Estudo da UFPA alerta para lagos Água Preta e Bolonha

Um estudo inédito conduzido por pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA) acendeu um alerta sobre a situação ambiental dos lagos Água Preta e Bolonha, responsáveis pelo abastecimento de aproximadamente 70% da população da Região Metropolitana de Belém. A pesquisa revelou impactos provocados pela ação humana e reforçou a necessidade de monitoramento permanente desses importantes reservatórios.

Metodologia e abrangência do estudo

Desenvolvido pelo Laboratório de Pesquisa em Monitoramento Ambiental Marinho (LAPMAR), vinculado ao Instituto de Geociências da UFPA, o trabalho analisou aspectos biológicos, físicos, químicos e socioeconômicos dos lagos. O estudo, coordenado pelo professor Marcelo Rollnic, foi realizado entre 2022 e 2024 em parceria com a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas).

Localizados no Parque Estadual do Utinga, os lagos desempenham papel estratégico para o abastecimento de água da capital paraense e para a manutenção da biodiversidade local. Durante a pesquisa, os cientistas identificaram 77 espécies de macrófitas aquáticas, 62 espécies de peixes e 38 grandes grupos de macroinvertebrados, evidenciando a relevância ecológica dos reservatórios.

Pesquisa inédita analisou biodiversidade e qualidade da água nos lagos que abastecem grande parte da população da Grande Belém. Foto: divulgação/reprodução

O projeto foi estruturado em sete metas temáticas e buscou produzir um diagnóstico ambiental abrangente, capaz de avaliar os impactos das atividades humanas ao longo do ano. Segundo os pesquisadores, o principal diferencial foi a construção de uma matriz ambiental integrada, reunindo especialistas de diferentes áreas do conhecimento.

A professora Sury Monteiro, integrante da equipe, destacou que o estudo contou com coletas mensais e uma metodologia contínua que permitiu compreender de forma mais robusta a dinâmica dos lagos. Segundo ela, esse tipo de acompanhamento sistemático nunca havia sido realizado de maneira tão ampla na região.

Impactos da ação humana e degradação hídrica

As análises apontaram que o crescimento populacional desordenado e a falta de saneamento básico vêm provocando impactos diretos nos reservatórios. Os pesquisadores identificaram lançamento de esgoto sem tratamento em áreas próximas aos lagos, situação que contribui para a deterioração da qualidade da água.

De acordo com Marcelo Rollnic, os resultados mostraram maior degradação da qualidade hídrica nas porções norte dos dois lagos. Nessas áreas foram registradas concentrações mais elevadas de fósforo total e coliformes termotolerantes, além de baixos níveis de oxigênio dissolvido. Apesar disso, outras regiões dos reservatórios ainda apresentam condições consideradas satisfatórias.

O levantamento também avaliou a biodiversidade local e identificou a presença de metais como alumínio e bário em peixes e macrófitas aquáticas, indicando processos de absorção e bioacumulação. Os pesquisadores encontraram ainda baixas concentrações de Hidrocarbonetos Policíclicos Aromáticos (HPAs), com maior ocorrência no lago Bolonha e na porção oeste do Água Preta. As substâncias estão associadas principalmente à combustão de veículos e à queima de biomassa.

Cientistas da UFPA encontraram sinais de degradação ambiental em áreas dos lagos Água Preta e Bolonha. Foto: divulgação/reprodução

Comparativo entre os lagos e recomendações

Entre os dois reservatórios, o lago Água Preta apresentou melhores indicadores ambientais. O local registrou maior diversidade biológica e melhor integridade ecológica. Já o lago Bolonha apresentou menor diversidade de espécies, predominância de poucos grupos de organismos e sinais mais evidentes de degradação ambiental.

Os resultados mostram que o Água Preta mantém maior capacidade de recuperação natural diante das pressões ambientais. Em contrapartida, o Bolonha apresenta indícios mais fortes de eutrofização, fenômeno caracterizado pelo excesso de nutrientes na água, que pode comprometer a qualidade ambiental e reduzir a biodiversidade.

Diante do cenário identificado, os pesquisadores defendem a adoção de medidas para fortalecer a preservação dos lagos. Entre as principais recomendações estão o combate a ocupações irregulares, a fiscalização de ligações clandestinas de esgoto, o controle do descarte inadequado de resíduos, além da ampliação de ações de educação ambiental.

A equipe também recomenda o desenvolvimento de pesquisas interdisciplinares envolvendo as comunidades do entorno e a realização de monitoramento contínuo da fauna aquática por pelo menos cinco anos consecutivos. Para os especialistas, essas iniciativas serão fundamentais para garantir a conservação dos reservatórios que abastecem milhões de pessoas na Grande Belém.

*Com informações da Assessoria de Comunicação Institucional da UFPA

Fonte: https://diariodopara.com.br/belem/pesquisa-inedita-da-ufpa-expoe-pressao-crescente-sobre-os-lagos-agua-preta-e-bolonha/