Tradição de São João em Belém completa seis décadas

Na véspera do dia de São João, celebrado em 24 de junho, uma tradição familiar que já dura cerca de seis décadas segue mobilizando moradores na Passagem Marcílio Dias, no bairro do Jurunas, em Belém. O evento reúne fé, e identidade cultural, tendo como ponto alto o tradicional banho de cheiro preparado com ervas amazônicas.

A origem da celebração remonta ao interior de Igarapé-Miri, de onde vieram três irmãs — Maria Isabel, Maria Valdomira e Maria da Conceição — responsáveis por iniciar o costume que hoje se mantém vivo na capital paraense. 

A tradição que veio do interior

Segundo a supervisora de vendas Darlene Brito, neta de uma das fundadoras, a tradição nasceu de forma simples. “Tudo começou com a minha avó e as irmãs dela. Elas vieram do interior e trouxeram esses costumes regionais. Era uma coisa muito simples, um tanque, uma bacia de alumínio, onde elas preparavam as ervas e os cheiros. De madrugada, acordavam todo mundo batendo panela. Era assim que começava a festa”, relembra.

Ainda de acordo com Darlene, a mudança para Belém não significou o abandono das raízes culturais. “Elas vieram estudar, constituíram família aqui, mas nunca esqueceram de onde vieram. Trouxeram essa tradição como uma forma de manter viva a cultura delas”, explica. Hoje, mesmo após o falecimento das três irmãs, a festividade continua sendo organizada pelos descendentes e pela comunidade, que se mobiliza anualmente para garantir a realização do evento.

Fé e união no bairro do Jurunas

 A programação incluiu uma missa, com a presença da imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré, novenas e o preparo de cerca de 1.500 litros de banho de cheiro, distribuídos ao público na manhã do dia 24. Manter a tradição, no entanto, não é tarefa fácil. “É muito difícil, mas ao mesmo tempo muito gratificante. É feito com amor, com fé. A gente conta com a ajuda da família, dos vizinhos e, acima de tudo, de Deus. A gente não quer que essa herança cultural se apague”, afirma Darlene.

Além do caráter religioso, a festa também carrega um simbolismo social importante para o bairro do Jurunas. “Muita gente conhece o Jurunas por um lado negativo, mas aqui a gente mostra um outro lado, de união, de cultura, de fé. Tem gente que nem sabe que essa tradição existe há tantos anos”, pontua.

A força da tradição também é reconhecida por quem acompanha a festa há décadas. É o caso da aposentada Maria do Carmo Rodrigues, de 74 anos, que mesmo morando atualmente em Abaetetuba, não deixa de participar da celebração todos os anos. “Eu já morei aqui muitos anos. Isso aqui é família. Mesmo morando fora, eu venho todo ano. É uma tradição muito bonita, porque mostra união. Hoje em dia, o mais importante é a família estar unida, e aqui eles são um exemplo disso”, afirma.

Herança cultural que atravessa gerações

Maria do Carmo chegou a conhecer as fundadoras da festa e lembra com carinho da dedicação delas. “Elas faziam tudo, eram muito animadas. Essa continuidade é muito linda, porque mostra respeito pela história da família”, destaca. Devota de São João Batista, ela também aproveita a ocasião para fazer um pedido que vai além do âmbito pessoal. “Eu peço paz no mundo, união nas famílias. A gente vê muita desunião hoje. Aqui é diferente, aqui é um exemplo”, diz.

Fonte: https://diariodopara.com.br/belem/entre-fe-e-memoria-tradicao-de-sao-joao-resiste-ao-tempo-em-belem/