A morte de Raimundo Rodrigues Pereira, aos 85 anos, no Rio de Janeiro, provocou forte comoção entre jornalistas, intelectuais e lideranças políticas. Fundador do histórico jornal Movimento e um dos maiores nomes da imprensa alternativa no Brasil, ele deixa uma trajetória marcada por rigor profissional, coragem e compromisso inegociável com a democracia.
O escritor e jornalista Fernando Morais sintetizou sua dimensão com precisão:
“O mais completo jornalista brasileiro. Pautava, apurava, escrevia, editava como nenhum outro. E, como se não bastassem todas essas virtudes, era um comunista desde sempre.”
A carreira de Raimundo foi construída em meio a um dos períodos mais duros da história nacional: a ditadura militar. Com passagens por veículos como a revista Realidade e o jornal O Estado de S. Paulo, destacou-se pela excelência técnica e pela capacidade analítica. Mas foi na imprensa alternativa que sua atuação ganhou dimensão histórica.
Um jornal contra a ditadura
Em 1975, em plena vigência do regime comandado pelo general Ernesto Geisel, Raimundo fundou o Movimento. Mais do que um jornal, tratava-se de um instrumento de resistência política.
A ideia surgiu após sua ruptura com Fernando Gasparian, dono do jornal Opinião. Raimundo discordava da tentativa de aproximação com o governo Geisel, que prometia uma abertura “lenta, gradual e segura”. Para ele, aquela política não atendia aos interesses populares.
Dessa divergência nasceu o sonho de um jornal sem patrões — financiado por jornalistas, intelectuais e apoiadores — e totalmente independente de grupos econômicos ou do Estado.

Imprensa sob censura
Desde o início, o Movimento foi tratado como inimigo pelo regime. Submetido à censura prévia, o jornal tinha suas edições enviadas à Polícia Federal antes da publicação. O que escapava do corte voltava mutilado. Nada podia ser acrescentado depois.
Entre 1975 e 1978, cerca de 3 mil textos e outras 3 mil ilustrações foram censurados. Reportagens inteiras desapareceram. O jornal chegou a ser apreendido. Nem mesmo o nome do jornalista Vladimir Herzog podia ser citado.
Ainda assim, resistiu.
Com sucursais em várias capitais e uma rede de colaboradores que incluía nomes como Chico Buarque, Fernando Henrique Cardoso e Paul Singer, o jornal tornou-se um dos principais polos de articulação da oposição democrática.
Jornalismo como militância
Raimundo acompanhava todas as etapas do processo jornalístico: da pauta à edição. Exigia precisão, profundidade e responsabilidade. Para ele, jornalismo não era apenas informar — era transformar.
O Movimento denunciava a crise econômica, a desigualdade social, a repressão política e dava voz à classe trabalhadora. Cobriu de perto as greves do ABC e o surgimento de novas lideranças sindicais, como Luiz Inácio Lula da Silva.
Também defendeu pautas centrais da redemocratização: anistia, liberdades civis e uma Assembleia Constituinte.
O fim e o legado
O jornal circulou até 1981. Paradoxalmente, a própria redemocratização contribuiu para seu fim. Com a abertura política e o surgimento de novos partidos, a frente ampla que sustentava o Movimento se fragmentou.
Além disso, atentados contra bancas de jornal e pressões políticas enfraqueceram sua distribuição.
Mas o impacto já estava feito.
Raimundo Rodrigues Pereira deixa um legado raro: o de um jornalista completo, que dominava todas as etapas do ofício e colocou esse conhecimento a serviço da democracia. Sua trajetória segue como referência para quem acredita em uma imprensa independente, crítica e comprometida com o interesse público.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/morre-raimundo-rodrigues-pereira-o-jornalista-que-fez-da-resistencia-um-oficio/

