Victor Shimada, 41 anos, empresário paulista ligado a empresas de pagamentos, intermediação de negócios, tecnologia, construção e criptoativos, virou o nome central de uma investigação transnacional que cruza PCC, Flórida, São Paulo, VaideBet, Corinthians e uma operação bilionária da Polícia Federal. Sancionado pelo governo Donald Trump em 1º de julho por suposto apoio financeiro à facção, Shimada é apontado pelo Tesouro dos Estados Unidos como elo entre operadores do PCC na Flórida e traficantes internacionais. No Brasil, ele já aparecia em investigações sobre lavagem de dinheiro no caso VaideBet e em processo envolvendo R$ 35 milhões desviados do Banco BV, antigo Banco Votorantim.
A nova frente contra Shimada foi aberta nesta sexta-feira (3), quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Exchange para desarticular uma organização criminosa especializada na lavagem de dinheiro proveniente do tráfico internacional de drogas. A operação cumpre 11 mandados de prisão temporária e 13 de busca e apreensão em São Paulo, Santos, Praia Grande e Santana de Parnaíba. A Justiça também determinou o sequestro de bens, valores e criptoativos dos investigados até o limite de R$ 10,4 bilhões.
Segundo a Polícia Federal, a análise preliminar da investigação identificou movimentações superiores a R$ 10 bilhões. Os investigados teriam usado uma estrutura com transferências ilícitas de criptoativos, transporte de dinheiro, inclusive em espécie, operações bancárias de alto valor, repasses entre pessoas físicas e jurídicas e outras atividades financeiras.
O que transforma Shimada em personagem-chave é a sobreposição de três frentes. A primeira é a sanção dos Estados Unidos, que o acusa de atuar para o PCC. A segunda é a Operação Exchange, que mira lavagem de dinheiro do tráfico internacional. A terceira é o caso VaideBet, em que empresas ligadas ao empresário aparecem na rota de recursos investigados no contrato de patrocínio entre a casa de apostas e o Corinthians.
Victor Shimada foi apontado pelos EUA como elo do PCC na Flórida
Victor Henrique de Oliveira Shimada foi incluído na lista de sanções do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros dos Estados Unidos, a OFAC, órgão ligado ao Departamento do Tesouro. Na lista oficial, ele aparece como Victor Henrique de Oliveira Shimada, brasileiro, nascido em 11 de fevereiro de 1985, em São Paulo, associado a Santos, no litoral paulista.
Foto Arquivo Policia Civil SP
O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos afirma que Shimada comandaria, ao lado de Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, o núcleo paulista de uma rede de lavagem de dinheiro do PCC. Segundo o órgão, a estrutura operava em dois polos principais: Flórida, nos Estados Unidos, e São Paulo, no Brasil.
De acordo com o Tesouro norte-americano, Shimada teria sido “elo-chave” entre operadores do PCC baseados na Flórida e traficantes internacionais. O governo dos EUA afirma que ele e sua organização lavaram mais de US$ 30 milhões em recursos ilícitos gerados em cidades norte-americanas, com uso de criptomoedas para enviar valores de volta ao Brasil em nome da facção.
A sanção foi aplicada com base em duas ordens executivas norte-americanas: uma voltada ao combate ao tráfico global de drogas e outra usada contra terrorismo e seus apoiadores. Com a medida, bens e interesses em bens de Shimada sob jurisdição dos EUA ficam bloqueados. Pessoas e empresas norte-americanas também ficam proibidas, em regra, de realizar transações com os sancionados.
Empresas de Victor Shimada também foram sancionadas
A OFAC também incluiu na lista Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, apontada pelos EUA como parente, associada próxima e secretária de Shimada. O Tesouro afirma que Stella teria atuado como intermediária na coleta de grandes quantias em dinheiro e prestado apoio logístico às operações de lavagem da rede.
