Imitando Lula, Flávio Bolsonaro defende Bolsa Família, isenção de IR e relação com a imprensa

Pressionado por um desgaste sem precedentes e pela asfixia eleitoral provocada pelo escândalo do áudio enviado a Daniel Vorcaro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) decidiu dar uma guinada dramática em sua estratégia de pré-campanha à Presidência da República. Em uma tentativa nítida de se descolar do radicalismo reacionário e conter a rejeição, o parlamentar subiu ao palco do fórum Rumos do Brasil, promovido pela revista Veja nesta segunda-feira (15) em São Paulo, mimetizando os principais pilares do discurso econômico e social do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A “metamorfose” política do herdeiro de Jair Bolsonaro chamou a atenção ao atingir temas que, até pouco tempo, eram tratados como tabus ou alvos de forte oposição pelo clã extremista. Do assistencialismo estatal à preservação do patrimônio público, o discurso de Flávio abandonou a cartilha tradicional do bolsonarismo para flertar abertamente com o eleitorado de centro e as faixas mais vulneráveis da população.

Aceno ao social e blindagem da Petrobras

Ao ser questionado sobre os rumos da economia e das privatizações, o senador surpreendeu a plateia ao fechar as portas para a entrega da maior estatal do país à iniciativa privada. O parlamentar se posicionou de forma contrária à desestatização da petroleira, sugerindo apenas parcerias ou venda de fatias minoritárias, e ressaltou que é contra a privatização da Petrobras como um todo. Embora admita que algumas partes da companhia possam passar por parcerias público-privadas ou redução de ações da União, ele evitou cravar um modelo definitivo neste momento.

No campo social, a aproximação com a agenda da esquerda ficou ainda mais evidente. Flávio classificou o Bolsa Família como um “direito adquirido” e uma ferramenta essencial de “estabilidade para quem já passou fome”. O pré-candidato criticou o estigma que cerca os beneficiários e propôs uma extensão dos prazos de transição para quem consegue emprego formal ou abre uma empresa, de forma a evitar que os cidadãos voltem à informalidade por medo de perder o benefício.

A tática de blindar o programa, mantendo inclusive o nome original devolvido por Lula, em vez de resgatar o termo “Auxílio Brasil” da gestão de seu pai, faz parte de um esforço direcionado para mitigar a forte rejeição que possui entre as mulheres chefes de família. O aceno à pauta econômica governista se completou com a defesa da isenção do Imposto de Renda para trabalhadores que recebem até R$ 5 mil. Para não demonstrar uma capitulação total, Flávio tentou uma diferenciação técnica, alegando que uma gestão sob seu comando faria o corte sem a necessidade de criar novos tributos para compensar a receita perdida, acusando o atual governo de “esfolar o contribuinte”.

Mea culpa sobre a imprensa e novo estilo

A face mais pragmática do senador emergiu quando ele tratou da relação com os veículos de comunicação. Sem meias palavras, o pré-candidato fez um mea culpa público e classificou como um “erro” a postura bélica adotada pelo governo de Jair Bolsonaro contra os jornalistas. Ele afirmou que a imprensa “exerce um papel fundamental” e identificou o “relacionamento truculento” e o preconceito “na gestão do orçamento de publicidade como falhas graves” que precisam ser mudadas radicalmente.

Essa suavização e o abandono do confronto direto fazem parte de um pacote de reposicionamento estético e político amplo. O senador agora tenta desenhar uma imagem de moderado que inclui desde dancinhas em redes sociais e jingles em ritmo de funk até a lembrança oportuna de que, ao contrário do ex-presidente, ele se vacinou contra a Covid-19. Resta saber se o eleitorado enxergará o movimento como uma evolução política autêntica ou apenas como uma manobra desesperada de sobrevivência de uma campanha que se vê encurralada pelas páginas policiais.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/lula-flavio-bolsonaro-defende-bolsa-familia-isencao-ir-imprensa/