O Brasil assiste, nesta terça-feira (12), a uma movimentação de peças no tabuleiro institucional que evoca os fantasmas mais sombrios de um passado muito recente. A troca de comando no Tribunal Superior Eleitoral, com a ascensão do ministro Kássio Nunes Marques à presidência da Corte, não é apenas um rito de passagem burocrático ou uma alternância de poder protocolar. Para o ecossistema bolsonarista, o evento é lido como a abertura de uma “janela de oportunidades” estratégica para restaurar a tática do caos informacional e pavimentar o caminho de volta ao Palácio do Planalto, sabotando as travas democráticas estabelecidas a duras penas nos últimos quatro anos.
Para compreender a gravidade do momento, é preciso revisitar o que ocorreu em 2022. Naquele pleito, a Justiça Eleitoral brasileira, sob a liderança firme, técnica e muitas vezes solitária do ministro Alexandre de Moraes, operou como um autêntico para-choque institucional contra a barbárie. O TSE de então não apenas organizou o pleito; ele combateu, em tempo real, a principal e mais letal arma da extrema direita: a mentira industrializada e a desinformação algorítmica.
Decisões céleres de retirada de conteúdos, multas pesadas contra redes de desinformação e o desmantelamento de ecossistemas de fake news foram fundamentais para que o processo eleitoral não fosse sequestrado por uma narrativa paralela delirante. O bolsonarismo, habituado a operar num vácuo de regulação e a fazer do “gabinete do ódio” uma ferramenta de Estado, jamais perdoou o TSE por ter sido “rígido demais” na defesa da verdade factual e a integridade das urnas. Aquela atuação exemplar foi o que garantiu que a vontade popular fosse respeitada, apesar das tentativas de uso das forças de segurança e do aparato estatal para suprimir votos em regiões específicas.
O “fator Kássio” e a provocação como método de governo paralelo
A chegada de Nunes Marques ao comando do TSE altera drasticamente a temperatura e a própria hermenêutica do tribunal. Indicado por Jair Bolsonaro com a missão explícita, e muitas vezes vocalizada, de representar seus interesses no Judiciário, Kássio não esperou sequer a posse oficial para sinalizar sua lealdade ao criador político. O convite estendido a Jair Bolsonaro para a cerimônia foi recebido nos corredores de Brasília não como uma gentileza, mas como um tapa na face das instituições.
Recordemos: Bolsonaro não é apenas um ex-presidente. Ele é um condenado por tentativa de golpe de Estado, cumprindo prisão domiciliar e sob forte vigilância da Polícia Penal. Ao convidá-lo, Kássio tenta conferir uma aura de “normalidade institucional” a alguém que dedicou quatro anos a tentar implodir o prédio onde o ministro agora senta na cadeira de chefe. A justificativa oficial de que “todos os ex-presidentes foram convidados” é uma cortesia cínica. Ao incluir na lista nomes como Fernando Collor, também condenado e em situação de restrição de liberdade, o novo presidente do TSE tenta criar uma espécie de comunhão de sentenciados, tratando o crime contra a democracia como se fosse apenas uma nota de rodapé biográfica.
Acompanhando Nunes Marques, o cenário torna-se ainda mais nebuloso com a presença de André Mendonça na composição da Corte eleitoral. Conhecido pela submissão quase teocrática aos anseios da família Bolsonaro, Mendonça completa o binômio que a extrema direita vê como a “salvação” para as eleições de outubro. Se em 2022 o TSE era visto pelo bolsonarismo como um tribunal de “enfrentamento”, a aposta para 2026 é que ele se torne um tribunal de “omissão estratégica”. Eles contam com a lentidão proposital, com os pedidos de vista que travam julgamentos e com o relaxamento das normas de fiscalização de propaganda eleitoral e desinformação para reviver despautérios como a “mamadeira de piroca”.
Naturalização do absurdo pela mídia corporativa: O perigo do “perfil menos intervencionista”
É sintomático e profundamente preocupante como setores da imprensa corporativa já começam a moldar a opinião pública para aceitar essa possível degradação institucional. Notícias circulam com uma desenvoltura assustadora afirmando que “a eleição deste ano será diferente”, ou que o TSE terá um “perfil menos intervencionista”. É preciso dar nome aos bois: o que a grande mídia chama suavemente de “intervencionismo” nada mais é do que o cumprimento estrito do dever constitucional de garantir a higidez do voto e a igualdade de armas entre os candidatos.