Além dos dois brasileiros, quatro empresas foram sancionadas: Victory Trading Intermediação de Negócios, Cobranças e Tecnologia Ltda.; Pixwave Soluções de Pagamentos Ltda.; Wave Construções Inteligentes Ltda.; e Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda., sediada em Portugal.
A Victory Trading aparece na lista da OFAC com CNPJ 42.987.643/0001-10 e data de abertura em 4 de agosto de 2021. A Pixwave consta com CNPJ 50.147.517/0001-86 e abertura em 30 de março de 2023. A Wave Construções Inteligentes aparece com CNPJ 52.870.614/0001-28 e abertura em 13 de novembro de 2023. A Avenidas Flutuantes, empresa portuguesa, foi listada com o número fiscal PT516576887 e data de criação em 2 de setembro de 2021.
Segundo o Tesouro dos EUA, a Victory Trading e a Wave atuariam no setor de serviços financeiros, a Pixwave no setor de construção e a Avenidas Flutuantes no ramo de transporte e armazenagem próximo a Lisboa. Para o governo norte-americano, esse conjunto empresarial teria permitido a Shimada receber recursos ilícitos gerados nos Estados Unidos e lavar esses valores no Brasil em benefício do PCC.
Victory Trading é a empresa-chave da rede
A Victory Trading é a empresa que mais aparece nas frentes de apuração envolvendo Victor Shimada. Ela foi sancionada pelos Estados Unidos, aparece em investigações brasileiras sobre lavagem de dinheiro e também foi citada no caso VaideBet.
No comunicado oficial, o Tesouro dos EUA afirma que a Victory Trading foi usada para lavar dinheiro desviado de um clube de futebol brasileiro em um esquema de fraude publicitária. O documento norte-americano não cita o Corinthians nominalmente, mas a referência coincide com a apuração brasileira sobre o contrato firmado entre o clube paulista e a VaideBet.
A empresa também aparece no caso envolvendo o Banco BV. Segundo informações processuais tornadas públicas, a Victory Trading recebeu R$ 35 milhões por meio de 2.799 transferências Pix realizadas em um intervalo de cerca de 11 horas. A acusação sustenta que parte desses recursos foi direcionada à compra de criptoativos, mecanismo que teria servido para ocultar e dissimular a origem do dinheiro.
Shimada foi condenado em primeira instância por lavagem de dinheiro nesse caso. A defesa nega que ele tenha participado da fraude que originou o desvio dos valores e recorre da decisão. O processo segue em tramitação.
Victor Shimada e o caso VaideBet
No caso VaideBet, Victor Shimada aparece em uma ação penal que apura suspeitas de desvio e lavagem de dinheiro no contrato de patrocínio firmado entre a casa de apostas e o Corinthians. O acordo previa pagamento de R$ 360 milhões ao clube ao longo de três anos.
A investigação aponta que empresas ligadas ao empresário teriam participado de uma cadeia de movimentações financeiras usada para ocultar a origem de valores. Nesse fluxo, aparecem a Victory Trading e a Wave, ambas incluídas na lista de sanções dos Estados Unidos.
O caso brasileiro apura uma rota de recursos que teria passado por empresas intermediárias após a saída de valores ligados ao contrato. A cadeia investigada envolve Corinthians, Rede Social Media Design, Neoway, Wave Intermediações e UJ Football Talent, empresa citada em apurações sobre possíveis ligações com pessoas associadas ao PCC.
A UJ Football Talent foi mencionada na delação de Antonio Vinicius Lopes Gritzbach, empresário que colaborou com investigações sobre lavagem de dinheiro da facção e foi assassinado em novembro de 2024 no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos. A apuração brasileira, porém, exige cautela: até aqui, não há decisão judicial definitiva que declare Victor Shimada integrante do PCC.
O elo com o caso VaideBet é um dos pontos centrais da história. Nos Estados Unidos, o Tesouro acusa Shimada de lavar dinheiro para o PCC. No Brasil, ele aparece em um fluxo financeiro sob investigação envolvendo futebol, intermediação publicitária, bets, empresas de fachada e suspeitas de lavagem de dinheiro.
