Professores que relataram casos de violência em sala de aula – Reprodução/Redes Sociais
Relatos de professores sobre desrespeito, agressividade e desgaste emocional dentro das salas de aula viralizaram nas redes sociais e abriram um debate nacional sobre o ambiente escolar brasileiro.
Um dos vídeos mais compartilhados foi publicado pela professora Geórgia Kimura Noda, de 34 anos, que atua em uma escola pública do Paraná. Durante uma aula para uma turma do 8º ano, ela ouviu de um estudante que uma mulher “muito linda” “poderia estudar”. O episódio foi seguido por novos insultos e levou a docente a perder a paciência diante da classe — algo que, segundo ela, nunca havia acontecido antes em sua trajetória profissional.
“Todo mundo odeia a escola. Parece que ninguém quer estar lá, nem os professores, muito menos os alunos”, afirmou Geórgia nas redes sociais. “Esse foi só mais um episódio de desrespeito, mais um episódio de agressividade. A gente acaba abaixando a cabeça, aceitando e ficando sem resposta. A sala de aula é um ambiente muito hostil.”
A repercussão provocou identificação imediata entre educadores de várias regiões do país, que passaram a relatar experiências semelhantes envolvendo xingamentos, ameaças, falta de limites e episódios de violência física.
A professora Georgia Kimura usou as redes sociais para expor situações de violências psicológicas que o aluno comete todos os dias. Sou professora e tudo que ela disse é a pura verdade. A causa maior penso que são dos pais que não educam seus filhos a respeitar o professor. pic.twitter.com/OJOK5BT6pv
— 𝐀𝐧𝐭𝐢𝐟𝐚 𝐍𝐚𝐭𝐮𝐫𝐚𝐥𝐦𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐆𝐚𝐭𝐚 (@CantiiSandra) May 11, 2026
Entre os casos compartilhados está o do professor Luiz, de 26 anos, que trabalha em uma escola municipal de Goiânia. Ele contou ter sido insultado por um aluno após pedir que o estudante sentasse em seu lugar e realizasse uma atividade.
“Acabei de sair da escola e estou esgotado. Hoje, um aluno mandou ‘tomar no c…’. Isso me cansa. Essa falta de respeito, de limites. A falta de interesse que nós, professores, enfrentamos todos os dias”, relatou.
Outro episódio ocorreu em uma escola municipal de Magé, no Rio de Janeiro, onde o professor Rafael Guimarães afirmou ter levado um soco de um aluno do 4º ano após uma discussão em sala de aula.
Eu amo o que eu faço, mas passar por situações assim me exigem um controle emocional e me fazem dispor de uma energia enorme. Porque eu sinto vontade de chamar o responsável na escola e colocar pra fora tudo que eu penso, sacudir, e falar: “É TEU FILHO! É UMA CRIANÇA! FAÇA SEU PAPEL!” (aliás, eu sequer consegui falar com o responsável. Não recebeu minhas mensagens, não atendeu as ligações. Eu que lute!) Eu não culpo o aluno, a criança… Ele agiu mal, ele passou dos limites, mas ele agiu como ele aprendeu, como ele sabe agir até agora. Porque não tem um adulto, UM RESPONSÁVEL que ensine o correto, que indique o caminho. Muito difícil. Muito complicado. Mas sigo dando o meu melhor, e fazendo o melhor que posso. Amanhã é outro dia… . . . #professor#educação#escola#realidadedasaladeaula#saladeaulareal
Especialistas apontam que o aumento da tensão nas escolas está ligado a transformações mais amplas no comportamento social, agravadas pelo impacto da pandemia, pelo desgaste emocional coletivo e pelo uso intenso de redes sociais e celulares.
Dados da Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis), vinculada à Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, mostram que quase metade dos professores brasileiros afirma sofrer intimidação ou abuso verbal de alunos como fator de estresse no trabalho.
A psicóloga Bruna Seling, que atende profissionais da educação, afirma que o problema também está relacionado à baixa valorização da carreira docente, aos salários reduzidos e à dificuldade crescente de lidar com conflitos em sala de aula.
Já a pesquisadora Luciene Tognetta, do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem), ligado à Universidade Estadual Paulista e à Universidade Estadual de Campinas, avalia que o comportamento dos estudantes mudou profundamente com a presença constante das tecnologias digitais.
Segundo ela, o acesso sem supervisão a conteúdos violentos, discursos de ódio e manipulação emocional nas redes pode influenciar diretamente o comportamento agressivo dentro das escolas.
Educadores da rede privada também relatam piora no ambiente escolar desde a pandemia. Coordenadores e professores afirmam perceber aumento do desinteresse pelas aulas, dificuldade de concentração e crescimento dos conflitos entre alunos e docentes.
Para especialistas, o fenômeno reflete uma combinação de fatores sociais, tecnológicos e emocionais que ultrapassam os limites da escola e atingem diretamente a convivência cotidiana dentro das salas de aula.