“Leo, preciso muito que você dê uma atenção na questão de segurança. Pode ser o papa que não pode entrar ninguém que não esteja na lista”. A frase é de Daniel Vorcaro, em áudio enviado a um funcionário antes de um jantar que ele organizou em Lisboa, em junho de 2024, com a presença de Ciro Nogueira e do então deputado federal Hugo Motta (Republicanos-PB).
O evento ocorreu durante o Fórum de Lisboa – o conhecido GilmarPalooza, organizado pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF) – e Vorcaro exigiu que a área em frente ao restaurante também fosse desocupada, preocupado com a visibilidade do encontro numa cidade que, segundo ele, estava “lotada” naquela época do ano.
Para chegar a Lisboa, Nogueira e Motta viajaram de carona no avião do próprio banqueiro. As estadias no Four Seasons, hotel de luxo na capital portuguesa, foram custeadas por Vorcaro. O relatório da PF registra que as cinco diárias de Ciro Nogueira no Four Seasons custaram R$ 91 mil, pela cotação do euro na data.
Um mês antes, em maio de 2024, o senador também teve suítes reservadas em seu nome no Park Hyatt New York, hotel em Manhattan, pagas por Vorcaro, para participação em eventos na cidade americana. As reservas foram organizadas por uma empresa de serviços “ultra premium” contratada pelo banqueiro, que cuidava dos detalhes logísticos de suas viagens. A defesa de Ciro Nogueira informou que não irá comentar o caso.
A Polícia Federal concluiu que a CNLF Empreendimentos Imobiliários, empresa da qual o senador Ciro Nogueira (PP-PI) é sócio, movimentou R$ 20.079.823,00 entre agosto de 2023 e agosto de 2024, valor que a própria PF considera incompatível com o faturamento anual declarado pela firma, de R$ 832 mil.
O relatório, baseado em dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), foi enviado ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), e aponta para uma suspeita de “mesada” paga pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro ao senador em troca de atuação política no Senado, incluindo a defesa da chamada “emenda Master”.
A investigação da PF e a movimentação atípica
A Polícia Federal identificou que a CNLF Empreendimentos Imobiliários, empresa que tem Ciro Nogueira como sócio, registrou créditos e débitos que somam R$ 20.079.823,00 em apenas doze meses. O próprio relatório da PF, enviado ao STF, é direto: o valor “é incompatível com o faturamento anual declarado pela empresa”, fixado em R$ 832 mil. A proporção fala por si: a movimentação supera em mais de 24 vezes a receita que a empresa declarou ao fisco.
A base da investigação são dados do Coaf, órgão de inteligência financeira responsável por identificar transações atípicas e suspeitas de lavagem de dinheiro. A discrepância entre o que entra e sai das contas da CNLF e o que a empresa declara como faturamento é exatamente o tipo de sinal que o Coaf foi criado para capturar. O relatório resultante foi encaminhado ao ministro André Mendonça, do STF, instância competente para investigar parlamentares com foro privilegiado.
A conexão com Daniel Vorcaro e a “mesada”
Parte dos valores que circularam pela CNLF tem origem rastreável. Segundo a PF, a empresa de Ciro Nogueira recebeu R$ 902 mil da BRGD, firma ligada a Felipe Vorcaro, primo do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master. Os repasses foram feitos em três parcelas, e a PF suspeita que o fracionamento guarde relação direta com a suposta “mesada” de R$ 300 mil mensais que Daniel Vorcaro pagaria ao senador.
A suspeita ganha contorno mais preciso quando se cruza o calendário dos depósitos com o conteúdo de conversas interceptadas. Segundo o Relatório de Inteligência Financeira (RIF) da PF, “os créditos da BRGD na CNLF são contemporâneos com os diálogos entre Daniel Vorcaro e Felipe Vorcaro sobre repasses mensais de R$ 300 mil”. A coincidência temporal entre os pagamentos e as mensagens sobre os repasses é um dos pilares da hipótese investigativa da PF.
Influência política e a “emenda Master”
A PF não trata a relação entre Nogueira e Vorcaro como mera amizade. O relatório a descreve como “relação profissional espúria e marcada por típico mutualismo ilícito”, na qual os pagamentos teriam como contrapartida a atuação do senador no Senado Federal para defender os interesses do banqueiro. Segundo a PF, “o que se verifica é que da relação profissional espúria derivou o vínculo pessoal, o qual apresenta como consequência, e não como causa, da associação funcional mantida entre os investigados.”
A evidência mais concreta dessa atuação, segundo a PF, é a chamada “emenda Master”: uma proposta que buscava ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Para a PF, a medida era estratégica para o modelo de negócios do Master. “A fraude financeira arquitetada pelos gestores do Master tinha por alicerce um modelo de funding que, na prática, dependia da credibilidade do selo do FGC para sustentar uma expansão agressiva”, afirma o relatório. Ampliar o teto do FGC tornaria os produtos do banco mais atrativos para investidores e depositantes, sustentando justamente o crescimento que, segundo a PF, encobria a fraude.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/vorcaro-jantar-ciro-nogueira-hugo-motta-em-lisboa/

