Sakamoto: Indiferença aos mortos da Venezuela revela o preconceito da nossa comoção

Danos causados por terremoto na Venezuela. Foto: Reprodução.

Por Leonardo Sakamoto, no UOL 

Quase 1.500 mortos e mais de 3.300 feridos. Dois terremotos reduziram partes da Venezuela a escombros, soterrando vidas, histórias e famílias. Diante de uma tragédia dessa dimensão, a indiferença de parte da sociedade brasileira não é ausência de informação. É escolha.

E nem adianta afirmar que a mídia está “escondendo o caso”. Eu sou um dos primeiros a criticar a imprensa, mas, neste caso, jornalistas parecem estar dando murro em ponta de faca. A cobertura de muitos veículos tem sido constante, disputando espaço com a Copa do Mundo, os escândalos do Banco Master e o vídeo de Michelle Bolsonaro. A notícia está nos portais, nas TVs, nas telas. Mas o interesse é baixo. O que falta não é informação, mas admitir que nos importamos menos quando quem morre é pobre, latino-americano, africano ou politicamente inconveniente.

E olha que compatriotas nossos estão entre as vítimas fatais. O governo brasileiro mandou equipes para ajudar no resgate de desaparecidos, que ultrapassam os 50 mil.

Há uma contabilidade macabra na forma como distribuímos empatia. A comoção pública costuma ser inversamente proporcional à distância do ocorrido, mas também da pobreza do país ou do grupo social atingido. Quando a tragédia acontece no mundo desenvolvido, sobram lágrimas, minutos de silêncio, monumentos iluminados, bandeiras em perfis de redes sociais e discursos solenes sobre a fragilidade da vida humana. Quando o chão se abre no Sul Global, a reação, não raro, é um dar de ombros, como se a dor de alguns povos viesse no pacote de fábrica da existência.

Essa lógica indecente também opera dentro do Brasil. Temos um luto de primeira e segunda classe. Quando lama, enchente, desabamento ou violência policial matam trabalhadores, moradores de periferia, pessoas em situação de rua ou famílias empurradas para áreas de risco, o país trata o saldo de corpos como fatalidade, estatística ou rodapé. Um “efeito colateral” do clima, da pobreza ou da segurança pública.

Mas basta a tragédia subir a serra, atravessar a portaria do condomínio ou alcançar gente com sobrenome e influência para que tudo vire catástrofe nacional. A comoção ganha sirene, plantão, helicóptero, pronunciamento e pressa do Estado. A diferença não está no tamanho da dor, mas no valor social atribuído a quem morreu.

O que se consolida é uma Bolsa de Valores do Afeto, em que corpos pobres, periféricos ou de países empobrecidos valem menos. O CEP, a cor da pele, o passaporte e o contracheque definem o volume do choro público. A indignação seletiva não nasce do nada: ela é educada todos os dias por uma sociedade que aprendeu a reconhecer humanidade plena apenas em quem se parece não com ela, mas com seus próprios sonhos de consumo.

É claro que psicólogos e sociólogos explicam que tendemos a nos comover mais com tragédias próximas. A identificação depende, em alguma medida, da proximidade. O problema é que essa justificativa desmorona quando se olha para o mapa.

O Brasil tem sua terceira maior fronteira com a Venezuela, ou seja, é nosso quintal. Está infinitamente mais perto, geográfica e culturalmente, do que os Estados Unidos ou a Europa. Ainda assim, tiroteios em escolas norte-americanas, incêndios na Califórnia ou enchentes em cidades europeias costumam gerar uma comoção muito mais rápida e visceral do que 1.500 vizinhos esmagados por terremotos.

As classes média e alta daqui estão mais conectadas com as classes média e alta de lá do que com a maioria pobre de sua própria população. E como elas influenciam fortemente na formação do nosso cabedal simbólico, aprendemos desde cedo o que (e quem) é importante e o que (e quem) não é.

Nosso afeto não segue a quilometragem, mas uma bússola colonizada, que insiste em apontar para o Norte. Para alguns, o mundo só dói quando a tragédia fala inglês, mora em país rico ou aparece em série de streaming.

A indiferença diante da Venezuela revela mais sobre nós do que sobre ela. Mostra que, apesar de nos vendermos como povo solidário, seguimos escolhendo quem merece luto, quem merece manchete e quem pode ser enterrado no silêncio. Ainda mais um país que vive uma sequência de tragédia, com autoritarismo, golpes e invasão de potência estrangeira.

A pergunta incômoda não é por que tantos venezuelanos morreram, isso é fácil de responder. Mas por que tantos brasileiros parecem achar que eles morreram longe demais para merecer nossa dor.

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/sakamoto-indiferenca-aos-mortos-da-venezuela-revela-o-preconceito-da-nossa-comocao/