Cidade do México: corredor cultural conecta museus e futebol durante a Copa

Quando se fala em Copa do Mundo, a imagem que costuma vir à cabeça é a de torcedores vestidos com as cores de suas seleções, transmissões ao ar livre, fan fests e ruas tomadas pelo clima de festa. A Cidade do México também vive essa atmosfera durante o Mundial de 2026. A diferença é que a capital mexicana quer que a experiência vá além dos estádios e das celebrações esportivas, convidando visitantes a descobrir uma das cenas culturais mais ricas da América Latina.

Sede de cinco partidas da Copa, a Cidade do México criou o Corredor Cultural Host City CDMX, um projeto que conecta 17 museus e espaços culturais por meio de exposições temporárias, instalações imersivas e atrações inspiradas tanto no futebol quanto na cultura mexicana.

A proposta beneficia tanto quem veio acompanhar os jogos quanto quem simplesmente estará na cidade durante o período. Afinal, nem todo turista terá ingresso para as partidas, mas todos podem aproveitar uma programação que mistura arte contemporânea, fotografia, história, ciência, design, memória, esporte e cultura popular.

Para facilitar os deslocamentos, os tradicionais ônibus vermelhos do Turibus, um dos símbolos turísticos da capital mexicana, tornaram-se operadores oficiais do corredor cultural. Os circuitos conectam os diferentes espaços participantes e oferecem uma forma prática de explorar a cidade durante o Mundial.

 

Quando o futebol entra no museu

Entre as exposições que integram o projeto, visitei a Fútbol y Arte: Esa misma emoción, em cartaz no Museo Jumex. Ali encontrei uma experiência interessante e gratuita do corredor cultural.

A mostra reúne obras de dezenas de artistas que utilizam o futebol como ponto de partida para discutir identidade, política, pertencimento, memória, nacionalismo e emoções coletivas. Em vez de celebrar apenas gols e troféus, a exposição propõe refletir sobre tudo o que acontece ao redor do esporte mais popular do planeta.

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Museo Jumex: exposição reúne obras de artistas como Rodolfo de Florencia e Marta Minujín (Daniele Bellini/Arquivo pessoal)

Logo na entrada, arquibancadas que pertenciam ao Estádio Azteca foram transformadas em instalação artística. Em outro espaço, um gigantesco pebolim reforça a ideia de que o futebol é convivência e vivência compartilhada.

Três imagens lado a lado. À esquerda, a fachada do Museo Jumex com cadeiras azuis de estádio em uma escada. No centro, um pebolim gigante com bonecos vermelhos e azuis dentro do museu. À direita, arquibancadas cinzas vazias em frente a um prédio espelhado.
Instalações no Jumex convidam visitantes a vivenciar diferentes dimensões da cultura futebolística (Daniele Bellini/Arquivo pessoal)

A Copa esquecida que voltou ao centro da conversa

Uma das partes da exposição que mais me emocionou foi a dedicada ao futebol feminino. Fotografias, documentos históricos e obras contemporâneas resgatam a memória da Copa do Mundo Feminina de 1971, realizada no México.

Pouca gente sabe que a seleção mexicana chegou à final daquele torneio diante de um Estádio Azteca lotado. Apesar do sucesso de público, a competição acabou praticamente apagada da história oficial do futebol.

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A artista mexicana Sofía Echeverri resgata essa memória na obra Dechado de impedimentos (2025). A instalação utiliza bordados feitos sobre tecidos para reproduzir frases e registros relacionados às jogadoras da época.

Dechado de impedimentos, Sofía Echeverri
Bordados transformam documentos e relatos históricos em uma homenagem às mulheres do futebol que foram apagadas da história (Ramiro Chaves/Museo Jumex/Instagram/Divulgação)

O resultado é poderoso. Os bordados estabelecem uma metáfora entre o trabalho manual historicamente associado às mulheres e o profissionalismo das atletas que, durante décadas, foram excluídas do reconhecimento esportivo. A obra denuncia esse apagamento e devolve visibilidade a uma geração de jogadoras que ajudou a construir a história do futebol feminino muito antes da popularização da modalidade.

Em uma Copa realizada num momento de expansão global do futebol feminino, a instalação ganha ainda mais significado.

