Na visão de Domingos Bruno, especialista do IT Forum Inteligência, o CIO do futuro não pode ser apenas o executivo que domina sistemas, infraestrutura ou novas ferramentas digitais. Para ele, a liderança de tecnologia precisa ocupar um papel mais amplo: traduzir complexidade em valor, influenciar decisões de negócio e conduzir pessoas em ambientes cada vez mais pressionados por inovação, eficiência e mudança constante.
Essa opinião nasce de uma trajetória longa, iniciada ainda em 1979, pouco depois de Bruno começar um curso de programação na Fundação Bradesco. Seu primeiro trabalho foi como office boy na área de processamento de dados do banco, em um ambiente de cartões perfurados, mainframes e operações bancárias que já tratavam tecnologia como infraestrutura crítica.
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Ao longo de mais de quatro décadas, com passagens por grandes empresas dos setores de Consumo, Varejo e Farmacêutico, Bruno acumulou aprendizados que hoje sustentam sua leitura sobre a evolução do cargo. “No Bradesco, encontrei minha primeira grande escola. Depois, na Philips, foi onde o mundo se abriu, quando passei a conviver com profissionais de formações e idiomas diversos, bem como padrões globais de gestão”, relembra.
Formado em Administração de Empresas com ênfase em Análise de Sistemas pela FASP, com especializações posteriores na FGV e USP, Bruno construiu uma carreira em que a tecnologia sempre esteve a serviço do negócio.
Na PepsiCo, quando chegou em 1995, amadureceu como líder, assumiu equipes maiores, conduziu projetos de automação, BI e SAP e, em 2004, tornou-se CIO da operação brasileira. Foi ali que consolidou uma das lições que mais repete em suas mentorias: sair da zona de conforto é essencial para liderar tecnologia com profundidade.
A experiência na Arcos Dorados, operadora do McDonald’s na América Latina, reforçou essa compreensão. Primeiro como CIO do Brasil e, a partir de 2014, como CIO da América Latina, Bruno passou a responder por uma operação de grande escala: cerca de 20 países, milhares de restaurantes, milhões de clientes atendidos diariamente e uma equipe distribuída em diferentes culturas.
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Traduzindo complexidade em resultado
Para Bruno, a principal missão do líder digital é traduzir complexidade em resultado. Ele recorre a uma metáfora simples para explicar sua visão: o CEO não quer saber todo o caminho percorrido pela água até chegar à torneira; ele quer abrir a torneira e ver a água sair. Do mesmo modo, a alta liderança espera que a tecnologia resolva problemas, gere eficiência, crie valor e sustente a operação — sem exigir que o negócio compreenda cada camada técnica envolvida.
O especialista enfatiza que o CIO do futuro precisa priorizar comunicação e gestão de pessoas antes mesmo de falar de tecnologia. Em sua leitura, o executivo de TI deve saber vender ideias, adaptar a mensagem a diferentes públicos, conectar projetos digitais às prioridades da organização e transformar temas técnicos em decisões compreensíveis para conselhos, CEOs, donos e áreas de negócio.
“Liderar tecnologia significa também gerir conflitos, ansiedades, expectativas e talentos em ambientes cada vez mais pressionados por inovação e eficiência”, ressalta.
A terceira dimensão que ele considera indispensável é a responsabilidade estratégica. Decisões sobre arquitetura, fornecedores, plataformas ou modelos de operação costumam ter efeitos de longo prazo e podem acompanhar uma empresa por anos, inclusive gerando custos altos de mudança. Por isso, Bruno defende que o CIO compreenda que sua passagem pela organização é temporária, mas as estruturas que deixa continuarão afetando o negócio após sua saída.
Em sua última jornada como CIO, na Cimed, a experiência reforçou seus aprendizados sobre convencimento, construção de base tecnológica, alinhamento com donos e conselhos e necessidade de defender investimentos digitais com linguagem de negócio — pontos que, para ele, serão cada vez mais decisivos para o CIO do futuro.
IA exige fundamento, não deslumbramento
Hoje, como conselheiro, advisor e mentor, Bruno dedica-se a compartilhar a experiência acumulada em operações críticas, transformação digital, dados, inteligência artificial e liderança. Sua leitura sobre o mercado combina entusiasmo e cautela.
Ao olhar para trás, identifica a internet e os dispositivos móveis como as maiores revoluções tecnológicas que vivenciou: a primeira por conectar tudo e todos; a segunda por colocar essa capacidade na palma da mão. Agora, vê a inteligência artificial como uma terceira onda, potencialmente ainda mais transformadora.
Mas sua opinião sobre IA foge do deslumbramento. Para o executivo, muitas empresas ainda tentam aplicar inteligência artificial sobre processos antigos, desenhados para outra lógica de negócio e outra infraestrutura.
“O risco é apenas acelerar aquilo que já estava mal concebido. O valor real virá quando a IA for usada para repensar processos, modelos de operação e arquiteturas corporativas, com liderança executiva capaz de sustentar a mudança sem comprometer a operação existente”, diz.
Em um mercado no qual novas ferramentas surgem a cada semana, Bruno defende menos ansiedade e mais fundamento. A recomendação é construir uma base sólida, com princípios tecnológicos e arquitetônicos capazes de permanecer relevantes mesmo diante da mudança constante, e tratar o restante como peças de Lego: componentes que podem ser substituídos, reorganizados e combinados conforme a evolução do negócio.
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Fonte: https://itforum.com.br/noticias/domingos-bruno-cio-futuro-comunicacao/

