O fundamento é a roça

Desde o primeiro ato de violência dos devotos da dominação, colonizadores, nesta terra estão a brotar formas de batalhar, defender a vida e seus ciclos. Os afetados pela ofensiva nutrida pelo desejo de espoliação, lucro e destruição testemunham e carregam em seus corpos os registros das batalhas dadas por aqui há muito tempo. Existir na relação com este mundo, que se quer único, é sustentar todos os dias que viver é batalhar, pois a empresa que aqui aportou estabeleceu uma guerra que nunca cessou. Mesmo diante do lastro de terror produzido pela guerra, existem aqueles que não credibilizam tal dimensão; desconfio de que desfrutam dos benefícios dessa empresa ou estão aquebrantados pelos seus assombros.

Em outro lugar, nem protegidos pela égide da cruz, nem anestesiados pelo quebranto posto por essa lógica, estão os que confluem na tarefa de dar lida na lavra contracolonial. Atraso o passo para firmar algo: por mais que o debate público acerca da emergência no enfrentamento, na transgressão e no reposicionamento diante da guerra e do legado colonial seja cada vez mais presente, faz-se necessário chamar atenção para os riscos de reduzi-la somente a uma retórica discursiva que flerta com a confrontação colonial meramente como fetiche conceitual.

Para abordar a questão contracolonial, com ênfase em suas dimensões estéticas e políticas, assumo palavras que, como ensinou Nêgo Bispo, saltam dos corpos em batalha. Essas palavras, como facões azeitados no dendê, batem para ver o tombo daqueles que ainda insistem em ser senhores daquilo que não se pode conter, a vida, a diversidade de modos e experiências. Se a colonização tem como principal característica a instalação de uma guerra, não haverá transgressão somente com palavras de efeito. O repertório de um lavrador de palavras não é só de alegorias ou metáforas, suas palavras germinam, têm força mandingueira, corporal, montaria de muitas sabedorias e, por isso, têm o poder de atuar nessa guerra nas dimensões mais sutis em que ela também acontece.

Uma das lógicas coloniais é a violência que rege a invenção do colonizador e do colonizado, porém, diante desse modelo, existem aqueles que transgridem as dicotomias, tacam fogo no canavial de certos domínios, não vestem nenhuma carapuça, rasuram até mesmo a ideia de humano para assumir parentalidade com a terra. Assim, ressalto que enquanto uns esperam a superação ou o lugar aos céus prometido por uma razão que se quer total, o jogo vai se dando com pernadas, gingas, invenções, ocupações, corpos fechados, retomadas, fugas mato adentro e contra-ataques. O que queremos quando reivindicamos contrariar a lógica dominante? Apenas desempoeirar os discursos ou lançar os corpos em uma jornada guerreira que liberte a vida deste estado aquebrantado?

O preto velho martinicano me sopra ao ouvido e diz que a descolonização se dá na medida em que o colonizado reconhece a instauração da guerra, sua condição em meio a ela, e se ergue como força contrária à mesma. O Nêgo velho quilombola da Caatinga diz: não basta descolonizar, é preciso contracolonizar. Dessa maneira, antes que aprontem a pergunta da diferença entre anticolonial, descolonial, decolonial e contracolonial, digo que, nos campos de batalha, um toco de pau, uma pedra, um punhado de areia e o próprio jeito que o corpo dá viram armas. Os debates entre suas diferenças, que são necessários e de extrema relevância, sem corpos vibrantes não são suficientes para fazer com que a ofensiva colonial recue. Em vez disso, quando feitos por corpos ruins de ginga, acabam fortalecendo a lógica dominante, pois contribuem na mistificação do problema.

Para Antônio Bispo dos Santos, contracolonizar não é meramente subverter a lógica, uma espécie de pavimentação contra-hegemônica diante das obras do Ocidente europeu. Contracolonizar não é o refazimento do caminho, mas, sim, o drible, o passa-pé, o tombo na subida, o desate da praga rogada e a amarração de um feitiço vivaz imantado nas políticas e poéticas quilombolas irmanadas com a terra e lavradas nas margens cotidianas das lutas contrárias à dominação.

