Em uma análise sobre os rumos do governo e do Partido dos Trabalhadores, o ex-deputado federal José Genoino, figura histórica da esquerda brasileira, concedeu uma entrevista ao DCMTV.
Com o peso de quem presidiu a legenda em tempos de ascensão e crise, Genoino não poupou críticas ao que chama de “oligarquização” das decisões partidárias e alertou: o governo Lula corre o risco de se tornar um “presidencialismo tutelado” caso não retome a força das ruas para enfrentar a pressão do Congresso e do Judiciário.
“A esquerda tem que defender a reforma do Poder Judiciário. Agora, entrar nessa onda de impeachment de ministro supremo é fazer o coro com a direita. Eu acho que o líder do governo [Jaques Wagner] pisou na bola, e eu digo isso publicamente”, diz ele.
Alguns trechos:
O caso Jaques Wagner
Olha, eu tenho me manifestado criticamente sobre a atuação do senador Jaques Wagner. Aliás, na votação do projeto da dosimetria, a atuação dele foi no mínimo sofrível. E a atuação dele no projeto do veto, e principalmente da indicação do Messias, foi também muito ruim. Aquele conluio, aquela conciliação, aquele jeitinho em que o Alcolumbre revela para ele qual seria o resultado da votação, e ele não dá nenhum sinal de perplexidade nem de contrariedade, bate nas costas como se fosse uma coisa de amigos íntimos. Eu acho que o Lula deveria indicar um outro senador para o cargo de líder do governo no Senado. Eu externo isso publicamente. Indicar um outro senador. Eu acho que o Jaques Wagner tem demonstrado que o compromisso dele não é fundamentalmente com o governo. Ele tem uma posição pessoal, da qual eu discordo, e ele atua no sentido dessa própria posição.
O fim da conciliação
Eu acho que nós temos que trabalhar, o governo está fazendo uma lição dura. O modelo de governar com base na conciliação por cima bateu no teto. A conciliação foi, e a conciliação institucionalizada foi, subiu ao telhado. Então é necessário um outro modelo de governabilidade. Eu acho que o Lula tem uma avenida para percorrer. O Alcolumbre e a academia deram uma grande arma política para o Lula, que é mostrar que a maioria do Congresso é inimiga do povo, que eles fizeram um acordão envolvendo a rejeição do Messias, engavetar a CPI do Banco Master e a questão da dosimetria.
Isso foi um acordão, e esse acordão uniu a direita bolsonarista e parte significativa do Centrão, e isso teve laços pelas informações que estão sendo divulgadas com o ministro do Supremo Tribunal Federal. Aliás, quando esse projeto da dosimetria foi elaborado, se se lembra, o Paulinho da Força afirmou publicamente que tinha comunicado o projeto da dosimetria para o ministro do Supremo. Então eu acho que é esquisito.
Questionamento do veto fatiado e ação no STF
Nós temos a prova agora, porque o PT já entrou, junto com o PSOL e com outros partidos, questionando o que o Alcolumbre fez. Nunca o Congresso Nacional votou um decreto fatiando. Você não vota um decreto, um veto a uma lei, fatiando. Ele fatiou o veto, isso não existe. Essa inovação casuística certamente vai ser questionada nos tribunais, porque aqueles presos de crimes hediondos, aqueles presos que vão querer se beneficiar, vão certamente entrar na justiça pela nulidade dessa artimanha promovida pelo Alcolumbre, no acordo com os bolsonaristas e, no meu modo de ver, vai ser questionada agora, porque com a ação do PT e do PSOL no Supremo, vai cair na relatoria do ministro Alexandre de Moraes. Como é que ele vai decidir? Então isso também vai ser a prova contundente desse tipo, se houve esse tipo de acordão.
Oportunidade para Lula: ruas e pautas populares
O Lula tem uma oportunidade de fazer um giro, um giro para as ruas, para a sociedade, com a pauta popular, com a jornada, com a questão da tributação dos mais ricos, com a questão do salário mínimo, com a questão dos financiamentos em políticas públicas, com a questão da tarifa zero, com a questão democrática. Essa dosimetria, veja, é uma espécie de impunidade continuada, é a repetição na história do Brasil, de que quando se pune um andar de cima, sempre se busca uma saída.
Foi assim, em 79, na lei da anistia, foi assim com o Juscelino, que anistiou os revoltosos militares de Aragarças e Jacareacanga, eles voltaram a dar o golpe em 64, e no meu modo de entender, essa tragédia se repete com esse projeto da dosimetria. Portanto, eu entendo que há um golpe continuado em andamento. Aquilo que a gente comemorou no início dos processos contra os golpistas do 8 de janeiro, está se transformando numa certa farsa. É aquilo que marca a história do Brasil. Oportunidades, tragédias e farsa. Então, eu acho que nós vamos enfrentar isso aí.
