O fator imutável que tem desesperado Flávio Bolsonaro nos bastidores

O relógio corre implacável. Faltando menos de três meses para a eleição presidencial, a atmosfera nos bastidores da campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) azedou de vez. Não se trata de falta de engajamento nas redes sociais ou de palanques esvaziados. O motivo do pânico que tomou conta do comitê do senador de extrema direita é matemático, frio e, até o momento, completamente imutável: o tamanho da sua rejeição popular.

Há uma regra de ouro na ciência política tradicional de que ninguém consegue escapar: o candidato que ostenta uma rejeição consolidada acima dos 50%, sobretudo quando ela supera numericamente a do principal adversário, está virtualmente derrotado. E é exatamente diante desse teto de vidro que o filho 01 do ex-presidente radical se vê encurralado.

As mais recentes pesquisas de institutos de grande peso, como Datafolha e AtlasIntel, acenderam o sinal vermelho na campanha do PL. Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) patina em uma taxa de rejeição considerada estável dentro de seu teto histórico, visto o antipetismo patológico de parte da população, variando entre 46% (Datafolha) e 48% (AtlasIntel), as marcas de Flávio explodiram. O senador pontuou 48% de rejeição no Datafolha e atingiu a alarmante marca de 53% na AtlasIntel. Para analistas políticos de bastidores, esses números representam a linha da morte eleitoral.

Estratégia do improviso e as dancinhas no vazio

Diante da paralisia dos números, a reação de Flávio Bolsonaro tem sido o desespero coreografado. Nas últimas semanas, o pré-candidato adotou uma postura que mistura o deboche com a tentativa forçada de parecer “popular2. Gravou vídeos fazendo dancinhas de funk para o TikTok, usou a eliminação da seleção brasileira na Copa do Mundo para fazer piadas que misturavam futebol e ataques ideológicos ao PT, e chegou ao ponto de se inscrever para uma audiência pública nos EUA, no Escritório do Representante de Comércio, sob o pretexto bizarro de “negociar contra o tarifaço” norte-americano que ele mesmo implorou e pediu junto com o irmão e outros correligionários.

A tática de “atirar para todos os lados” e inflamar a militância com discursos ultrajantes, porém, surtiu o efeito inverso. Interlocutores da cúpula do partido admitem que o eleitorado moderado, aquele que define o pleito, enxerga essas atitudes como falta de preparo e deboche diante de problemas sérios. O diagnóstico interno da legenda é claro: a rejeição de Lula já bateu no teto e não vai crescer com ataques rasteiros. Flávio deveria focar na economia e outros assuntos, parando de falar mal do atual governante, mas a ansiedade tem falado mais alto que o pragmatismo.

Raízes de uma rejeição explosiva

A montanha que o senador precisa escalar não foi construída do dia para a noite. A rejeição a seu nome carrega, evidentemente, a herança natural do forte sentimento antibolsonarista que divide o país. Contudo, Flávio conseguiu acumular desgastes próprios que ampliaram esse abismo.

O principal fator apontado por estrategistas é a percepção de suas falas e posicionamentos que o colocaram como um “traidor da pátria”, como dizem nas redes. Em diversas ocasiões, o parlamentar colocou interesses familiares, dinâmicas de poder e alinhamentos geopolíticos subservientes a interesses estrangeiros acima das pautas de soberania nacional, o que alienou fatias importantes de eleitores nacionalistas moderados.

Soma-se a isso um discurso persistentemente classificado de “antipovo”. Durante o mandato no Senado e na pré-campanha, as manifestações públicas do parlamentar e suas propostas econômicas focaram de maneira quase exclusiva na blindagem e no favorecimento das camadas mais ricas da população, ignorando a agenda de amparo social e o sufoco da classe trabalhadora. A insistência em pautas que beneficiam o topo da pirâmide financeira consolidou a imagem de um candidato distante da realidade cotidiana do brasileiro comum.

Com o tempo se esgotando e as curvas das pesquisas congeladas em patamares desfavoráveis, o quartel-general de Flávio assiste ao derretimento de uma candidatura que pretendia herdar o espólio político do pai, mas esbarrou no maior pesadelo de qualquer político: o “não” categórico de maioria expressiva do eleitorado.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/fator-imutavel-desesperado-flavio-bolsonaro/