Imitando Lula, Flávio Bolsonaro usa slogan do petista de 2002 e diz que “combaterá fome”

A política brasileira costuma produzir reviravoltas irônicas e até engraçadas, mas o palanque da extrema direita neste fim de semana conseguiu superar as expectativas neste quesito. Em um movimento que misturou pragmatismo eleitoral e um inesperado plágio retórico descarado, o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência da República, discursou neste sábado (20) em Guarulhos, na Região Metropolitana de São Paulo, apropriando-se diretamente de bandeiras históricas e até do slogan mais famoso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O ato ocorreu durante o lançamento da pré-candidatura do deputado estadual André do Prado (PL), presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), ao Senado Federal. Dividindo o palco com o governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos), Flávio buscou suavizar o discurso tradicional do clã ao focar em pautas sociais, mas acabou imitando de uma forma constrangedora o principal adversário político de sua família.

Copiando o Fome Zero e discurso social

Após desfilar as habituais promessas de linha-dura voltadas para a segurança pública, como o encarceramento em massa de ladrões de celulares, a castração química de estupradores e o combate ostensivo a facções criminosas como o PCC e o Comando Vermelho, Flávio Bolsonaro mudou radicalmente o tom. Ele elegeu a “erradicação da miséria” e o “combate à fome” como prioridade de sua plataforma, tocando na mesma tecla que consagrou Lula há mais de duas décadas, quando o petista criou o programa Fome Zero, a pedra inicial do Bolsa Família.

“Vou ser radical na Segurança Pública sim. Vou ser radical para garantir ensino de qualidade pras nossas crianças. Vou ser radical para cumprir uma promessa que o Lula faz há mais de 20 anos e não cumpre: o pacto contra a fome. É fácil. Basta ter vontade. Porque hoje, uma criança de dois, três anos de idade, não tem o que comer às vezes. Como essa criança vai se desenvolver? É nossa obrigação dar ajuda a essas crianças desde a creche”, discursou o parlamentar.

A guinada discursiva sinaliza uma tentativa de dialogar com as fatias mais vulneráveis do eleitorado, historicamente alinhadas ao PT e onde seu discurso excludente e elitista tem forte rejeição. Contudo, ao mirar o voto econômico, o filho de Jair Bolsonaro acabou recorrendo à cartilha do partido que seu próprio grupo político tenta demonizar.

Slogan furtado e a missão familiar

A mimetização do discurso petista atingiu o ápice no encerramento da fala do senador. Ao projetar o desfecho da corrida presidencial deste ano, Flávio recorreu textualmente ao slogan que marcou a histórica eleição de Lula em 2002, afirmando categoricamente que, no que depender dele, “a esperança vai vencer o medo”. Sim, o slogan vitorioso de Lula foi dito duas vezes, ipsis litteris.

O uso da célebre frase foi emendado em uma justificativa sobre sua própria presença na liderança da chapa nacional. Flávio confidenciou ao público e ao aliado Tarcísio de Freitas que, inicialmente, “não desejava postular o Palácio do Planalto” em 2026, mas que aceitou o desafio “diante das circunstâncias” e por imposição do pai.

“Meu amigo Tarcísio sabe o que estou passando nesse momento. O Tarcísio nunca imaginou que seria governador aqui de São Paulo. Mas quando o presidente Bolsonaro aponta, o Tarcísio prontamente, carioca e flamenguista, veio ser governador de São Paulo”, justificou Flávio, resumindo a escolha de seu nome ao cumprimento de uma ordem direta: “missão dada é missão cumprida”.

A estratégia de adotar uma roupagem social e utilizar o vocabulário do adversário evidencia o tamanho do desafio enfrentado pelo bolsonarismo para romper o teto de rejeição nas pesquisas e tentar reconquistar o eleitorado de baixa renda.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/imitando-lula-flavio-bolsonaro-slogan-2002-combate-fome/