Brasileiros compram sonho na Itália e acabam com ruínas e risco de dívida

Fachada e interior de imóvel em ruínas, com a reforma parada, em Fabbriche di Vergemoli. Foto: Janaina Cesar/UOL

A promessa parecia perfeita: comprar uma casa barata em vilarejos da Toscana, reformada com créditos do governo italiano e entregue sem dor de cabeça. Para brasileiros que investiram na Sonho.it, empresa criada por um brasileiro, o sonho de morar na Itália virou disputa judicial, ruínas abandonadas e risco de dívida com o próprio Estado italiano.

Segundo o UOL, o negócio era conduzido por Douglas Roque, brasileiro, e Alberto Da Lio, italiano. Durante a pandemia, eles anunciaram imóveis históricos em vilarejos italianos por preços baixos, com reformas bancadas pelo programa Superbonus 110, incentivo criado pelo governo da Itália para obras de eficiência energética e proteção antissísmica.

A investigação da Procuradoria de Lucca apura se a Sonho.it e empresas associadas cometeram fraude contra o Estado, fraude contra brasileiros e falsidade ideológica. Segundo a apuração italiana citada pela reportagem, mais de 10 milhões de euros em créditos fiscais teriam sido obtidos de forma irregular entre 2021 e 2025. Mais de 4 milhões de euros foram bloqueados.

Onze compradores afirmam ter sido lesados. A reportagem visitou imóveis na Toscana e encontrou casas ainda em ruínas, com obras paradas, andaimes, entulho e placas antigas da Sonho.it. Um dos compradores relatou ter pago dezenas de milhares de euros por um imóvel que, anos depois, seguia sem reforma.

Itália
Placa da Mole Aquae em imóvel de Fabbriche di Vergemol; a empresa era responsável pelas obras que deveriam ser realizadas em casas compradas por brasileiros. Foto: Janaina Cesar/UOL

O ponto central do modelo era a procuração. Compradores davam poderes a Douglas para agir em seus nomes na Itália, inclusive junto à Receita italiana. Com isso, créditos fiscais eram solicitados no chamado “cassetto fiscale”, a conta fiscal das vítimas, e depois cedidos a terceiros. O risco, agora, é que os próprios compradores sejam cobrados pelo governo italiano pelos créditos gerados em seus nomes.

Douglas e Alberto se recusaram a comentar as acusações diretamente durante uma entrevista na Itália, alegando que a investigação está sob sigilo. Depois, por meio de assessoria, as empresas Sonho.it e Mole Aquae Architettura afirmaram que a interrupção das obras ocorreu por causa de uma “crise sistêmica” no setor e disseram estar à disposição das autoridades.

O caso expõe o lado sombrio da febre das casas baratas na Itália. O que era vendido como oportunidade de transformar “pedras em diamantes” terminou, para brasileiros, como uma coleção de pedras abandonadas, suspeitas de fraude e uma conta que pode cair justamente sobre quem acreditou no sonho.

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/brasileiros-compram-sonho-na-italia-e-acabam-com-ruinas-e-risco-de-divida/