A professora da EMEI Antônio Bento, na Zona Oeste de São Paulo, que ocupava interinamente a direção da escola, disse que desenvolveu sintomas de estresse pós-traumático e pediu afastamento após policiais militares armados entrarem na unidade para apurar uma denúncia sobre um desenho de Iansã feito por uma criança de 4 anos.
O caso ocorreu em novembro do ano passado. O pai da aluna, que é soldado da PM, acionou a polícia depois de se revoltar com a atividade. Ele alegou que a escola obrigava a filha a ter “aula de religião africana”. Iansã é uma orixá presente em religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda.
Câmeras corporais dos policiais registraram a ocorrência e a discussão entre a educadora e o tenente Ronald Camacho, comandante da equipe. Em um trecho, o oficial acusou a então diretora de tentar “ditar sua ideologia” ao explicar que a escola trabalhava conteúdos de cultura afro-brasileira previstos no currículo municipal.
A professora, que preferiu não se identificar, afirmou que precisou de medicação e apoio psicológico depois da abordagem. “No dia e no mês que se seguiram, eu fiquei afastada, precisei de apoio psicológico, pois tive sintomas de estresse pós-traumático. Eu fui atendida em casa pela médica, não tinha condição de sair. Então, não foi uma situação fácil nem tranquila”, relatou.
Vocês lembram desse caso? Do pai que reclamou que sua filha desenhou uma orixá em uma atividade escolar, e chamou a PM? Agora venha ver qual foi a reação do tenente da PM ao se deparar com uma lei sendo cumprida na escola. Afinal o ensino de cultura afro-brasileira faz parte da… pic.twitter.com/xqXs8j4EZe
— Ediane Maria (@EdianeMariaMTST) June 22, 2026
Câmeras corporais registraram discussão sobre currículo
O filho da professora, também aluno da EMEI, estava na escola e presenciou a cena. Segundo ela, a criança passou a ter medo da polícia e recebeu acompanhamento psicológico. “Meu filho ama policiais. Depois desse dia, ele passou a ter muito medo. Muitas vezes, quando ele via carro de polícia na rua, ele falava: ‘mãe, são aqueles policiais do mal de novo?’ […] Nos primeiros dias foi bem difícil, ele ficava com muito medo e também precisou de um apoio psicológico.”
Nas imagens, a diretora explica ao tenente que a atividade fazia parte de um projeto pedagógico baseado nas leis federais 10.639 e 11.645, que determinam o ensino da história e da cultura afro-brasileira e indígena nas escolas. “O que a gente tem aqui na escola é o ensino da cultura afro-brasileira, um projeto referendado a partir dos documentos da prefeitura”, disse ela ao policial.
O tenente contestou a explicação e afirmou que o conteúdo tinha caráter religioso. “Como não? Eu vi um desenho que está escrito Iansã”, disse. A diretora respondeu que ele havia visto apenas parte da atividade e citou o livro infantil “Ciranda de Aruanda”, do acervo da rede municipal, como base do trabalho sobre mitologia dos orixás em perspectiva cultural e literária.
A educadora também questionou a entrada de um efetivo armado em uma escola de educação infantil para tratar de uma questão pedagógica. “Chega um efetivo armado para tratar de uma ação de um munícipe que nem está aqui”, afirmou. O tenente encerrou a conversa dizendo: “A senhora quis impor e ditar as suas regras, ditar o seu pensamento, ditar a sua ideologia. Não vou conversar com a senhora hoje. E se tiver alguma medida, eu tomarei e voltarei aqui com uma medida administrativa”.
Depois da discussão, a diretora ligou para uma supervisora de ensino da Diretoria Regional de Educação do Butantã, que afirmou ao comandante: “isso é uma tratativa pedagógica. Isso é uma discussão pedagógica”. A Secretaria da Segurança Pública informou que um Inquérito Policial Militar investiga a atuação dos agentes e as imagens das câmeras corporais. A Polícia Civil concluiu que os PMs seguiram protocolo ao entrar armados na escola e indiciou o pai da aluna por intolerância religiosa.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/pm-acusou-diretora-de-ditar-ideologia-em-escola-infantil-de-sp/

