Tulsi Gabbard era controlada por líder de seita hindu, mostram documentos

Tulsi Gabbard fala em um comício de campanha de Donald Trump. Foto: Jonathan Drake/Reuters

Uma extensa investigação do Washington Post revelou que Tulsi Gabbard, ex-diretora de Inteligência Nacional de Donald Trump e uma das figuras mais influentes da segurança nacional americana até sua saída do governo, manteve durante anos uma relação política e ideológica profundamente ligada a Chris Butler, líder da Science of Identity Foundation (SIF), organização religiosa acusada por ex-integrantes de funcionar como uma seita.

A reportagem, baseada em milhares de e-mails, documentos internos, memorandos e mensagens obtidas ao longo de anos de investigação, sugere que Butler exerceu influência direta sobre decisões políticas, discursos públicos e iniciativas legislativas de Gabbard desde sua passagem pelo Congresso até sua ascensão ao cenário nacional.

O caso é particularmente sensível porque Gabbard chegou ao posto máximo da comunidade de inteligência dos Estados Unidos, supervisionando agências estratégicas responsáveis por operações de espionagem, análise de ameaças globais e segurança nacional.

Quem é Chris Butler

Chris Butler, hoje com 78 anos, é fundador da Science of Identity Foundation, um grupo derivado do hinduísmo que mistura espiritualidade, disciplina rígida e forte controle sobre seus seguidores.

Ex-membros descrevem Butler como uma figura quase divina dentro da organização.

“Fui criada acreditando que Chris Butler era a voz de Deus na Terra. Se você o questionasse, estaria questionando Deus”, escreveu uma ex-integrante em um relato amplamente citado pela investigação.

Outro ex-membro afirmou ao jornal que Butler nutria ambições políticas muito além da religião.

“Ele queria governar o mundo”, declarou. Segundo a reportagem, Butler sequer utiliza computador. Suas orientações eram transmitidas verbalmente a auxiliares próximos, que registravam suas palavras e distribuíam as instruções a um círculo restrito de colaboradores.

Entre os destinatários dessas mensagens estariam Tulsi Gabbard, seus assessores e até familiares.

Chris Butler. Foto: Reprodução

As ordens que viravam projetos de lei

A denúncia mais grave apresentada pelo Washington Post é a de que Butler não se limitava a aconselhar Gabbard.

Segundo os documentos analisados, ele teria fornecido orientações políticas específicas que posteriormente apareciam em discursos, entrevistas e projetos de lei apresentados pela então congressista.

Entre 2014 e 2016, a investigação identificou dezenas de situações em que Gabbard reproduziu, quase palavra por palavra, argumentos presentes nos documentos atribuídos ao líder religioso.

Em alguns casos, a coincidência foi ainda mais impressionante.

Em um e-mail de 2014, o autor das instruções — que ex-integrantes atribuem a Butler — pressionava Gabbard a apresentar uma proposta para punir cidadãos estrangeiros que lutassem ao lado do Estado Islâmico.

A mensagem era direta: “Faça isso logo pela manhã.” Apenas uma semana depois, Gabbard apresentou exatamente o projeto defendido na correspondência.

O padrão se repetiria em diversos outros temas relacionados à política externa, segurança nacional e questões religiosas.

Votações alinhadas às diretrizes da seita

A investigação também comparou as votações de Gabbard no Congresso com as orientações internas atribuídas a Butler.

O resultado mostrou uma semelhança considerada impressionante pelos jornalistas responsáveis pela apuração.

Em diversos casos, a posição adotada pela parlamentar coincidia integralmente com aquilo que aparecia nos documentos distribuídos por auxiliares do líder religioso.

Aliados de Butler negaram repetidamente que ele fosse o autor das diretrizes, mas o jornal afirma ter encontrado diversos indícios apontando para sua participação direta.

O paradoxo da Inteligência americana

A revelação se torna ainda mais explosiva por causa das opiniões públicas de Butler sobre o aparato de segurança dos Estados Unidos.

Ao longo dos anos, ele criticou duramente as agências de inteligência e defesa americanas, classificando-as como instituições dominadas por pessoas obcecadas por poder.

Em declarações citadas pela reportagem, Butler descreveu essas estruturas como organizações conduzidas por “loucos”.

Apesar disso, sua influência teria alcançado justamente uma mulher que acabaria supervisionando algumas das mais poderosas agências de espionagem do planeta.

Manchete do Washington Post. Foto: Reprodução

A máquina de propaganda pró-Gabbard

O Washington Post afirma ainda que seguidores de Butler criaram uma verdadeira rede de propaganda digital para impulsionar a carreira política de Tulsi Gabbard.

Dezenas de contas em redes sociais foram criadas para defender a então congressista, amplificar suas mensagens e atacar críticos.

A atuação desse grupo teria se intensificado sempre que Gabbard enfrentava momentos de desgaste político.

Após sua saída do governo Trump, em maio, muitos desses perfis voltaram a agir de forma coordenada.

Algumas mensagens reproduzidas pela investigação classificavam Gabbard como “uma verdadeira patriota” e lamentavam sua saída da administração republicana.

O papel da família

A influência de Butler sobre a família Gabbard não seria recente.

Segundo ex-integrantes da Science of Identity Foundation, os pais de Tulsi mantêm vínculos históricos com o líder religioso.

A própria Tulsi já se referiu publicamente a Butler como seu “guru”.

Além disso, sua tia, a professora Caroline Sinavaiana Gabbard, já havia denunciado anteriormente a influência do líder religioso sobre a carreira da sobrinha.

Quando Tulsi disputou a indicação presidencial democrata em 2020, Caroline afirmou que a candidatura fazia parte de um projeto mais amplo de expansão da influência política de Butler.

A defesa de Gabbard

Procurada pelo jornal, a equipe da ex-diretora de Inteligência reagiu com dureza.

Um porta-voz classificou a investigação como um “exemplo flagrante de preconceito anti-hindu”.

A defesa argumenta que a reportagem busca atacar a fé de Gabbard e estigmatizar suas crenças religiosas.

Entretanto, o jornal ressalta que a investigação não se concentra na religião hindu, mas sim nas acusações de controle político exercido por um líder religioso sobre uma autoridade pública de alto escalão.

Tulsi Gabbard. Foto: Divulgação

A coincidência que chamou atenção

Outro detalhe aumentou a repercussão do caso em Washington.

Segundo o Washington Post, apenas dois dias após ser informada de que a reportagem seria publicada, foi anunciada oficialmente a saída de Tulsi Gabbard do governo Trump.

A coincidência alimentou especulações sobre o impacto que as revelações poderiam ter dentro da Casa Branca e nos bastidores da política americana.

Embora não exista até o momento acusação criminal contra Gabbard ou Butler, a investigação levanta questões delicadas sobre influência religiosa, transparência política e segurança nacional.

No centro da controvérsia está uma pergunta que agora mobiliza Washington: até que ponto uma das principais autoridades de inteligência dos Estados Unidos tomava decisões próprias — e até que ponto seguia orientações de um líder religioso tratado por seguidores como uma espécie de divindade viva?

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/tulsi-gabbard-controlada-lider-seita-hindu-documentos/