Sakamoto: após causar incêndio, Flávio Bolsonaro vai aos EUA se vender como bombeiro

Flávio Bolsonaro e Donald Trump na Casa Branca. Foto: Reprodução

Por Leonardo Sakamoto, publicado no UOL

Após se reunir com Donald Trump para pedir intervenção nas eleições brasileiras e, consequentemente, ver os EUA erguerem taxas para os nossos produtos e ameaçar o Pix, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) vai voltar a Washington para falar na Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos contra o tarifaço, em audiência pública marcada para 6 de julho. É como o sujeito que quebra a vidraça de uma loja e depois se vende como o único capaz de evitar que novas depredações aconteçam.

“Vou defender os interesses do povo brasileiro! Vou fazer a minha parte para evitar que empresas brasileiras sejam ainda mais taxadas do que já são com o governo Lula. Como era de se esperar, Lula não move uma palha para evitar que elas sejam tarifadas. E a razão é muito simples: ele acredita que isso pode beneficiá-lo nas urnas em outubro, mesmo que isso custe quebrar as empresas brasileiras”, postou no X.

Partindo do pressuposto de que os brasileiros são mal-informados, seus aliados vendem a ideia de que, como o governo federal não deve participar dessa audiência, ele não está fazendo nada contra o tarifaço. O que não contam é que as reuniões bilaterais continuam acontecendo em busca de uma forma de revertê-lo. Da mesma forma, o Itamaraty vem respondendo, com documentos e provas, às alegações falsas dos EUA.

A questão é que, por trás do embate comercial, está o interesse de setores do trumpismo, como do secretário de Estado Marco Rubio, em ajudar Flávio Bolsonaro a ganhar a eleição. Ou seja, é murro em ponta de faca.

Pegou muito mal para o senador o ataque econômico ao Brasil. Não que ele tenha pedido uma pancada no Pix, porque não é suicida. A questão é que ele não controla a forma como os EUA vão tentar implementar o seu pedido de apoio nas eleições. O tiro do aliado foi tão grande que ele próprio acabou alvejado.

E não foi só isso que pegou mal. Se Donald Trump tivesse elogiado Flávio Bolsonaro no dia em que o senador o visitou na Casa Branca, teria sido a glória. Mas o presidente dos EUA resolveu exaltar o filho de Jair nas redes no momento em que ele era acusado de ajudar o Tio Sam no tarifaço. Com isso, Trump acabou passando a imagem de estar saindo em socorro de um aliado que o ajudou. Ou seja, emitiu um atestado de traição.

Flávio Bolsonaro. Foto: Reprodução

E tudo o que o senador e pré-candidato à Presidência da República não podia era passar a imagem de agente infiltrado de Washington. Para piorar, naquele momento, Lula havia acabado de fazer uma dura crítica à família Bolsonaro, corresponsabilizando-a pelo tarifaço de 25%, chamando-a de “vendilhões da pátria” e “traidores”.

Logo após começarem a circular memes, como o que mostra o senador como um jogador dos EUA chamado “Tariflávio”, transformado em figurinha do álbum da Copa do Mundo, ele deu uma entrevista jurando que pediu “expressamente” ao governo Trump para não taxar as empresas brasileiras. Mas, como seu irmão, Eduardo Bolsonaro, abertamente chamou para si os louros pelo tarifaço de 50% imposto ao Brasil no ano passado, quando ele usava a pressão de Trump para tentar livrar seu pai da cadeia por tentativa de golpe, a palavra do senador foi posta em xeque.

Agora, vai aos EUA na torcida para que, após sua fala, o tarifaço seja revertido. Daí, ele, que atirou a pedra na vitrine, vai se vender como o que salvou a loja da violência.

No documento enviado ao governo dos EUA, o gabinete do senador afirma que ele tratará dos elementos que levaram à imposição das tarifas, “expondo, em relação a cada tema, o que reconhece, o que contesta e os caminhos de correção que um governo brasileiro disposto a negociar de boa-fé poderia entregar”. Leia-se por “governo brasileiro disposto a negociar de boa-fé”, o dele, no caso.

E promete que, com os Bolsonaros de volta ao poder, o alinhamento Brasil-EUA será mais fácil: “A distância entre a posição do Representante Comercial e a de um governo brasileiro reformista é muito menor do que será com o governo em exercício”.

Certos vícios são difíceis de largar.

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/sakamoto-apos-causar-incendio-flavio-bolsonaro-vai-aos-eua-se-vender-como-bombeiro/