A seleção brasileira enfrenta o Haiti nesta sexta-feira (19), pela segunda rodada da fase de grupos da Copa do Mundo de 2026. Para além da diferença técnica entre as equipes, a partida reúne dois países com vínculos históricos que passam por revoluções, independências nas Américas, presença militar brasileira e debates recentes no futebol.
O Haiti é considerado a primeira república negra independente do mundo. O país nasceu em 1804, após uma revolução conduzida por escravizados que derrotaram a França, então potência colonizadora do território. O processo teve impacto em diferentes regiões das Américas e transformou o país em referência para populações negras em luta contra a escravidão.
Segundo o historiador Everaldo Andrade, professor da USP e autor do livro “Haiti: dois séculos de história”, a revolução haitiana também teve papel nas campanhas de independência lideradas por Simón Bolívar na América do Sul. O então presidente haitiano Alexandre Pétion ofereceu apoio político e militar ao líder venezuelano.
“Ele apoiou não só politicamente, mas com armas, com navio, com o que fosse possível”, afirmou Andrade em entrevista ao g1. Segundo o professor, esse apoio influenciou Bolívar a defender a libertação de escravizados. “Como resultado desse apoio, Bolívar passou a defender a libertação dos escravos, algo que ele não defendia antes”, explicou.
A independência haitiana também teve efeitos sobre o território dos Estados Unidos. De acordo com Andrade, a derrota francesa no Caribe enfraqueceu os planos de Napoleão Bonaparte para a região e contribuiu para a venda da Louisiana aos estadunidenses em 1803.
“Com essa derrota, o Napoleão ficou sem condição de controlar a região e decidiu vender”, explicou. “Quase metade do que são os Estados Unidos hoje foi ganho nessa compra”, afirmou.

A relação recente entre Brasil e Haiti também foi marcada pela presença militar brasileira. Entre 2004 e 2017, o Brasil liderou o componente militar da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti, a Minustah. Segundo o governo federal, mais de 36 mil brasileiros participaram da operação ao longo de 13 anos.
A missão tinha como objetivo auxiliar na estabilidade do país, na transição política e na reconstrução após o terremoto de 2010. Andrade afirma, porém, que a presença brasileira ainda divide opiniões entre haitianos. “A presença do Brasil no Haiti teve aspectos positivos e negativos”, diz.
“Tem um setor da população haitiana que não gosta do Brasil e da ONU porque são pessoas que foram lá para levar violência”, afirmou. A missão brasileira foi comandada pelo general Augusto Heleno que atuou com forte repressão no país. Há ainda relatos de estupros de militares contra mulheres haitianas.

No campo simbólico, a seleção brasileira chegou a disputar no Haiti, em 2004, o amistoso conhecido como “Jogo pela Paz”, meses após a chegada das tropas a Porto Príncipe. A partida buscava aproximar a população local da missão da ONU.
O professor também destaca a importância do Haiti na história da população negra nas Américas. “O Haiti foi um primeiro país a defender o direito dos africanos, o movimento da africanidade e a negritude”, afirmou. “O movimento da negritude nasceu no Haiti. Como resistência contra a discriminação aos negros e a ideia de que os negros são uma raça inferior”, disse.
Para Andrade, a independência haitiana teve caráter único. “Foi o primeiro país verdadeiramente livre das Américas, não foram os EUA, foi o Haiti que proclamou a independência e a libertação de todos os seus cidadãos, todos”, afirmou.
Antes da Copa, a Fifa pediu mudanças na camisa do Haiti por entender que elementos visuais poderiam ser interpretados como mensagem política. O uniforme original fazia referência à Batalha de Vertières, de 1803. “Na verdade, não é um símbolo político, é um símbolo de afirmação da nacionalidade”, explicou Andrade.
“É uma violência contra o Haiti porque é um símbolo de orgulho de um povo que é tão humilhado, tão massacrado. Isso foi mais um golpe”, afirmou.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/haiti-nasceu-da-primeira-revolucao-negra-da-historia-conheca-o-adversario-do-brasil/

