O Republicanos, partido historicamente ligado à Igreja Universal do Reino de Deus e ao bispo Edir Macedo, deve caminhar para apoiar a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República, mesmo depois da crise provocada pela Operação Miragem, que mirou o Banco Digimais.
Segundo a coluna de Malu Gaspar, no jornal O Globo, a legenda ainda não formalizou a decisão, mas a tendência interna é de aproximação com o senador. O movimento ocorre no momento em que o Republicanos tenta separar sua estratégia eleitoral do desgaste envolvendo o Digimais, banco ligado a Edir Macedo, alvo de investigação da Polícia Federal.
Republicanos tenta conter desgaste do Digimais
A Operação Miragem foi deflagrada pela Polícia Federal em 23 de junho para apurar suspeitas de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional. De acordo com a Polícia Federal, a investigação apura indícios de manipulação de demonstrativos contábeis e registros regulatórios para ocultar a real situação financeira da instituição.
A ofensiva atingiu politicamente o Republicanos porque o partido tem relação histórica com a Universal. Marcos Pereira, presidente nacional da legenda, também é bispo licenciado da igreja. Ainda assim, aliados da cúpula partidária tentam sustentar que o Republicanos tem hoje vida própria e não deve ser reduzido à estrutura religiosa de Edir Macedo.
A crise do Digimais se soma a outros desgastes que cercam a pré-campanha de Flávio Bolsonaro. A Fórum mostrou que Daniella Marques Consentino integrou o conselho de administração do Banco Digimais antes de ganhar espaço como coordenadora econômica do senador.
Flávio Bolsonaro vê Daniella Marques como ponte com o Republicanos
Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal no governo Jair Bolsonaro, filiou-se ao Republicanos em abril e passou a atuar na pré-campanha de Flávio Bolsonaro. Nos bastidores, ela é tratada como uma das opções para a vaga de vice na chapa do PL.
A escolha, porém, ainda enfrenta resistência dentro do próprio Republicanos. Integrantes da legenda avaliam que Daniella é recém-filiada e que sua indicação direta por Flávio poderia causar desconforto entre quadros mais antigos do partido. A etapa política que falta é justamente a costura formal com a direção nacional da sigla, comandada por Marcos Pereira.
O Republicanos também negocia compensações nos estados. A legenda quer amarrar palanques regionais e apoios do PL a candidaturas próprias antes de sacramentar a aliança presidencial. A conta envolve, sobretudo, disputas estaduais em que o partido pretende preservar espaço e evitar que a adesão a Flávio crie fissuras locais.
Aliança com Flávio muda rota defendida por Marcos Pereira
A aproximação com Flávio Bolsonaro representa uma inflexão em relação ao discurso anterior de Marcos Pereira. Em janeiro, o presidente do Republicanos havia rifado a pré-candidatura de Flávio e dito que Tarcísio de Freitas era sua escolha para a disputa presidencial.
Com Jair Bolsonaro inelegível e Tarcísio de Freitas concentrado na reeleição ao governo de São Paulo, a cúpula do Republicanos passou a recalcular o custo de ficar neutra. A avaliação de setores da legenda é que o apoio a Flávio pode render palanques relevantes em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, os três maiores colégios eleitorais do país.
O problema é que Flávio chega à negociação carregando crises sucessivas. A Fórum já mostrou que a relação do senador com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, abriu uma sequência de desgastes na direita, incluindo a revelação de que Flávio Bolsonaro teria negociado R$ 134 milhões com Vorcaro, segundo reportagem do Intercept.
Republicanos pode apoiar Flávio e liberar dissidências pró-Lula
Apesar da tendência nacional de apoio a Flávio Bolsonaro, o Republicanos ainda avalia liberar diretórios estaduais em locais onde a sigla mantém alianças com forças próximas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A solução permitiria ao partido aderir à chapa do PL sem romper acordos regionais já construídos.
Essa engenharia é relevante em estados do Nordeste, onde lideranças do Republicanos têm vínculos com palanques governistas ou com aliados do PT. A decisão final, portanto, deve combinar apoio nacional a Flávio, negociação por vice ou participação programática e liberdade local em redutos onde a direita bolsonarista tem menor tração.
Para Flávio Bolsonaro, o apoio do Republicanos seria uma tentativa de dar musculatura partidária a uma pré-campanha ainda marcada por isolamento no centro e por conflitos no próprio campo bolsonarista. Para o Republicanos, a aposta significa assumir o risco de colar sua imagem à candidatura do filho de Jair Bolsonaro em meio ao caso Digimais, ao escândalo do Banco Master e à disputa interna que expôs fissuras entre Flávio e Michelle Bolsonaro.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/republicanos-flavio-bolsonaro-apoio/

