As rachaduras por onde entra a luz

 

 

Durante muito tempo, as discussões sobre tecnologia concentraram-se na ampliação das capacidades das máquinas. Os sistemas generativos produziram um deslocamento inesperado. À medida que algoritmos passam a escrever textos, compor músicas, traduzir idiomas, diagnosticar doenças e resolver problemas complexos, cresce o interesse por aquilo que continua singularmente humano.

Não se trata apenas de uma especulação trivial, mas de uma das questões mais antigas da filosofia. Desde Aristóteles, a reflexão sobre a condição humana distingue meios e fins. A técnica aperfeiçoa instrumentos; não determina propósitos. Um navio mais veloz não responde à pergunta sobre o destino da viagem. Da mesma forma, uma sociedade pode tornar-se extraordinariamente eficiente sem jamais enfrentar a principal questão: eficiente para quê?

A inteligência artificial representa o capítulo mais recente de uma longa história de ampliação das capacidades humanas. A escrita permitiu preservar a memória para além da vida individual. Gutenberg no século 15, com a prensa de tipos móveis, multiplicou o acesso ao conhecimento. A máquina a vapor ampliou a força física. O computador expandiu a habilidade de processamento de informações. Agora, pela primeira vez, surge uma tecnologia capaz de reproduzir algumas atividades que associávamos à própria inteligência.

Tal novidade provoca fascínio e inquietação. Afinal, os algoritmos escrevem, resumem, traduzem, organizam informações e produzem respostas em segundos. Em muitos casos, realizam essas tarefas com velocidade e precisão superiores às humanas. Não surpreende que surjam dúvidas sobre qual o futuro do trabalho, da educação e até da criatividade.

A questão, porém, é que eficiência não é sinônimo de humanidade.

O psiquiatra Viktor Frankl, sobrevivente dos campos de concentração nazistas, observou que os seres humanos são capazes de suportar sofrimentos extraordinários quando conseguem atribuir sentido à própria existência. Essa é uma das diferenças mais profundas entre homens e máquinas. Sistemas artificiais processam informações. Seres humanos atribuem significado à experiência.

A persistente fascinação exercida pela Nona Sinfonia de Beethoven ajuda a compreender essa diferença. A obra não é admirada apenas por sua arquitetura musical, mas porque nela se projeta também a experiência de um compositor que enfrentava a surdez enquanto a escrevia. A criação artística jamais se reduz ao resultado final. Ela incorpora a trajetória, os limites, as perdas e as circunstâncias de quem a produz.

Uma máquina poderá, algum dia, compor uma sinfonia tecnicamente impecável. O que dificilmente experimentará é a dor, a perseverança, a dúvida ou a esperança que frequentemente estão na origem das grandes realizações humanas.

Essa observação ajuda a compreender uma característica peculiar da modernidade. A sociedade contemporânea desenvolveu uma obsessão pelo desempenho. Produtividade, velocidade, otimização e eficiência tornaram-se critérios dominantes para avaliar organizações e indivíduos. Aplicativos monitoram passos, horas de sono, desempenho físico e produtividade profissional. A linguagem da mensuração avançou sobre esferas que antes escapavam à lógica dos indicadores.

O risco está em adotar para a vida humana os mesmos parâmetros utilizados para avaliar máquinas.

Essa tendência não começou agora. Ela acompanha a modernidade industrial desde o século XIX. O que muda agora é a escala. Pela primeira vez, os seres humanos se veem diante de tecnologias capazes de competir justamente nos critérios que escolheram para medir seu próprio valor.

É nesse ponto que o avanço produz um efeito paradoxal. Quanto mais as máquinas demonstram competência em tarefas analíticas e operacionais, mais evidente se torna a importância do que não pode ser reduzido a algoritmos. Consciência moral, imaginação, empatia, responsabilidade, sensibilidade estética e capacidade de julgamento não resultam do simples processamento de dados. São atributos que emergem da convivência, dos erros cometidos, das perdas enfrentadas, dos vínculos construídos e da experiência acumulada ao longo da vida.