R$ 35 milhões do Banco BV e uso de criptoativos
Antes da sanção norte-americana, Shimada já havia se tornado alvo da Justiça Federal em uma apuração envolvendo o Banco BV, antigo Banco Votorantim. O caso trata de uma fraude que desviou recursos do banco por meio de milhares de transferências Pix feitas para contas ligadas à Victory Trading.
A acusação aponta que a empresa de Shimada concentrou a maior parte dos valores desviados. O dinheiro teria sido movimentado rapidamente e direcionado à compra de criptoativos, o que levou o Ministério Público Federal a sustentar a tese de lavagem de dinheiro.
A defesa de Shimada afirmou no processo que a passagem dos valores pela empresa não prova sua participação na fraude original. A tese defensiva sustenta que o empresário teria sido usado como “bode expiatório” por falhas no sistema do banco. Mesmo assim, ele foi condenado em primeira instância por lavagem de dinheiro. A condenação ainda não é definitiva.
O caso BV ajuda a explicar por que Shimada passou a ser observado como operador financeiro. A combinação entre alto volume de recursos, movimentações em sequência, contas empresariais e criptoativos aparece tanto nas apurações brasileiras quanto no comunicado do Tesouro norte-americano.
Ascensão patrimonial chamou atenção da investigação
Documentos de investigação também apontaram uma ascensão patrimonial considerada incompatível por investigadores. Em 2017, Shimada aparecia associado a veículos de baixo valor de mercado, como um Fiat Palio e um Ford Del Rey. Anos depois, a apuração identificou veículos de luxo, como Audi Q8 e Porsche Taycan.
Os investigadores também analisaram uma rotina de viagens compradas em cima da hora. Um dos bilhetes citados na apuração indicava saída de Guarulhos, escala na República Dominicana e destino ao Aeroporto Internacional Felipe Ángeles, no México, em setembro de 2024. A hipótese levantada era que ele poderia ter seguido para os Estados Unidos, já que a passagem teria sido comprada por uma agência de Orlando.
Esse conjunto de elementos reforçou a suspeita de que Shimada atuava em operações financeiras com dimensão internacional. A leitura dos investigadores brasileiros, porém, não deve ser confundida com a acusação formal feita pelos EUA de vínculo com o PCC.
Conexões com influenciador investigado
Outro ponto que aparece na apuração brasileira é a movimentação de valores entre a Victory Trading e empresas ligadas ao influenciador Bruno Alexssander Souza Silva, conhecido como Buzeira. Ele foi alvo de investigação sobre lavagem de dinheiro ligada ao tráfico internacional.
Relatórios financeiros apontaram repasses da Victory Trading para empresa ligada ao influenciador. O nome de Buzeira, no entanto, aparece como beneficiário em análises de movimentação bancária e não como investigado específico no inquérito do caso VaideBet.
A menção amplia o mapa de relações financeiras em torno de Shimada, que passa por empresas de tecnologia, pagamentos, futebol, bets, criptoativos e personagens associados a investigações sobre lavagem de dinheiro.
Stella Stefanie aparece como braço logístico
Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira foi sancionada pelos Estados Unidos junto com Victor Shimada. Segundo o Tesouro norte-americano, ela é parente, associada próxima e secretária do empresário.
O governo dos EUA afirma que Stella atuava como intermediária para coleta de grandes quantias em dinheiro vivo e prestava serviços logísticos considerados essenciais para as operações de lavagem conduzidas pela rede de Shimada.
Nas apurações brasileiras tornadas públicas, Stella não aparece com o mesmo protagonismo de Shimada. A acusação mais direta contra ela, até agora, está no documento do Tesouro norte-americano e na inclusão de seu nome na lista de sanções da OFAC.
Operação Exchange amplia cerco contra a rede
A Operação Exchange foi deflagrada dois dias depois da sanção dos Estados Unidos. A Polícia Federal afirma que a ação mira uma organização criminosa especializada em lavar dinheiro do tráfico internacional por meio de um sistema financeiro complexo.
