Douglas Ruas, presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) e pré-candidato do PL ao governo do estado, afirmou em entrevista à BBC News, divulgada nesta sexta-feira (26), que apoia bombardeios dos Estados Unidos contra embarcações suspeitas de tráfico de drogas e armas “no mar aberto”, antes que o carregamento chegue ao território brasileiro.
A declaração foi feita após o governo Donald Trump classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas, e repete, em tom ainda mais explícito, um pedido que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) já havia feito publicamente ao governo Trump.
Pré-candidato do PL defende bombardeio dos EUA
Em entrevista à BBC News, Ruas foi questionado sobre a declaração do correligionário Flávio Bolsonaro, que havia pedido a Pete Hegseth, ex-secretário de Guerra do governo Trump, para bombardear embarcações na Baía de Guanabara. A resposta do pré-candidato não deixou margem para ambiguidade: “Defendo medidas efetivas para impedir que essas armas e essas drogas cheguem ao nosso território. E, se for necessário bombardear esses traficantes de drogas, traficantes de armas no mar aberto, antes dessas armas chegarem aqui no nosso território, nas nossas cidades, têm o meu total apoio.”
Ruas embalou a declaração numa retórica de cooperação internacional, citando apreensões de fuzis de origem estrangeira no Rio de Janeiro e o fato de que drogas como a cocaína são produzidas fora do Brasil. Para ele, o “enfrentamento do crime organizado” justifica a parceria com forças americanas, algo que, segundo ele próprio reconheceu, já ocorre entre as forças de segurança dos dois países. O pré-candidato também defendeu a classificação das facções criminosas como organizações terroristas e criticou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por, segundo Ruas, não as considerar assim e tê-las chamado de “nossos criminosos”. A ofensiva retórica contra Lula insere a declaração diretamente na disputa eleitoral, transformando uma questão de soberania nacional em munição de campanha.
Precedente e alinhamento político
A fala de Ruas não surgiu do nada. Em 2023, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) publicou nas redes sociais, em inglês, um pedido direto a Pete Hegseth para bombardear “barcos como este aqui no Rio de Janeiro, na Baía de Guanabara”. A publicação foi acompanhada de um vídeo divulgado pelo próprio Hegseth mostrando um dos bombardeios americanos a embarcações em águas internacionais no Oceano Pacífico, nas proximidades da Colômbia. “Que inveja”, escreveu o senador, antes de convidar o secretário a “passar alguns meses aqui nos ajudando a combater essas organizações terroristas.”
https://x.com/FlavioBolsonaro/status/1981332224533291494
O padrão é claro: dois dos principais nomes do PL no Rio de Janeiro, em momentos distintos, pediram publicamente a militares de um governo estrangeiro que realizassem operações armadas em território ou águas brasileiras. A retórica usa a classificação de facções como “terroristas” como passaporte para legitimar a intervenção externa, ignorando que a mesma lógica foi aplicada pelos EUA à Colômbia e à Venezuela, com Trump acusando seus presidentes, sem provas, de comandar o tráfico internacional. O alinhamento entre Ruas e Flávio Bolsonaro não é coincidência: é uma linha política do bolsonarismo que aposta na subordinação da segurança pública brasileira à agenda de Washington como plataforma eleitoral.
Repercussões e debate sobre soberania
A classificação do CV e do PCC como organizações terroristas pelos EUA tem implicações que vão além do simbólico. Segundo especialistas, o rótulo pode ser invocado como justificativa para operações americanas em território nacional, abrindo um precedente de difícil controle diplomático e jurídico. A proposta de Ruas, ao endossar bombardeios em águas brasileiras por forças estrangeiras, dialoga diretamente com esse risco: normaliza a ideia de que o Brasil não é capaz, ou não tem legitimidade, para conduzir sua própria política de segurança.
Os dados de opinião pública revelam uma contradição que os defensores da proposta preferem ignorar. Uma pesquisa Datafolha mostrou que 59% dos brasileiros apoiam rotular as facções como terroristas, o que poderia sugerir respaldo popular à retórica do PL. Mas o mesmo levantamento indica que 74% da população rejeita a possibilidade de os EUA atuarem contra integrantes dessas facções em território brasileiro sem autorização do governo do Brasil. Ou seja: a maioria quer dureza contra o crime organizado, mas não abre mão da soberania para obtê-la. A proposta de Ruas e o histórico de Flávio Bolsonaro ignoram essa distinção, apostando que o medo da violência urbana é capaz de fazer a população aceitar qualquer preço, inclusive o de convidar uma potência estrangeira a decidir quando e onde bombardear em solo nacional.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/pre-candidato-do-pl-no-rio-repete-flavio-bolsonaro-e-pede-para-trump-bombardear-embarcacoes-no-brasil/

