Nêgo Bispo na comunidade quilombola Fazenda do Meio, em 2010 (acervo nêgo bispo)
Nêgo Bispo foi um lavrador, alguém que vivia entrelaçado à terra, imerso nela, interagindo com ela em busca daquilo que mantinha sua nutrição física e existencial. Com ela, e a partir dela, se alimentava, mas também aprendia o necessário para viver em comunidade. A terra era mestra nessa comunidade da qual Bispo fazia parte.
Um olhar mais apressado poderia dizer que o nosso Mestre Quilombola era um trabalhador rural: alguém que apenas extraía sua alimentação do fruto de sua atividade laboral sobre a terra, que ela seria apenas um objeto sobre o qual Bispo atuava. Um tipo de entendimento bem distante daquele que Nêgo Bispo sustentava. Além de afirmar que “somos da terra”, e não o contrário, ele dizia, sem rodeios: “Eu sou é vagabundo! Eu gosto é de vadiar”.
Em uma das vezes que ele enunciou esse dito, durante uma mesa-redonda com o filósofo martinicano Malcom Ferdinand, na USP, em março de 2023, sua afirmação reverberou bastante – mas de maneira negativa, sobretudo nas redes sociais, que desqualificaram e ridicularizaram sua enunciação. Ela foi entendida, em vários casos, a partir do registro neoliberal que tem informado muito de nossas percepções sobre o trabalho e que vê na vagabundagem e na vadiagem um crime, um pecado, uma falha de caráter. Capturadas por esse registro que distorce, essas falas simplesmente deslocaram Bispo de seu lugar de lavrador, e do sentido mesmo dessa interação com a terra que nosso mestre mantinha.
A ambiência neoliberal nos cerca com determinado modo de perceber o mercado – e busca moldar nossa
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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/vagabundear-na-lavra-ensinamentos-ancestrais-de-um-mestre-de-fazeres/

