Zelle: sistema dos EUA que Eduardo Bolsonaro quer trocar pelo Pix é ninho de fraudes

Eduardo Bolsonaro, Donald Trump e Mário Frias

Em um movimento que expõe a submissão da família Bolsonaro aos interesses de Washington, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) admitiu publicamente a disposição de negociar o Pix brasileiro para atender às exigências do governo de Donald Trump. A declaração, feita em vídeo, é um acinte à soberania nacional e à eficiência tecnológica, especialmente quando se observa a realidade do sistema que ele propõe como alternativa: o Zelle.

“Os Estados Unidos têm mecanismos muito semelhantes ao Pix, como por exemplo o Zelle, que é o Pix dos Estados Unidos. Aqui é o Zelle. Então dá para você ir para uma mesa de negociação com os americanos”, afirmou Eduardo Bolsonaro, demonstrando um desconhecimento alarmante sobre a natureza e o funcionamento de ambos os sistemas.

Essa fala surge após os Estados Unidos intensificarem seus ataques ao Pix, utilizando a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 para investigar o sistema brasileiro, sob a alegação de práticas prejudiciais aos interesses econômicos americanos.

Zelle: Longe de ser o Pix dos EUA, um paraíso para golpistas

A comparação de Eduardo Bolsonaro entre Pix e Zelle é, no mínimo, leviana. O Pix é uma infraestrutura pública de pagamentos, acessível a qualquer instituição, empresa ou indivíduo no Brasil, garantindo universalidade e agilidade. O Zelle, por outro lado, é um serviço privado, operado por bancos, usado prioritariamente para pagamentos P2P (pessoa para pessoa) e cuja aceitação está longe de ser universal. Há relatos de associações de moradores que sequer aceitam Zelle para o pagamento de mensalidades, preferindo dinheiro ou cheques – uma prova cabal de sua limitada abrangência.

Mas a principal diferença, e a mais preocupante, reside na segurança e na velocidade. Enquanto uma transação no Pix é compensada em um ou dois segundos, no Zelle, a compensação leva “alguns minutos”, segundo a própria explicação dos responsáveis. Isso significa que o Zelle é impraticável para o dia a dia do brasileiro, inviabilizando pagamentos a vendedores ambulantes, motoristas de táxi ou qualquer serviço que exija compensação imediata. A sugestão de trocar o Pix por um sistema tão custoso e ineficiente é, portanto, desastrosa para o cidadão comum.

A epidemia de fraudes no Zelle: milhões de dólares perdidos

Além da ineficiência, o Zelle é notório por ser um terreno fértil para fraudes e golpes. Em 2023, o sistema facilitou mais de 2,9 bilhões de transações, totalizando mais de US$ 806 bilhões em pagamentos. No entanto, por trás desses números, esconde-se uma realidade sombria. Embora a empresa por trás do Zelle afirme que menos de 0,001% das transações reportaram fraude, um relatório da CNN revelou que os consumidores perderam US$ 210 milhões para golpistas em aplicativos de pagamento e serviços apenas em 2023. Uma pesquisa da J.D. Power, empresa de pesquisas independentes de satisfação do cliente e qualidade de produtos, indicou que ao menos 3% dos usuários do Zelle perderam dinheiro para golpistas.

Os tipos de golpes são variados:

  • Golpes de personificação: Fraudadores se passam por representantes de bancos ou contatos confiáveis, induzindo usuários a enviar dinheiro.
  • Vendas falsas: Usuários são enganados a pagar por bens ou serviços inexistentes, frequentemente anunciados em classificados ou redes sociais.
  • Golpes de aluguel: Indivíduos em busca de imóveis são levados a pagar depósitos via Zelle a proprietários fraudulentos que desaparecem após receber o pagamento, um problema particularmente prevalente em mercados imobiliários competitivos.
  • Golpes bancários: Clientes relataram perdas de milhares de dólares devido a golpistas que se passavam por representantes de bancos.

Diante dessa epidemia de fraudes, o Zelle tem sido alvo de escrutínio. Em agosto, grandes bancos como JPMorgan Chase e Wells Fargo foram contatados pelo Consumer Financial Protection Bureau (CFPB), agência federal dos Estados Unidos responsável por fiscalizar bancos e instituições financeiras, sobre a forma como lidam com disputas de clientes.

O CFPB investiga se os bancos estão agindo com rapidez suficiente para fechar contas de golpistas e se estão fazendo o bastante para identificar e prevenir que golpistas abram novas contas. Democratas no Congresso também introduziram legislação para combater esses golpes, e o Zelle agora exige reembolsos para vítimas de golpes de personificação qualificados.

Alguns bancos têm implementado proativamente programas para reduzir a ocorrência de fraudes, incluindo autenticação multifator, algoritmos de detecção de fraude, educação do usuário, alertas de transação e limites de envio. Contudo, o relatório do Subcomitê Permanente de Investigações de Segurança Interna e Assuntos Governamentais revelou que apenas 12% dos consumidores foram reembolsados por pagamentos contestados como golpes no Zelle em 2023. Isso demonstra a fragilidade do sistema e o risco que sua adoção representaria para a população brasileira.

A proposta de Eduardo Bolsonaro de trocar o Pix pelo Zelle não é apenas um erro técnico ou uma falha de análise; é uma demonstração de alinhamento cego com interesses estrangeiros, em detrimento de um sistema nacional que provou ser eficiente, seguro e inclusivo. Sugerir ao pipoqueiro, ao motorista de táxi ou a qualquer brasileiro comum trocar o Pix por um sistema de pagamentos custoso, ineficiente e propenso a fraudes é uma afronta à inteligência e à dignidade do povo brasileiro.

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/zelle-sistema-dos-eua-que-eduardo-bolsonaro-quer-trocar-pelo-pix-e-ninho-de-fraudes/