Segundo a PF, os investigados usavam criptoativos, dinheiro em espécie, contas bancárias, empresas e repasses entre pessoas físicas e jurídicas para movimentar recursos. Mais de 50 policiais federais participam da operação.
A corporação afirma que os envolvidos poderão responder, em tese, por associação criminosa, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e outros delitos que eventualmente sejam identificados no curso das investigações.
A decisão judicial autorizou o bloqueio de até R$ 10,4 bilhões. O valor indica a dimensão atribuída pela investigação ao esquema de movimentação financeira.
Trump transformou PCC em alvo de sanções internacionais
A sanção contra Victor Shimada ocorre no contexto da ofensiva do governo Donald Trump contra facções brasileiras. Em maio, o Departamento de Estado dos EUA anunciou a designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras e Terroristas Globais Especialmente Designados.
Como mostrou a Fórum, a medida permitiu ao governo norte-americano bloquear uma rede brasileira acusada de lavar US$ 30 milhões com criptoativos entre Flórida e São Paulo. Shimada aparece como o principal alvo brasileiro dessa ofensiva.
Em outra reportagem, a Fórum mostrou que o uso do PCC como justificativa de segurança nacional também se insere em uma estratégia mais ampla de Trump para ampliar a pressão dos Estados Unidos sobre a América Latina sob o argumento do combate ao crime organizado transnacional.
Para Washington, o PCC passou a ser tratado como ameaça hemisférica. O Tesouro afirma que a facção usa o sistema financeiro norte-americano para lavar dinheiro do tráfico e gerar receita ilícita dentro dos Estados Unidos.
O que diz a defesa de Victor Shimada
Após a sanção dos Estados Unidos, a defesa de Victor Shimada afirmou que ainda não havia tido acesso aos documentos oficiais e aos elementos que fundamentaram a medida norte-americana.
Em nota, a defesa disse que Shimada nega envolvimento com organização criminosa e com a prática de lavagem de dinheiro. Também afirmou que a situação será analisada com cautela após o acesso aos documentos que embasaram a sanção.
No caso envolvendo o Banco BV, a defesa sustenta que não há prova de que Shimada tenha participado da fraude original que desviou os recursos. A condenação por lavagem de dinheiro é de primeira instância e ainda pode ser revista em recurso.
O que é fato e o que ainda está sob investigação
Há três fatos já documentados. Victor Shimada foi sancionado pelos Estados Unidos por suposto apoio financeiro e material ao PCC. Empresas ligadas a ele também foram incluídas na lista da OFAC. No Brasil, a Polícia Federal deflagrou a Operação Exchange para apurar uma rede de lavagem de dinheiro do tráfico internacional com movimentações superiores a R$ 10 bilhões.
Também há fatos sob investigação judicial no Brasil. Shimada é réu em apuração sobre o caso VaideBet e foi condenado em primeira instância por lavagem de dinheiro no caso envolvendo o Banco BV. Nenhuma dessas frentes, porém, representa condenação definitiva por integrar o PCC.
A distinção é essencial. A acusação formal de que Victor Shimada atuou em benefício do PCC vem do governo dos Estados Unidos. No Brasil, as apurações públicas conhecidas até agora colocam o empresário em fluxos financeiros suspeitos, em casos de lavagem de dinheiro, criptoativos, bets e futebol, mas não há decisão judicial definitiva que o declare integrante da facção.
É justamente esse cruzamento que torna Victor Shimada um dos personagens mais relevantes da ofensiva atual contra o crime financeiro: um empresário de pagamentos e criptoativos que aparece ao mesmo tempo na lista de sanções de Trump, na investigação do contrato VaideBet-Corinthians, em um caso de fraude bancária milionária e em uma operação da PF com bloqueio bilionário.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/victor-shimada-vaidebet-pcc/