Contracolonizar é a capacidade contínua, perspicaz e tática de contrariar a lógica imposta pelo modelo colonial. Assim, para encararmos a força estética e política da contracolonização, haveremos de atar essa palavra germinante em outra – que é confluência. Assim, contracolonizar é desdizer os regimes de verdade coloniais, é esquivar-se da pretensão de superioridade dos homens brancos e euro-cristãos. A lógica é mandingueira no sentido de negar a obsessão cartesiana do modo dominante. Encarna sagacidade de capoeira que ginga, caça o vazio para refazer o jogo, assim como também lança mão do feitiço como astúcia. Daí a atitude de contracolonizar: desatar os nós das pragas coloniais e lançar amarrações para que aqueles que se querem únicos se percam em sua razão monológica.

Contracolonizar é ato confluente, assim não disputa a centralidade de nada, pois reconhece que a luta em contrariar, transgredir, rasurar e enfeitiçar as presenças coloniais perpassa pela capacidade de roçar e enramar outras formas, ou seja, confluir. Aquilo que conflui nem sempre vibra no mesmo tom, logo é “diversal”. Assim, ser confluente admite o conflito e ressalta a sensibilidade em tecer diálogos responsáveis nas diferenças. Dessa maneira, Bispo vai no repertório materno da roça de quilombo, nas aprendizagens com as gerações avó e na relação com os mais diferentes seres para nos ensinar que a contracolonização é parte de um contínuo de batalhas, políticas e poéticas que se alinhava na relação e na defesa das mais diferentes formas de vida.

Confluir e contracolonizar nos convida a estarmos disponíveis ao arrebate, ao reconhecimento e à aprendizagem feitos pelos modos ancestrais aquilombados e encruzilhados nas margens do chamado Novo Mundo; e às gramáticas e tecnologias comunitárias que remontam à peleja contrária à produção do esquecimento e ao quebranto imposto pelo “olho grande” colonial. Diante de um mundo erguido nas vigas da intervenção militar, da plantation e da catequese, raspa-se no fundo da cuia o fundamento da roça de quilombo – a confluência, uma inteligência que reconhece a vida como tempo cíclico, gramática telúrica e relações de compartilhamento.

A contracolonização – como reza forte, fechamento de corpo e facão azeitado para bater em quaisquer pretensões monoculturais – não se opõe aos debates, conceituações e contribuições propostas na longa e diversa esteira da crítica ao colonialismo. A contracolonização há de ser lida como ato e disponibilidade estética e política que tem como matriz e motricidade a roça de quilombo, suas linguagens, ciclos, palavras, folhas, gentes, bichos, almas e confluências. Bispo, como alguém que desconjura a praga rogada, é um lavrador de palavras. Na esteira dos estudos sobre o problema colonial, as dimensões da virada enunciativa, linguística, e o tensionamento dos regimes discursivos impostos pelo Ocidente europeu são marcas do esforço político e teórico de muitas pessoas que enfrentam a questão da violência que forja o colonizado e institui a lógica de dominação.

Palavra, linguagem, comunicação e corpo como núcleo de inscrição, memória e expansão da experiência são elementos-chave para entendermos como a violência colonial opera de forma sofisticada, e como as lutas contrárias a esse sistema encontram nesses elementos saídas inventivas e táticas. Para Bispo, macerar a palavra como veneno e remédio, tomá-la como laço para domar bicho brabo, braço de semeadura e colheita, é sabedoria que cruzou o Atlântico e germinou na labuta de confrontar o assombro colonial com modos cotidianos de praticar política em defesa da vida.

