Alvo de um pedido de investigação que liga o esquema de privatização de estatais do Estado ao escândalo do Banco Master, o governador Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos) manobrou para esvaziar a reunião da Comissão de Assuntos Metropolitanos e Municipais nesta quarta-feira (4) e impedir questionamentos ao presidente da empresa estatizada, Carlos Augusto Leone Piani, que foi retirado da sala pelo deputado Gilmaci Santos (Republicanos) líder do Governo na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp).
O vídeo com o deputado retirando Piani da sala foi divulgado nas redes sociais pela bancada do PT, que acusa o parlamentar de “atropelar de forma violenta a condução da Presidenta da Comissão, Ana Carolina Serra (PSDB)”.
Diante da manobra de Tarcísio, que esvaziou o quórum para a reunião, deputados que integram a Comissão decidiram ouvir informalmente o diretor-presidente da Sabesp.
No entanto, o líder do governo, que não faz parte da comissão, entrou na sala e simplesmente retirou Piani da Comissão, sob protesto dos deputados.
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“Depois de meses de tentativa de ouvir o presidente da Sabesp aqui na Assembleia Legislativa, o que aconteceu hoje foi mais uma vergonha patrocinada pelo governo Tarcísio. Esvaziaram a comissão, tiraram o quórum e o presidente da Sabesp que veio até aqui, entrou de fininho na sala, esperou se constatar que não tinha quórum, mas foi convidado para que fizesse uma oitiva informal com os deputados presentes: eu, deputada Ana Perugini, deputado Eduardo Suplicy, deputado Ricardo Madalena, do PL, e deputada Ana Carolina Serra, que presidia a comissão. E aí o líder do governo, o deputado Gilmaci, de maneira desrespeitosa, impediu que o presidente da Sabesp falasse. Ele retirou o presidente da sala”, afirmou o deputado Antônio Donato (PT) em vídeo nas redes sociais.
“Uma vergonha ao invés do governo do estado exigir explicações da Sabesp sobre o seu péssimo serviço, o aumento das contas de água abusivo, as falhas constantes, os acidentes, a falta de água, enfim uma empresa que tá sendo destruída em menos de 2 anos de privatização, o governo Tarcísio sai pela porta dos fundos com o presidente da Sabesp e não dá esclarecimentos. Não é aos deputados, é ao povo paulista a quem eles deveriam o mínimo de respeito”, emendou.
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Caso Master
Donato é autor da denuncia analisada pela Promotoria de Justiça do Patrimônio Público (PJPP) do Ministério Público de São Paulo obre uma possível conexão entre o escândalo envolvendo o Banco Master, de Daniel Vorcaro, e as privatizações da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, a Sabesp, e da Empresa Metropolitana de Águas e Energia S.A., a Emae, conduzidas pelo governador Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos) entre abril e julho de 2024, em meio à uma série de suspeitas de fraudes.
Donato entrou com o pedido de investigação após levantar informações e divulgar um vídeo, em fevereiro, em que revela “a
existência de complexa arquitetura financeira envolvendo o Banco Master, com potenciais repercussões sobre o sistema financeiro nacional”.
“Parte dessa estrutura envolve organizações societárias e financeiras relacionadas ao Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro, ao investidor Nelson Tanure e ao empresário Carlos Piani, no contexto de operações vinculadas a processos de privatização no Estado de São Paulo”, diz, na representação que está em análise no Ministério Público.
Segundo Donato, o banco Master, de Daniel Vorcaro, teria atuado intensamente na estruturação e no financiamento de grupos empresariais interessados na privatização da EMAE e da Sabesp.
Após receber doação de R$ 2 milhões do pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, em sua campanha ao governo do Estado, Tarcísio de Freitas iniciou seu governo visando as privatizações.
A Emae foi leiloada na Bovespa em 19 de abril de 2024. O Fundo Phoenix sagrou-se vencedor do leilão das ações estaduais da EMAE, pelo valor aproximado de R$ 1,04 bilhão, superando levemente a proposta da EDF. O fundo foi constituído em 20/03/2024, menos de um mês antes do certame, e teve como principal lastro ações da AMBIPAR.