Duas obras de arte emolduradas. À esquerda, uma foto em preto e branco de um time de futebol feminino no campo, com uma bola à frente e homens de terno ao lado. À direita, um bordado circular com a frase llenamos cuatro veces el Estadio AZTECA e a assinatura Ma. Eugenia Rubio, com detalhes florais
A obra combina registros do Mundial Feminino de 1971 e intervenções têxteis para recuperar histórias que ficaram à margem da narrativa oficial do esporte (Daniele Bellini/Arquivo pessoal)
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Um roteiro cultural para além dos jogos

Embora o futebol seja o fio condutor do projeto, os visitantes encontram mostras dedicadas à fotografia, design, ciência, economia, arte popular, memória coletiva e arte contemporânea. Em muitos casos, o esporte aparece apenas como ponto de partida para discutir questões mais amplas, como identidade, inclusão, criatividade e patrimônio cultural.

A iniciativa também ganha um significado especial porque acontece em um momento histórico para a capital mexicana. A Cidade do México é a primeira cidade do mundo a sediar três partidas de abertura de Copas do Mundo, após os torneios de 1970 e 1986. 

O corredor cultural foi concebido como parte desse legado, utilizando a visibilidade global do Mundial para aproximar novos públicos de museus e instituições culturais que continuarão recebendo visitantes muito depois do encerramento da competição.

Destaques do Corredor Cultural da Copa

Fútbol y Arte: Esa misma emoción

Exposição que reúne artistas nacionais e internacionais para explorar as relações entre futebol, identidade, memória, política e cultura popular.

Onde? Museo Jumex

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Quando? 28 de março a 26 de julho.

Quanto? Gratuito.

Futbol: Diseñando una Pasión

Mostra dedicada ao design aplicado ao futebol, abordando arquitetura, objetos, comunicação visual e cultura material do esporte.

Onde? Museo Franz Mayer

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Quando? De 25 de março a 16 de agosto.

Quanto? 180 pesos mexicanos (R$ 53).

Juego Limpio: La cancha que nos une

Exposição que utiliza o futebol como ponto de partida para discutir respeito, inclusão, diversidade e convivência social.

Onde? Museo Memoria y Tolerancia

Quando? De 25 de março a 04 de outubro.

Quanto? 100 pesos mexicanos (R$29,45).

Álbum Épico

Reúne milhares de objetos históricos relacionados ao futebol, incluindo camisas, fotografias, troféus e itens de colecionador.

Onde? Museo Yancuic.

Quando? De 29 de março a 02 de agosto.

Quanto? Gratuito.

Pasa el Balón

Experiência interativa que explora os impactos econômicos e sociais do futebol.

Onde? MIDE (Museo Interactivo de Economía)

Quando? De 30 de abril a 30 de agosto.

Quanto? 80 pesos mexicanos (R$ 23,55). Exposição e museu completo por 160 pesos mexicanos (R$ 47,15).

La Ciencia Está en la Cancha

Mostra que apresenta os aspectos científicos do futebol, da física do movimento à tecnologia aplicada ao esporte.

Onde? Universum – Museo de las ciencias de la UNAM

Quando? De 20 de maio a 04 de outubro.

Quanto? 90 pesos mexicanos (R$ 26,50).

Annie Leibovitz. Futbol 2026

Série fotográfica da renomada fotógrafa norte-americana Annie Leibovitz, dedicada ao futebol e à identidade cultural mexicana.

Onde? Museo Nacional de Antropología

Quando? De 8 de junho a 30 de agosto.

Quanto? 210 pesos mexicanos (R$ 61,85). Ingressos por 105 pesos (R$ 30,95)  para residentes e cidadãos mexicanos.

Museo Dolores Olmedo

Reabertura de um dos mais importantes espaços culturais da cidade, conhecido por seu acervo de Frida Kahlo e Diego Rivera.

Onde? Museo Dolores Olmedo

Quando? 30 de maio a 29 de agosto.

Quanto? 432 pesos mexicanos (R$ 127,25). Ingressos por 162 pesos (R$ 47,70)  para residentes e cidadãos mexicanos.

Cancha de los Niños

Experiência interativa voltada para o público infantil e famílias.

Onde? Papalote Museo del Niño

Quando? Desde 3 de junho a 23 de agosto.

Quanto? Varia de 120 (R$ 35,35) a 380 (R$ 111, 95) pesos mexicanos.

Daniele Bertolini Bellini (@danebertolini) é jornalista e mora na Cidade do México. Da mesma autora, veja um roteiro pela Cidade do México; um relato sobre o novo museu de Frida Jahlo, A Casa Roja; uma seleção de taquerias imperdíveis. e também sobre a exposição de Frida Kahlo e Diego Rivera no MAM.

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Fonte: https://viagemeturismo.abril.com.br/mundo/cidade-do-mexico-corredor-cultural-conecta-museus-e-futebol-durante-a-copa/