Por Alberto Luchetti, publicado no blog do autor
Em apenas 30 dias, o narrador acumulou problemas de saúde, desgaste profissional, pressão nas redes sociais, disputa judicial milionária e o encerramento antecipado de um contrato estratégico com a Amazon Prime Video.
O veterano narrador, que durante décadas simbolizou a hegemonia da Globo nas transmissões esportivas, atravessou uma sequência rara de desgaste público justamente às vésperas de sua despedida das Copas do Mundo. O mês começou com duas cirurgias e terminou com o anúncio da rescisão de seu contrato com a Amazon, firmado no fim de 2024 e previsto inicialmente até 2027, como noticiaram a revista Exame, a CNN e o portal Terra.
Nos bastidores pesaram críticas recorrentes nas redes sociais sobre o desempenho das transmissões comandadas por Galvão. Em plataformas digitais, multiplicaram-se comentários questionando sua performance, sua capacidade de adaptação ao novo formato das transmissões esportivas e até sua conexão com o público mais jovem.
As críticas à narração de Galvão na Amazon foram publicadas em várias mídias sociais e até na plataforma Reclame Aqui, por um telespectador de São José do Rio Preto, que comprou a exibição e não ficou satisfeito.
“A narração feita por Galvão Bueno foi extremamente frustrante e ultrapassada. Ele não acompanha o ritmo da partida, interrompe constantemente a própria narração com comentários fora de contexto e demonstra total desconexão com o que acontece em campo”, registrou o telespectador na plataforma de solução de conflitos Reclame Aqui.
Ao mesmo tempo, o narrador voltou ao centro de uma disputa judicial milionária. Um empresário pediu o bloqueio de aproximadamente R$ 3,5 milhões em contas ligadas a Galvão Bueno e empresas associadas ao seu grupo empresarial. O caso envolve cobranças relacionadas a honorários advocatícios e ampliou ainda mais a pressão pública sobre o narrador, como registrou o portal O Antagonista.

Tudo isso ocorreu justamente no momento em que o mercado esportivo vive a maior transformação de sua história. A televisão aberta perdeu o monopólio das grandes transmissões, enquanto plataformas digitais avançam rapidamente sobre o público jovem. Hoje, nomes como CazéTV disputam espaço diretamente com emissoras tradicionais e já ameaçam a audiência histórica das grandes redes.
Nesse cenário, a despedida de Galvão Bueno das Copas do Mundo ganhou contornos simbólicos e melancólicos. Após narrar 14 Mundiais, o narrador encerrará sua trajetória justamente no SBT, emissora sem tradição consolidada em transmissões esportivas e distante da força histórica que a Globo construiu ao longo de décadas.
O contraste é inevitável. Galvão ajudou a construir a era de ouro das transmissões esportivas da televisão aberta brasileira. Agora, se despede em um ambiente fragmentado, diante de um público pulverizado entre TV tradicional, streaming e redes sociais.
A emissora de Silvio Santos transmitiu apenas quatro Copas do Mundo de futebol masculino (1986, 1990, 1994 e 1998) e agora tenta retornar ao mercado em um ambiente infinitamente mais competitivo, moderno e digitalizado, muito distante do padrão tradicional de narração do Galvão Bueno e do antigo modelo de transmissões esportivas do próprio SBT.
Além da força histórica da Rede Globo, o SBT terá pela frente o crescimento acelerado das plataformas digitais, especialmente a CazéTV, que exibirá os 104 jogos do torneio e terá partidas exclusivas de seleções como Argentina, Alemanha, Espanha e Portugal. O contraste é inevitável: de um lado, transmissões mais dinâmicas, linguagem mais jovem e formatos atualizados; do outro, um modelo de narração que muitos críticos já consideram ultrapassado para a nova era do consumo esportivo.
O jogo entre Brasil e Marrocos, tratado como um dos marcos finais da trajetória de Galvão Bueno em Copas do Mundo, pode acabar simbolizando exatamente isso: não apenas o encerramento de uma carreira histórica, mas também o fim definitivo de uma era da televisão esportiva brasileira e de um modelo de narração de futebol que muitos já consideram superado.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/de-rei-das-copas-ao-desgaste-no-streaming-o-inferno-astral-de-galvao-bueno/

