“Presidente muito dinâmico, um homem inteligente”, assim Donald Trump descreveu Luiz Inácio Lula da Silva após o encontro entre os dois na Casa Branca, na última quinta-feira (7) em Washington. A descrição feita pelo presidente dos EUA não poderia ser mais acertada: enquanto setores da imprensa alardeavam o fim do governo Lula, após amargar traições no Congresso na última semana, o presidente brasileiro voltou a mostrar vigor, reposicionando a agenda política dentro e fora do Brasil.
Com o foco no fortalecimento das relações bilaterais, os dois presidentes trataram de temas econômicos e estratégicos. Em ambiente cordial, Lula revelou ter abordado a questão comercial, um dos temas centrais atualmente na relação entre os dois países. “Tem uma divergência entre eles e nós que ficou explicitada na reunião. O ministro dele falou uma coisa, os nossos ministros falaram outra”, disse.
A equipe brasileira argumenta que o Brasil atualmente tem déficit de US$ 14 bilhões com os EUA. Por outro lado, a administração Trump acusa a alta taxação dos impostos brasileiros. Contudo, observou Lula, a média do imposto cobrado pelo Brasil é de 2,7%, contrastando com as altas tarifas impostas pelos norte-americanos.
Como forma de superação do impasse, Lula anunciou, na entrevista, uma nova rodada de negociações comerciais em 30 dias como forma de cooperação para chegar a um acordo.
“Vamos fazer o seguinte, vamos colocar um grupo de trabalho e vamos permitir que esse moço da Indústria e Comércio do Brasil, junto com o teu moço do comércio, sentem em 30 dias. Apresente para nós uma proposta para a gente poder bater o martelo. Quem tiver errado vai ceder. Se alguém tiver que ceder, nós vamos ceder. Se vocês tiverem que ceder, vocês vão ter que ceder”, afirmou.
Outro ponto da conversa foi a exploração de minerais críticos e terras raras. O presidente afirmou que apresentou a Trump o marco legal dos minerais críticos aprovado pela Câmara dos Deputados nesta semana, em uma sinalização de que o Brasil tenta oferecer uma base regulatória para destravar investimentos no setor. A proposta estabelece medidas para fomentar a exploração e o processamento de minerais vitais para os setores de tecnologia, transição energética, indústria automobilística e defesa.
“Queremos compartilhar nosso potencial com quem queira fazer investimentos no Brasil. Não temos preferência. Queremos compartilhar com empresas americanas, chinesas, alemãs, japonesas, francesas. Quem quiser participar conosco, para ajudar a fazer a separação e produzir riquezas, estão convidados ao Brasil. E isso é permitido pela regulação aprovada”, disse.
Lula destacou, no entanto, que pretende manter soberania sobre a exploração desses recursos. “O que nós não queremos é ser meros exportadores dessas coisas. Nós não queremos repetir o que aconteceu com a prata na América Latina, com o ouro, o que aconteceu com o ouro durante mais de cem anos no Brasil sendo mandado para fora, como acontece com o minério de ferro. A gente manda muito minério para fora e poderia ter feito um processo de transformação interna que não fez”, declarou.
A questão do crime organizado foi outro ponto discutido. Embora o tema da classificação dos EUA de facções do PCC e CV como organizações terroristas pelos EUA não tenha sido abordado, Lula defendeu que o combate ao tráfico de drogas e armas deve ser compartilhado entre os países, sem a hegemonia de uma única nação. O petista diz ainda ter destacado para Trump que, historicamente, os Estados Unidos falam em combater o crime organizado e o tráfico de drogas por meio da instalação de bases militares em outros países, mas sem atacar a raiz do problema. Como saída, Lula diz ter sugerido a criação de um grupo de trabalho internacional para lidar com as questões do crime organizado e lavagem de dinheiro, destacando a importância de uma abordagem coletiva.
“Como você vai fazer um país deixar de produzir coca se você não oferece alternativa de outro produto para que alguém possa plantar a ganhar dinheiro? E nós temos que incentivar o plantio de outra coisa e sermos os compradores para que as pessoas possam sobreviver. Enquanto houver gente necessitada de recursos e consumidores, não vamos parar de ter o mundo cheio de droga por tudo quanto é lado”, disse o presidente.
Trump nas eleições
Apesar do esforço do bolsonarismo nos últimos tempos de usar Trump como um fator de interferência nas próximas eleições, Lula reafirmou que não teme interferência de Trump nas eleições:
“Não acredito que [Trump] terá influência nas eleições brasileiras, até porque quem vota é o povo brasileiro. Acho que ele vai se comportar como o presidente dos Estados Unidos, deixando que o povo brasileiro defina seu destino”, afirmou o petista.
Ainda no tema de soberania, Lula revelou que Trump afirmou não ter interesse em invadir Cuba, o que foi interpretado como um sinal positivo para o possível fim do bloqueio econômico imposto pelos EUA. A declaração foi vista como um passo em direção ao diálogo, uma abertura para resolver a questão diplomática que perdura desde 1959.
Lula aproveitou para lembrar que, durante todo o século XX, os Estados Unidos foram o principal parceiro comercial do Brasil. Mesmo a China atualmente sendo o seu principal parceiro, Lula declarou a importância que os Estados Unidos voltem a fazer negócios com o Brasil. “Nós temos interesse, muito interesse, que os Estados Unidos voltem a investir no Brasil”, afirmou.
Além disso, o presidente destacou que a cooperação nas áreas de infraestrutura e energia poderia abrir novas oportunidades de negócios e investimentos, com o Brasil se mostrando disposto a colaborar com empresas de diferentes países.
Na mesma coletiva, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Marcos Elias Rosa, que fez um balanço positivo do encontro, informou que o presidente indicou a Trump a necessidade de concluir a seção 301, que impõe regras sobre as tarifas. Como isso ocorrerá nos próximos 30 dias, ainda não é possível prever. No entanto, se Lula estiver certo sobre o que disse a Trump, de que “o riso alivia a alma”, o ambiente amistoso do encontro histórico entre os dois deve servir de modelo no contexto em que o mundo entra na espiral de guerras.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/lula-na-casa-branca-presidente-sai-mais-forte-de-encontro-com-trump/