Quem faz da palavra pacto de defesa da comunidade, continuidade e compromisso com a terra sabe que toda lavra é palavração. Dessa maneira, se a intimidade e a relação com a terra precedem a leitura e a escrita da palavra, quais forças são mobilizadas por aqueles que erguem, andarilham, catam, cantam, disputam e defendem mundos via palavra? Talvez essa seja uma das aprendizagens mais urgentes à qual devemos nos dispor diante da tarefa da contracolonização. A lição dada por Bispo é de sermos ouvintes, falantes, leitores e escritores de palavras mata, chão, água, céu, espírito e tempos diversos. Tarefa difícil? Sim. Quase inalcançável se nos mantivermos na arrogante pretensão totalitária, mas possível se nos permitirmos ser aprendizes. Para o arrebate desse modo de ser mais, Bispo nos cede duas germinações críticas, a biointeração e a cosmofobia.

A biointeração é aposta ética e estética que aflora quando a problematização sobre as questões da vida e da política se enrama para diferentes caminhos e desloca a centralidade no humano. Lavrada na compreensão da vida como diversidade e problema inconcluso, a biointeração parte da roça como princípio explicativo para confluir com outras maneiras de sentir, fazer e pensar; cosmologias que se encruzilham por ter percepções da existência diferentes da métrica dominante, e, uma vez marcadas pela condição de oprimidas historicamente, estabelecem mediações e redes de compartilhamento.

No caso da biointeração, como o humano não se define como algo oposto à natureza, ela encarna a confluência para destacar as diferenças entre os saberes orgânicos e sintéticos, da forma que Nêgo Bispo ensina. A biointeração, por ser um modo que exercita outro senso político e poético, assume caráter vernacular na batalha contracolonial ao denunciar as calças curtas de um padrão de ser e saber que é cosmofóbico. A cosmofobia engloba o medo, a recusa e a hostilidade ao cosmos, além de ser o termo que marca a política de identidade produzida pela empresa colonial no que tange à sua viga teológico-política.

A colonização é guerra em todas as suas dimensões. Essa guerra que se instaura com a intervenção militar e teológico-política da Coroa/Igreja abarca desde uma guerra justa até uma guerra de mundos que se encarna na concretude do estupro, da tortura, do encarceramento, da escravidão, de epidemias, da conversão e se capilariza na face dos desvios existenciais, desmantelos cognitivos e quebra de vínculos comunitários. A política que autoriza o assassinato, o espólio e a humilhação de diversos modos de vida por um padrão concebido à imagem e semelhança do Deus euro-cristão-monoteísta nega, recusa e ataca as outras formas que sentem a vida através de uma ética e estética da biointeração.

Para Nêgo Bispo, a cosmofobia é parte da tara dominante que penhorou a vida em prol da promessa de desenvolvimento. Essa lógica, por devorar tudo como recurso, plasmou uma distorção de sentidos – a ponto de hoje se considerar como vida aquilo que é um modo de ser contrário a ela. Assim, confrontar tal padrão de desenvolvimento demanda uma atitude responsável que nos lance no compromisso do envolvimento. Esse envolvimento que contraria a lógica do desenvolvimento predatório é parte do exercício de biointeração.

Passados mais de cinco séculos da instalação dessa guerra, e não cessando suas ofensivas, são muitas comunidades que mantêm, nas suas práticas cotidianas, as tessituras da contracolonização, da confluência e da biointeração. Aldeias, quilombos, terreiros, quintais, sertões, pescadores, marisqueiras, favelados, encantadores de corpos, palavras, inventores de mundo que afugentam o assombro com artes do fazer lavradas a muitas mãos nas funduras deste Brasil. Contracolonizar, confluir e biointeragir demarca a roça como chão de lutas e de imaginações que defendem a vida, a sustentação de mundos e modos plurais de fazer política. Se a colonização permanece na vida cotidiana como violência, legado, obra e lógica desse estado de terror aqui aportado, a transgressão a esse modelo se faz urgente como parte da sustentação de uma toada comunitária daqueles que nunca se foram, mas sempre estiveram e permanecem lado a lado conosco, aqui. A orientação para esse exercício é a própria terra, que dá, quer e nos conduz nas várias voltas do tempo.

LUIZ RUFINO (organizador do dossiê) é professor da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense (FEBF) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

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