Sugerir que a fiscalização contra mentiras será relaxada por “razões ideológicas” ou por uma “mudança de estilo” dos novos ocupantes das cadeiras é admitir, antecipadamente, a falência de um dos pilares da República. Não existe meio-termo na aplicação da lei contra a desinformação: ou o Tribunal protege o eleitor da fraude cognitiva, ou ele se torna cúmplice do estelionato eleitoral. A tentativa da mídia corporativa de naturalizar uma Justiça Eleitoral “mais mansa” é, na prática, um convite para que as milícias digitais liguem novamente os seus motores de ódio, sabendo que a punição agora passará pelo crivo de ministros que devem seus cargos ao líder do movimento.
Desespero parlamentar e a ressurreição da anistia como barganha
Enquanto Kássio assume o comando do TSE, o Congresso Nacional torna-se palco de uma ofensiva desesperada que corre em paralelo. A decisão recente de Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal, que paralisou a aplicação da chamada Lei da Dosimetria e travou os benefícios indiretos aos condenados pelo 8 de janeiro de 2023, deixou a bancada da extrema direita em estado de choque. Sem o Judiciário para lhes dar a retaguarda que esperavam, os parlamentares bolsonaristas ressuscitaram, com força total, a PEC da Anistia.
O objetivo é cristalino: um perdão total, amplo e irrestrito que apague as manchas de sangue e de depredação das sedes dos Três Poderes. Trata-se de uma tentativa de “virar a mesa” legislativa para anular as decisões do Supremo e reabilitar politicamente figuras que, por lei, deveriam estar banidas da vida pública. Eles investem numa suposta “mudança de ventos” global e nacional, alimentada por vitórias da extrema direita em outras partes do mundo, acreditando que a fadiga das instituições brasileiras lhes permitirá passar a borracha na História. Para o bolsonarismo, a anistia não é um gesto de pacificação ou de “união nacional”, como tentam vender em suas redes sociais. É um salvo-conduto para a reincidência golpista.
O risco da “mudança de ares”: O Brasil no fio da navalha
A estratégia da extrema direita brasileira segue um roteiro internacional rigoroso: desacreditar o sistema eleitoral, ocupar espaços-chave com figuras submissas e legislar em causa própria para garantir a impunidade dos seus. Eles não buscam vencer no campo das ideias ou das propostas econômicas; buscam vencer pelo cansaço das instituições e pela saturação da mentira. Acreditam que, se repetirem uma mentira mil vezes sob a presidência de um ministro “amigo”, essa mentira acabará se tornando a verdade oficial da eleição.
O pleito de 2026, que se avizinha em menos de seis meses, desenha-se como o teste definitivo para a resiliência da democracia brasileira. Se o TSE, sob a gestão de Nunes Marques e a influência de André Mendonça, abdicar de sua função de guardião da verdade eleitoral, o país poderá mergulhar num caos informacional ainda mais profundo do que o experimentado em 2018 e 2022.
A “mudança de ares” que o bolsonarismo celebra hoje, com fogos de artifício digitais, é, na verdade, o cheiro de queimado de uma institucionalidade que está sendo incinerada por dentro. Eles contam com a complacência, com o “deixa disso” e com a memória curta de grande parte da população. Agora, precisamos ver até onde vai essa mudança de ares e o quanto as instituições remanescentes, o Ministério Público Federal, a parcela garantista do STF e a imprensa independente, servirão de guardiãs e para-choque contra esses arruaceiros institucionais. A democracia não é um estado permanente, ela é uma construção que exige manutenção e vigilância diária. E, neste momento, a manutenção parece estar sendo entregue a mãos que, até ontem, empunhavam a marreta para derrubar o edifício inteiro. O Brasil está em alerta máximo. A vigília não pode ser apenas institucional, precisa ser popular e constante. O futuro da nação será decidido não apenas nas urnas, mas na capacidade de impedir que a mentira volte a ser a moeda corrente da política brasileira.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/posse-kassio-tse-anistia-apostas-bolsonarismo/

