger a Juliana, o Pimenta e eu, e podemos ver Zucco, Marcel e Sanderson eleitos.”

Para ela, as pré-candidaturas postas se reforçam entre si do ponto de vista eleitoral. “Se nós conseguirmos compreender que essa é uma eleição de dois votos, não haverá campanha Manuela sem Pimenta e Pimenta sem Manuela. Portanto, mutuamente, nós nos reforçaremos com votos que são mais distintos”, diz. “Por exemplo, sou a única candidata de Porto Alegre. Isso tem um impacto eleitoral, nós sabemos, é a capital do estado, é onde tem maior densidade eleitoral, tem impacto na região metropolitana. Como é que a gente consegue fazer com que essa minha base seja uma base do Pimenta? Como ele consegue fazer com que a base dele seja mais Manuela? Como nós conseguimos, juntos, passar os territórios e as causas que mobilizam os nossos eleitores para a Juliana, e a Juliana para a gente?”, questiona.

“Se a gente consegue uma disputa entendendo isso, é isso que vai fazer o presidente Lula ganhar. Porque, ao fim e ao cabo, não falamos sobre isso explicitamente, mas isso é o mais importante para o Rio Grande do Sul e para o Brasil.”

Manuela d’Ávila e a frente ampla

Diante desse cenário, Manuela defende a manutenção da frente ampla, mas se contrapõe à tentativa de apagar as pautas históricas da esquerda em nome dessa aliança.

“Se a frente é ampla, ela é diversa. Tem gente de esquerda que acha que a frente ampla deve anular a diversidade da frente. Eu não acho. Acho que isso é não perceber a riqueza da frente e os pontos de conexão da frente com os setores diversos populares, que estão unidos por causa da necessidade da defesa da unidade em torno da contenção da extrema direita, mas que têm visões diferentes sobre o desenvolvimento do Brasil”, argumentou.

Para ilustrar essa necessidade de manter o debate vivo dentro da própria base aliada, a ex-deputada citou as divergências econômicas no governo federal. “Vou dar um exemplo. Tem o arcabouço fiscal. Ele não é um ponto de consenso e existem aqueles que defendem que haja mais investimento público, que esse é o motor do desenvolvimento. Não é o que a equipe do Haddad no Ministério da Fazenda defendia. Que mal há em reconhecer essa diversidade? Essa pasteurização da frente ampla, para mim, não é o correto, nem do ponto de vista político, nem do ponto de vista eleitoral”, pontuou.

Manuela ressalta que , além da defensiva institucional, é preciso apresentar propostas concretas que dialoguem com as dores reais da população. “Tu acha que tem sentido eu, que tenho 44 anos, ter uma candidatura que não aponte agendas para o futuro, que não coloque no centro a emergência climática, que não coloque no centro a luta das mulheres trabalhadoras?”, questionou. E finalizou com um recado sobre a urgência de representatividade de classe: “É preciso que alguém que sabe que a [escala] 6×1 para mulheres é 7×0 esteja na política para influenciar os rumos também”.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/vencer-extrema-direita-manuela-davila/