Segundo Donato, as ações foram infladas em mais de 700% em uma ação estruturada realizada pelo presidente do Conselho de Administração da Ambipar, Carlos Augusto Leone Piani, que ficou no cargo até 24 de setembro de 2024.
Conforme o Parecer Técnico da Superintendência de Registro de Emissores da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o pagamento da aquisição de controle da EMAE foi viabilizado pelo Banco Master, via Trustee, por Nelson Tanure e Tércio Borlenghi Junior, fundador e controlador da Ambipar, por meio de uma emissão privada de debêntures da Phoenix S.A..
Além disso, após ser privatizada, a EMAE elegeu como presidenta Karla Maciel Dolabella, que antes liderava a área de fusões e aquisições do Banco Master. Membro do Conselho de Administração da Light, Karla Maciel renunciou em dezembro de 2025 aos cargos de CEO e de diretora de Pessoas e Sustentabilidade na Emae por “razões de foro pessoal”.
A renúncia aconteceu na esteira das investigações de Daniel Vorcaro pela Polícia Federal e em meio à transferência do controle da EMAE para a Sabesp, em outro movimento recheado de indícios de fraudes.
Sabesp
Em julho de 2024, o governo Tarcísio de Freitas abriu mão do controle da Sabesp vendendo ações de uma das maiores empresas de saneamento do mundo por um valor 44% abaixo do real, segundo especialistas do Observatório Nacional das Águas (Ondas), da Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp) e da Associação de Profissionais Universitários da Sabesp (APU).
“Tarcísio de Freitas privatiza a Sabesp. E quem compra a Sabesp? A Equatorial. Quem era o presidente do Conselho Administrativo da Equatorial? Carlos Piani, que também a acumulava a presidência do conselho administrativo da Ambipar”, diz Donato no vídeo, que originou a ação.
Após deixar a presidência do Conselho da Ambipar, Piani assume, em outubro de 2024, a presidência da Sabesp. E segue no posto até os dias atuais. Na última sexta-feira (8), a Sabesp, agora controlada pela Equatorial, se credenciou também para a privatização da Copasa, empresa estatal de saneamento de Minas Gerais, colocada à venda durante a gestão Romeu Zema.
“Julho a setembro de 2025: Nelson Tanure pega R$ 160 milhões de reais do Caixa da Emae e compra CDBs podres do Banco Master. Outubro de 2025: Tanure não quita o empréstimo com a XP Investimentos que lhe permitiu comprar a Emae. A XP executa a dívida e assume o controle da Emae. Imediatamente depois, a Sabesp privatizada, comandada por Carlos Piani, compra a Emae da XP”, conta Donato.
“Resumindo, Carlos Piani, que no início estruturou uma operação fraudulenta para comprar a Emae, agora fecha o círculo e leva para dentro da Sabesp privatizada a Emae, uma empresa estratégica para gestão dos recursos hídricos do Estado de São Paulo. Novembro de 2025: Banco Master é liquidado pelo Banco Central e esse esquema todo começa a ser investigado. Tarcísio, não adianta esconder, as suas relações com o Banco Master estão todas aqui”, conclui Donato no vídeo.
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Na ação, Donato detalha a participação de Zettel, que doou R$ 2 milhões para a campanha de Tarcísio e R$ 3 milhões para Jair Bolsonaro em 2022.
Segundo a representação, o cunhado de Vorcaro e pastor da igreja Lagoinha, de André Valadão, foi uma das peças do Banco Master na parceria para aquisição da EMAE, envolvendo Nelson Tanure, a AMBIPAR, a REAG gestora de fundos e a Trustee DTVM, administradora da rede de fundos pertencentes a esses atores.
“Todos são hoje investigados no âmbito das Operações Carbono Oculto e Compliance por lavagem de dinheiro para o PCC e por fraudes financeiras e contábeis”, relata o documento, que inclui um fluxograma sobre o grupo.
O deputado pede investigação do grupo por crimes contra o mercado de capitais, contra o sistema financeiro nacional, lavagem de dinheiro, organização criminosa e atos de improbidade administrativa.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/elo-com-escandalo-do-master-tarcisio-impede-diretor-da-sabesp-de-se-explicar/