Derrotas e a articulação no Congresso
No meu modo de entender, essas três derrotas, a derrota do veto, a questão da dosimetria e a questão da rejeição do Messias, eu acho que isso compôs um plano, uma articulação que envolveu o chefe maior dessa articulação, que é o Alcolumbre. Eu acho que a gente tem que romper com ele, não tem sentido fazer esse tipo de aliança. Aliás, eu acho que o governo do Amapá tem que rever a aliança que estava amarrada com ele, certo? Nós temos que gastar pouca energia com o Congresso Nacional, com liberação de emenda, nós devemos nos concentrar na emenda constitucional e no projeto de lei que revoga a jornada seis por um, isso principalmente. E aí, não foi do Amapá que teve o parlamentar do PT que votou contra a orientação do partido em um desses projetos?
Teve um projeto, uma votação que teve três votos do PT contra, e esses três, eu acho que era do Amapá. Eu acho que foi o projeto da dosimetria. É, eu acho que sim, acho que sim, que votaram o povo. Eu acho, viu, que essa atitude de parte da bancada de não enfrentar a postura, a atitude, já revela uma espécie de conciliação endógena, conciliação na atitude e na visão das pessoas. Eu acho que o PT tem que fazer uma espécie de discussão mais profunda sobre isso. Claro. Aliança sim, aliança sim, baixar a cabeça não. Quando você perde no voto e na dignidade é muito ruim.
O compadrio parlamentar
Esse compadrio parlamentar é um horror para a democracia. No meu modo de entender já tinham surgido histórias desse compadrio do líder do governo com figuras da extrema direita, eu acho que isso é nefasto. Eu já defendi, vou reafirmar aqui publicamente, o Lula deveria chamar o seu líder a uma conversa séria, profunda e pedir o cargo de líder do governo e indicar outro senador para líder do governo. Porque veja bem, isso desmoraliza o partido, desmoraliza a militância, desmoraliza aqueles que vão para a rua apoiar o governo.
Hoje eu estava no ato do 1º de maio, era o que o pessoal comentava, como é que você vai mobilizar a militância para a campanha, como é que você vai denunciar o bolsonarismo, como é que você vai lutar para derrotar esse filhote de golpista, tá certo? Se você tem esse compadrio conciliador, isso não é mais conciliação política, conciliação política que é errado é quando você negocia um acordão por cima, aí não é negociação, aí é compadrio, não tem fronteira, não tem limite. Eu acho que para um governo como o do Lula, para um partido como o do PT, eu acho que essa situação deveria ser, vamos dizer, seu objeto de medidas concretas. Não é a primeira vez que esse compadrio revela uma intimidade dos pares, que fere, no meu modo de entender, aquilo que é essencial na política. Cada um tem seu lado, tem sua posição, não se mistura.
Você tem uma relação civilizada, mas compadrio, com fabulações íntimas, isso é uma deformação política, no meu modo de entender. E a extrema-direita bolsonarista, ela usa isso com muita habilidade, certamente isso vai para as redes dele, isso vai para tentar desmoralizar, não o Jaques Wagner, mas desmoralizar o PT e o próprio governo. Portanto, eu acho que está na hora do governo tomar uma atitude em relação a isso. Não é a primeira vez, é bom deixar claro, não é a primeira vez. Ele fez declarações equivocadas, que não representavam a posição do governo, nas negociações entre Estados Unidos, Israel e Irã, Líbano, com as próprias negociações para cessar fogo na Palestina, ele fez declarações contrárias à orientação do governo, no meu modo de entender, equivocada, e se o governo vacila com essas questões, aí ele se desgasta, e eu acho que uma das coisas que está desgastando o governo Lula é essa atitude, falta de vértebra, falta de coluna, porque a extrema-direita tem objetivo claro, e eles são coerentes na radicalidade política, e nós os tratamos como se fossem amigos, isso é uma deseducação política na disputa e no enfrentamento do bolsonarismo.”
Religião, estado laico e a indicação de Messias
Eu acho que o Messias exagerou naquelas declarações religiosas, parecia que ele era candidato a Papa ou a cardeal, não precisa fazer isso, a gente respeita a religião, professa a religião, a religião é defesa da individualidade que a gente tem que respeitar, não pode ter discriminação, e é isso que eu acho que a gente tem que… a indicação dele ficou muito vinculada à questão religiosa, isso é um equívoco, o que justifica o Ministro Supremo é a defesa da democracia, dos valores da democracia, do Estado de direito, isso é o que se trata, tá certo? Portanto, eu estou aproveitando e sendo aprovado algumas declarações que eu acho que não valeram nada do Messias para tentar acalmar o fundamentalismo religioso.
Chega de jantares, Lula
Bem, eu vou ser franco. Em primeiro lugar, eu concordo com parte da mensagem do [deputado federal] André Janones quando disse que o presidente deveria chamar atos públicos contra a jornada 6×1. E o presidente Lula deveria estar presente nesses atos públicos. Isso está correto. Segunda coisa, que o fim da jornada 6×1 tinha que ser prioridade da comunicação central do governo. Portanto, eu concordo com essa preliminar.
