O Fórum Onze e Meia desta sexta-feira (19) recebeu o ex-vereador de Belo Horizonte, professor e gerente de projetos na Fundacentro em Minas Gerais, Gilson Reis, para falar sobre o lançamento do livro “Desvendando Minas II: o mito da eficiência ultraliberal”, que traça um panorama sobre os impactos de oito anos do governo de Romeu Zema (Novo).
Em seu primeiro volume, “Desvendando Minas: descaminhos do projeto neoliberal“, Reis analisou o governo neoliberal de Aécio Neves, de 2003 a 2010. No entanto, o autor destaca que, agora, a análise se debruça sobre a intensificação da gestão liberal em Minas Gerais com Zema.
“O governo Aécio é um governo clássico do neoliberalismo, o choque de gestão, questão dos ajustes fiscais, mas o Zema dá um passo à frente. O que nós estamos denominando é o ultraliberalismo. Não há uma definição clara ainda na academia sobre esse ultraliberalismo, mas nós avançamos um pouco na discussão em torno do projeto. Ele difere do projeto do Aécio, por exemplo, no processo de privatização da saúde, da educação, da cultura, temas esses que não tinham previsão, no projeto neoliberal anterior, desse processo de privatização”, afirma Reis.
O autor acrescenta que no governo de Aécio Neves, a desculpa usada para justificar o avanço do neoliberalismo era justamente o investimento em Educação, Saúde e Segurança Pública. “E hoje que nós vemos é que agora tudo virou realmente mercadoria. Então, nós temos aqui o exemplo de Minas Gerais, em que a privatização da educação e da saúde tem sido uma política de governo”, critica Reis.
Reis complementa que a importância desse debate fica evidente quando o governo Zema é a “representação política do governo Tarcísio de São Paulo, do governo Jorginho Mello de Santa Catarina ou do próprio Ratinho do Paraná”.
“Ou seja, são governos dessa nova quadra do chamado liberalismo ou do ultraliberalismo presente nos estados e no Brasil. O que eles querem, na prática, é transformar essas experiências que estão sendo praticadas nos estados para o âmbito nacional nas eleições de 2026. Então, na nossa avaliação, o livro também ganha dimensão nacional na medida que o projeto do Zema tem muita similaridade com o projeto dos outros governos de estados que também vêm praticando esse tipo de governo, seja na economia, nas políticas públicas, enfim, em toda a extensão do governo”, afirma o autor.
O fenômeno cultural Zema
Reis também debateu sobre o “fenômeno cultural Zema”, que consiste justamente em um governo “anticultura”, de acordo com o autor. Ele pontua que o governador surge como um “outsider”durante as lutas políticas de 2013, patrocinadas pela direita e pela extrema direita contra a ex-presidente Dilma Rousseff (PT).
“O Zema surge na esteira desses movimentos, e a construção do Partido Novo é justamente esse movimento. O Zema é, na prática, a expressão do antissistema – ou ele tenta se colocar contra o antissistema. E o antissistema, na cabeça dele, envolve não só a antipolítica, mas a antieconomia, mas como a anticultura”, afirma Reis.
Ele explica que nos artigos de cultura, o livro busca demonstrar na prática a destruição que ocorreu na política de cultura de Minas Gerais nos últimos anos.
“No primeiro ano de governo do Zema, ele cortou 30% do orçamento da cultura, unificou a Secretaria de Turismo com a Secretaria de Cultura, não contratou ninguém ao longo desse tempo e unificou uma política onde a cultura foi colocada no terceiro plano”, afirma o autor.
Reis ainda pontua que Zema surgiu de uma crise institucional de Minas Gerais que fez com que ele, mesmo sem carreira política, ganhasse o governo. “Zema é uma pessoa que não tem nenhum tipo de vocação para a questão cultural, ele é anticultura, anti sistema, antipolítica, e, infelizmente, a crise política fez nascer no Brasil esse tipo de gente”, diz Reis.
“Ele, na verdade, virou uma regra para uma grande maioria de brasileiros, mesmo sem a menor condição de representar seja o Estado ou o Congresso Nacional nessa fase da história do nosso país”, acrescenta o autor.
Eleições 2026
Reis também falou sobre o cenário para as eleições de outubro e ressaltou que a disputa desse ano é “muito diferente das outras que nós enfrentamos no Brasil”. Ele destaca que as pesquisas apontam uma divisão entre o campo do presidente Lula (PT) e o campo da direita extrema direita, que estão divididas, mas que têm dois objetivos para uma mesma eleição.
“O primeiro deles é derrotar o Lula, tanto que as pesquisas apontam que se não for o Flávio [Bolsonaro], pode ser o Zema, ou o Caiado, que no segundo turno eles têm uma expressão muito maior do que têm no primeiro turno. Então, a política da direita brasileira é derrotar o Lula”, diz Reis.
Já o segundo objetivo da direita e da extrema direita, de acordo com o autor, é “fazer uma articulação internacional proporcionando aos Estados Unidos uma posição para mandar no Brasil e nas riquezas do país, além de entregar a geopolítica brasileira para os interesses norte-americanos.
“Me parece que são esses dois fenômenos. A questão internacional e a questão de derrotar como elemento central da disputa o presidente Lula. Tanto isso é verdade que a gente desconhece um plano de governo que possa ser entregue à sociedade brasileira por parte desses candidatos. Então, me parece que isso é um elemento, e por isso discutir o Zema nacionalmente ganha importância”, afirma Reis.
Confira a entrevista completa do autor Gilson Reis
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/zema-representacao-ultraliberalismo-gilson-reis-desvendando-minas/

