Palestina e a travesti: quando a vítima mantém as presas

Uma das contribuições fundamentais de Vítimas perfeitas e a política do apelo (Tabla, 2025), de Mohammed El-Kurd, consiste em demonstrar que a opressão contra o povo palestino não opera apenas por meio da violência direta, mas também por meio da administração das formas consideradas legítimas de sofrimento. O autor mostra que o palestino só se torna inteligível para o Ocidente quando ocupa o lugar da vítima perfeita, definida como passiva, inocente, despolitizada, incapaz de expressar raiva e, sobretudo, incapaz de formular uma crítica estrutural ao colonialismo. A vítima perfeita pode sofrer, mas isso não lhe confere autorização para agir. Pode chorar sem reivindicar e narrar a própria dor, desde que não ouse exigir transformação política radical.

Embora El-Kurd esteja analisando a experiência palestina, sua formulação oferece ferramentas analíticas poderosas para compreendermos outras populações historicamente produzidas como abjetas. Há algum tempo venho tentando entender o que aconteceu para reacender (e potencializar) o ódio contra a população trans. A transfobia não é um fenômeno novo, mas o estranho arco de alianças que hoje se organiza em torno da perseguição às pessoas trans merece reflexão. Foi lendo El-Kurd que encontrei uma chave interpretativa. Quando as pessoas trans se recusam a arrancar suas presas e abandonam o lugar de vítimas perfeitas, novos arranjos políticos tornam-se explícitos na esfera pública.

Minha hipótese é que o atual pânico moral em torno das existências trans emerge precisamente no momento em que essa população explicita um projeto epistemológico e de poder. Durante décadas, pessoas trans foram toleradas apenas sob determinadas condições: como objetos de estudo médico e acadêmico, casos psiquiátricos, personagens trágicas, corpos destinados à marginalidade ou figuras exóticas para animar programas de televisão. Sua existência era admitida desde que permanecesse confinada ao registro da dor individual. O sofrimento era autorizado. A agência política, não. Enfim, um velho mecanismo de administração da diferença para deixar tudo como está.

Nesse sentido, a trajetória histórica da população trans guarda notável semelhança com o mecanismo descrito por El-Kurd. O sujeito palestino aceitável é aquele que fala de sua tragédia sem questionar as estruturas coloniais que a produziram. Da mesma forma, o sujeito trans “aceitável” — e as aspas são importantes porque essa aceitação era, antes de tudo, uma forma de não-aceitação — foi, durante muito tempo, aquele que relatava exclusão, violência, rejeição familiar ou sofrimento psíquico sem transformar essas experiências em crítica política à cisgeneridade.

O problema surge quando a narrativa muda. Quando uma população historicamente patologizada, criminalizada e medicalizada passa a dizer: “não queremos apenas sobreviver; queremos governar nossas vidas”, deixando de pedir inclusão e passando a questionar os próprios critérios que definem quem pode ser incluído. O abandono da posição de objeto de políticas públicas e de pesquisas acadêmicas para reivindicar o lugar de sujeito político torna-se insuportável.

Nesse momento, a vítima antes perfeita torna-se uma ameaça. O que produz o desconforto contemporâneo não é a existência trans em si. O que produz o pânico é a recusa crescente em permanecer no lugar social que lhes foi historicamente atribuído. O alvo principal é a emergência de uma crítica estrutural à cisgeneridade.

Aqui existe um truque perverso revelado pelos ataques à deputada federal Erika Hilton. Tudo vale para desqualificá-la, inclusive apontar seu “péssimo gosto na escolha das roupas”, diagnóstico proferido por um nobre colega de academia. Ou então aproximá-la de figuras da extrema direita, como Bia Kicis. Aqui está o truque. O que não suportam é a presença de pessoas trans que apontam os privilégios cis e demonstram que suas existências questionam uma das bases estruturais do Estado-nação: o suposto dimorfismo sexual.

Aquilo que é estrutural para a ordem social — gênero, sexualidade e raça — recebe um carimbo desqualificador: “identitarismo”. Quem nomeia a luta da população trans dessa forma não compreende as estruturas de poder. Ou, talvez, compreenda exatamente como elas funcionam e, sentindo-se ameaçado, passe a atuar sob a aparência de um discurso “cientificamente fundamentado”, quando, na verdade, está atravessado por interesses de gênero e por ressentimentos que se convertem nas lentes interpretativas do mundo.

Durante décadas, o discurso dominante apresentou a cisgeneridade como um dado natural, transparente e universal. O corpo cis não aparecia como uma posição política específica, mas como a própria definição do humano. O mundo se dividia, supostamente, entre homens-pênis e mulheres-vagina, e nada poderia alterar esse binarismo fundante do ser. Assim como a branquitude costuma apresentar-se como ausência de raça, a cisgeneridade apresentou-se historicamente como ausência de gênero. As existências trans produziram uma ruptura radical nesse regime de inteligibilidade.

Ao reivindicarem reconhecimento na esfera pública, não apenas afirmaram sua própria humanidade. Tornaram visível o caráter histórico e político da própria cisgeneridade. É precisamente aí que se localiza o conflito. As epistemologias trans deslocam o olhar do sujeito patologizado para a estrutura que produz a patologização. O problema deixa de ser o indivíduo trans e passa a ser a organização social que transforma determinadas corporalidades em abjetas.

