Uma rede de empresas ligadas ao senador Ciro Nogueira (PP-PI) teria usado familiares, servidores públicos, beneficiários de programas sociais e dinheiro em espécie para esconder recursos ilícitos, segundo análise da Polícia Federal. Parte do dinheiro, conforme a investigação, pode ter origem no ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, e em pagamentos feitos por ele ao parlamentar.
A estrutura é descrita por investigadores a partir de Relatórios de Inteligência Financeira do Coaf, que apontam movimentações do grupo ligado ao clã de Ciro no Piauí e no Maranhão. De acordo com informações da Folha, a PF afirma ter identificado um “circuito integrado” de transações entre empresas das famílias Nogueira e Vorcaro, especialmente a CNLF, ligada ao senador, e a BRGD, controlada por Vorcaro e familiares.
Segundo a investigação, foi por esse fluxo que o ex-banqueiro teria pago uma mesada ao senador, que somaria ao menos R$ 6 milhões entre 2024 e 2025. O período coincide com o agravamento da crise do Banco Master e com as tentativas de salvar os negócios de Vorcaro.
A PF aponta uma estratégia de lavagem de dinheiro por meio de “estruturas recorrentes e interligadas, utilizadas, em tese, para a ocultação, dissimulação e reinserção de recursos de origem incompatível com a capacidade econômico-financeira formal dos envolvidos, tendo como possível beneficiário final o senador Ciro Nogueira”.
“Tais estruturas não se apresentam de forma isolada, mas operam de modo articulado, por meio de empresas do núcleo familiar, circulação intragrupo, uso intensivo de numerário [dinheiro] em espécie e interposição de terceiros, inclusive agentes públicos”, conclui a investigação.
A Folha informou ter procurado a assessoria de Ciro Nogueira na tarde desta terça-feira (16), mas não obteve resposta até a publicação da reportagem original. A defesa de Vorcaro também foi procurada por email e WhatsApp, sem retorno até a publicação.
As investigações já haviam apontado indícios da proximidade entre Ciro e Vorcaro, como pagamento de diárias em hotéis de luxo em Nova York e na Europa, viagens conjuntas e repasses em dinheiro vivo. O banqueiro também se referia ao senador como “grande amigo de vida”.

De acordo com a PF, os recursos eram repassados ao clã Nogueira por meio da BRGD, administrada por Felipe Vorcaro, primo de Daniel, com uso de uma fintech chamada PJBank. Entre 2020 e 2025, a instituição teria enviado R$ 3 milhões ao grupo do senador, mesmo sem autorização do Banco Central para esse tipo de transação.
Depois, segundo os investigadores, entravam em ação duas empresas da família Nogueira: a CNLF e a CN Motos, voltada à venda de motocicletas. As companhias teriam recebido os valores, misturado os recursos a receitas lícitas e redistribuído dinheiro dentro do grupo familiar e empresarial.
No caso da CN Motos, a PF afirma que um funcionário chamado Bernardo realizou R$ 3,5 milhões em depósitos em espécie para a empresa, “em períodos coincidentes com transferências subsequentes da empresa à pessoa física do senador”.
Relatórios do Coaf também apontam que a empresa recebeu ao menos R$ 1,2 milhão de servidores públicos do Piauí, do Maranhão e de estruturas da União. “Esse padrão indica possível utilização de terceiros como instrumento de ocultação do real beneficiário das despesas e dos fluxos financeiros, reduzindo a exposição direta do agente político principal”, dizem os investigadores.
A PF cita ainda pessoas com baixa renda ou beneficiárias de programas sociais que teriam movimentado valores considerados incompatíveis com sua capacidade financeira. Um beneficiário teria recebido R$ 2.000 mensais, mas transferido R$ 90 mil à CN Motos em um ano. Outro, que recebeu auxílio emergencial na pandemia, teria pago R$ 143 mil à empresa no mesmo período.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/de-familiares-a-servidores-o-circuito-integrado-de-ciro-nogueira-para-receber-mesada-de-vorcaro/