Onde eu discordo, para ser franco? Em primeiro lugar, esse negócio de que une esquerda e direita, eu já ouvi esse discurso, não está por aí. O que você tem é uma direita que está, inclusive, querendo compensação para votar o fim da jornada 6×1, uma espécie de ‘bolsa-patrão’. Então, juntar gregos e troianos não é bem o caminho.
Segunda observação, essa ideia do Lula se afastar da presidência da República para fazer campanha, primeiro que é inadequado. O Lula pode fazer campanha política como chefe de Estado e chefe de governo sem se afastar. Aliás, a experiência do Petro na Colômbia e da Claudia Sheinbaum no México mostra que você pode fazer disputa política no cargo de presidente da República. Eu acho que o Lula está tendo uma grande oportunidade. Não dá para cravar que nós estamos perdendo essa oportunidade. Ele [Janones] está exagerando, ele está precipitado.
Lula, deixe de fazer jantares, deixe de fazer conciliábulos, deixe de liberar emenda, cuide só do fim da jornada 6×1 e priorize o debate nas ruas, nos pronunciamentos, nas plenárias, para a gente derrotar a extrema-direita fascista. Qual é o caminho para o Lula recuperar a expectativa de poder? Ruas, mobilização. O Alcolumbre e o Motta estão com 2% ou 3% de aprovação, o Lula está com 45%, metade da população, praticamente. Então, acho que temos que ver que a nossa força é nas ruas.
Lula, se você estiver ouvindo, ou se alguém estiver ouvindo, não indique ninguém para o Supremo Tribunal Federal até a eleição. Você deve se concentrar na sua reeleição, na nossa reeleição. E após a reeleição, a gente vai fazer as indicações. (…) Eles estão querendo derrotar Luiz Inácio Lula da Silva para voltar a ocupar a presidência da República em 2026. É disso que se trata. Então, qualquer indicação que o Lula faça vai ser usada como arma para fazer disputa política.
Incoerências
Quando o PT comete incoerência, a gente pode correr o risco de perder no voto e perder a dignidade. Isso é muito ruim para o político, entendeu? E eu estou sendo muito franco contigo. Por exemplo, eu acho que o Messias tem biografia, tem currículo e tem saber jurídico. Notável saber jurídico para ser ministro da Suprema. Ele não precisava ficar fazendo aqueles discursos religiosos para satisfazer o fundamentalismo religioso de alguns bolsonaristas. Não precisava, até porque ele é religioso, respeita a separação da Igreja do Estado e vamos discutir o papel do Supremo, o papel da Constituição, o papel da democracia, é disso que se trata. Você sabe que quando a gente levanta o corpo e baixa a cabeça, não é o melhor caminho para a gente dialogar e enfrentar a direita.”
Impressão positiva de São Paulo
Haddad está cumprindo um excelente papel como candidato a governador e a diferença de Tarcísio para ele tende a cair. Eu acho que o Haddad está cumprindo um grande papel. Primeiro, quero elogiar a atitude dele de ser candidato em nome do projeto nacional. (…) Em Minas Gerais, fico meio perplexo com essa decisão do Rodrigo Pacheco. Ele não quer ser indicado para governador. Na verdade, ele está chateado porque ele queria estar no Supremo, vamos ser claros. Com o apoio do Alcolumbre, inclusive. Uma vaga no TCU, uma vaga no STJ… isso é permanente, é eterna, com salários altos. E outra coisa, essas carreiras estão interferindo muito na política.
Prerrogativa do presidente
O que está acontecendo nesse episódio? Por parte do Senado e por parte do Supremo, querer tirar a prerrogativa do presidente da República de indicar um nome para a vaga do Supremo. Quer dizer, nós temos um presidencialismo tutelado. Antigamente era tutelado pelas Forças Armadas, com o artigo 142. Agora passa a ser tutelado pelo Congresso e depois por alguns ministros do Supremo que opinam sobre quem deve ser indicado ou não. (…) É para tirar o poder do presidente da República. Porque a tática do neoliberalismo é esvaziar o chefe de Estado e chefe de governo que é eleito pelo voto popular. E eu acho que o Lula está nessa encruzilhada. Para romper com essa encruzilhada, Lula, dialogue com a sociedade, com as ruas, com a mobilização popular.
Mais indignação, por favor
Estar abatido, deprimido ou cético não é o caminho. Nós temos que ficar mais revoltados, mais indignados, e é possível. (…) O PT Nacional tem que ouvir mais as bases. Tem que sair dessa oligarquização de cima para baixo. O PT Nacional tem que levar em conta as realidades estaduais. (…) Essa história de só bater palma e tudo depende do Lula é um erro. O PT tem um objetivo mais longo do que um governo de quatro anos. Ele não pode ser uma alça apenas do governo Lula. Ele tem que ser uma voz. Quando o PT baixa a cabeça, perde a dignidade.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/genoino-pede-jaques-wagner-fora-da-lideranca-do-senado-e-cobra-de-lula-giro-para-as-ruas/