Esse movimento possui profundas afinidades com aquilo que El-Kurd aponta em relação à escuta do sofrimento palestino, constantemente convocado a provar sua humanidade, enquanto as estruturas coloniais permanecem fora de análise. Algo semelhante ocorre com a população trans. Durante décadas, a questão central foi: “quem são as pessoas trans?”. Muito raramente se perguntou: “como a cisgeneridade se tornou o padrão a partir do qual todas as outras experiências são avaliadas?”.

Quando essa pergunta emerge, as reações tornam-se violentas. Afinal, o que está sendo ameaçado não é apenas uma identidade, mas um regime de verdade, portanto, estruturas de poder. Então, o que fazer? Uma saída conveniente é inventar uma categoria chamada “identitarismo” e utilizá-la para desqualificar qualquer crítica às estruturas de dominação. Ao nomear o outro que luta para sair do lugar de abjeto como “identitário”, o que se busca é seguir construindo-se como ser fora das marcas, universal. Os outros são identitários, eu, sou transparente. Pura retórica para manter intactas as estruturas de poder.

Talvez por isso os ataques à população trans tenham se intensificado justamente no momento em que elas passaram a ocupar universidades, parlamentos, sindicatos, partidos políticos, redações, instituições culturais e espaços de prestígio intelectual.

Enquanto ocupavam os lugares destinados à exclusão social — a prostituição, a marginalidade econômica e a invisibilidade política — não representavam uma ameaça significativa à ordem social. Ainda que, vale ressaltar, as condições simbólicas e materiais de vida da população trans, continuem marcadas por profunda precariedade e violência.

Uma das características mais marcantes do atual cenário político é a capacidade de determinados discursos anti-trans produzirem alianças improváveis. Setores conservadores, extrema direita, grupos religiosos fundamentalistas, intelectuais liberais e segmentos do feminismo encontram, frequentemente, um terreno comum na defesa de algum tipo de essencialismo biológico.

As divergências desaparecem diante da necessidade compartilhada de restaurar fronteiras ontológicas consideradas ameaçadas. É nesse contexto que emerge aquilo que poderíamos chamar de uma política contemporânea de reessencialização ou de repsiquiatrização das identidades de gênero. Se, durante décadas, a medicina psiquiátrica foi responsável por enquadrar as experiências trans como doença, hoje observamos uma tentativa mais ampla de recolocá-las em regimes anteriores de (não) inteligibilidade.

As estratégias variam. Algumas procuram devolver as pessoas trans aos consultórios psiquiátricos. Outras tentam entregá-las ao controle jurídico — basta observar os projetos de lei que criminalizam pessoas trans que utilizam banheiros de acordo com suas identidades de gênero. Todas, no entanto, compartilham um objetivo semelhante: impedir que a população trans seja reconhecida como sujeito político autônomo e volte a ocupar o lugar da vítima perfeita. Em outras palavras, querem arrancar suas presas.

O que está em disputa não é apenas o acesso a direitos específicos. É o próprio direito de produzir conhecimento sobre si. Nesse aspecto, a reação contemporânea às existências trans possui uma estrutura profundamente colonial. Ela opera por meio da mesma lógica que historicamente sustentou o racismo, o colonialismo e outras formas de dominação, na qual a produção de uma essência natural justificaria hierarquias sociais.

Não é casual que o velho essencialismo biológico tenha retornado com tanta força. O recurso discursivo é antigo, foi mobilizado para justificar a escravidão, para excluir mulheres da vida política e para sustentar projetos coloniais. Agora, reaparece como fundamento dos discursos anti-trans. A mensagem permanece a mesma: “a natureza já decidiu quem você é”. O que muda são os corpos sobre os quais essa natureza é projetada.

Nesse sentido, a aproximação entre El-Kurd e as experiências trans permite compreender algo fundamental. O problema nunca foi apenas a diferença. O problema é a transformação da diferença em poder político.

A vítima perfeita é tolerada porque não ameaça estruturas. Pode ser objeto de empatia, piedade e compaixão. Não pode, porém, disputar a organização do mundo. Quando deixa de pedir reconhecimento e passa a reivindicar transformação, sua condição muda radicalmente. Ela deixa de ser vítima. Torna-se inimiga.

Possivelmente, seja exatamente isso que estejamos assistindo no caso das populações trans. Não se trata de uma reação a uma suposta novidade identitária, mas de uma reação ao fracasso de um modelo histórico de administração da diferença. O que produz pânico não é a existência trans. É a recusa crescente em existir apenas como sofrimento. A vítima perfeita desaparece e emerge o sujeito político.

E, como nos mostra Mohammed El-Kurd, toda vez que sujeitos historicamente subordinados abandonam a política do apelo e começam a disputar poder, os mecanismos de controle tornam-se mais explícitos. As portas que pareciam abertas se fecham. A compaixão transforma-se em hostilidade. E a pergunta deixa de ser se essas vidas sofrem. A nova questão passa a ser se elas podem falar, governar, ensinar, legislar, produzir conhecimento e ocupar o mundo em seus próprios termos.

É justamente aí que reside o verdadeiro conflito. Não na diferença, mas na redistribuição do poder que a diferença passa a exigir.

Berenice Bento é professora do departamento de Sociologia da UnB e pesquisadora do CNPq

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