É possível que a inteligência artificial não esteja inaugurando a desumanização do mundo, mas apenas tornando mais visível um processo anterior. Muito antes dos algoritmos generativos, escolas, empresas e organizações já vinham avaliando pessoas por critérios de desempenho, produtividade, adaptação e rendimento. Em muitos ambientes, o ser humano passou a ser tratado como uma máquina imperfeita: lenta, emocional e pouco previsível. A chegada da nova tecnologia apenas radicaliza essa lógica.

Por isso as grandes obras da literatura continuam tão relevantes. Hamlet, Dom Quixote, Riobaldo ou Bentinho não permanecem vivos na memória coletiva por serem modelos de perfeição. Ao contrário. Interessam precisamente por suas ambiguidades, hesitações, contradições e fragilidades. Os grandes personagens literários revelam que a condição humana não se manifesta na ausência de falhas, mas na forma como cada indivíduo lida com elas.

Em recente reflexão sobre os sistemas generativos, o jornalista e analista político Fareed Zakaria observou que o verdadeiro interesse dessa tecnologia talvez não esteja apenas naquilo que ela revela sobre as máquinas, mas naquilo que nos obriga a redescobrir sobre nós mesmos. Ao desenvolver essa ideia, recorre à tradição japonesa do kintsugi, arte que consiste em restaurar peças de cerâmica quebradas com veios de ouro. Em vez de ocultar a fratura, o artesão a destaca. A marca da imperfeição deixa de ser um defeito e passa a integrar a beleza do objeto.

A metáfora é poderosa porque contrasta com uma cultura frequentemente empenhada em eliminar vulnerabilidades, corrigir limitações e maximizar desempenhos. Os seres humanos, porém, não são produtos acabados. Aprendem com os erros, amadurecem diante das dificuldades e frequentemente encontram na fragilidade a origem da criatividade e da sabedoria.

As rachaduras não diminuem nossa humanidade. São parte dela. Leonard Cohen transformou essa percepção em uma das imagens mais conhecidas de sua obra ao escrever que “há uma rachadura em tudo; é assim que a luz entra”. Em diferentes culturas e épocas reaparece a mesma intuição: a experiência humana não se define pela ausência de falhas, mas pela capacidade de transformá-las em aprendizado.

Essa percepção atravessa também a tradição humanista ocidental. No Renascimento, Giovanni Pico della Mirandola afirmava que a singularidade humana não residia na força, na velocidade ou na perfeição, mas na liberdade de construir a própria existência. O ser humano não estaria condenado a um lugar fixo na criação. Sua dignidade decorreria justamente da possibilidade de escolher quem deseja ser.

Séculos depois, a inteligência artificial recoloca essa questão sob nova forma. Se máquinas podem superar seres humanos em tarefas específicas, talvez seja necessário recordar que o valor da condição humana nunca esteve apenas na aptidão de executar. Sempre esteve na capacidade de escolher, criar, imaginar, amar, assumir responsabilidades e atribuir sentido ao mundo.

Ao longo da história, cada revolução tecnológica obrigou os seres humanos a rever sua imagem de si mesmos. A inteligência artificial não parece diferente. Seu legado mais duradouro dificilmente será apenas a criação de máquinas mais inteligentes, mas a redescoberta de uma verdade antiga: aquilo que nos torna humanos nunca esteve na velocidade com que calculamos nem na capacidade de produzir resultados.

Está, antes, na possibilidade de transformar experiência em consciência, conhecimento em sabedoria e fragilidade em crescimento. Ao revelar tudo aquilo que as máquinas conseguem fazer, ela nos obriga a compreender melhor aquilo que elas não podem ser.

A questão decisiva, portanto, não é apenas saber até onde chegarão os algoritmos. É perguntar o que permanecerá humano quando quase tudo aquilo que julgávamos exclusivamente humano puder ser reproduzido por máquinas.

As rachaduras por onde entra a luz não estão nas limitações das máquinas. Estão naquilo que continua nos tornando humanos.

__________________

Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação e vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro.

(function(d, s, id) {
var js, fjs = d.getElementsByTagName(s)[0];
if (d.getElementById(id)) return;
js = d.createElement(s); js.id = id;
js.src = “//connect.facebook.net/pt_BR/sdk.js#xfbml=1&version=v2.7&appId=1200972863333578”;
fjs.parentNode.insertBefore(js, fjs);
}(document, ‘script’, ‘facebook-jssdk’));

Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/as-rachaduras-por-onde-entra-a-luz/