O relógio marcava um atraso de dez minutos no início dos trabalhos promovidos pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês), nesta terça-feira (7). O motivo do contratempo foi a sobreposição com outra mesa que debatia taxas a países que importam produtos frutos de trabalho escravo. Mas quando a palavra finalmente foi concedida ao senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o que se viu nos escassos cinco minutos seguintes foi um misto de desespero coreografado, subserviência explícita e um direcionamento milimetricamente calculado para inflamar sua militância digital e tentar conter o derretimento de sua candidatura.
Fontes diplomáticas e de bastidores que acompanharam a audiência na capital norte-americana confirmaram a que a “fala-relâmpago” do parlamentar careceu completamente de dados técnicos, balizamentos econômicos ou defesa da soberania nacional. Em vez disso, Flávio focou em um apelo quase humilhante ao governo dos EUA para que adie o tarifaço contra os produtos brasileiros, sob o argumento explícito de que a medida enterra suas chances eleitorais contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em outubro.
“Punir aqueles que já arcaram com as consequências seria o pior momento possível para agir. Respeitosamente, peço a este país: não imponha tarifas ao Brasil. Preserve o sucesso desta parceria, cancele-a e vamos negociar”, implorou o senador, em um tom classificado por observadores internacionais como de “súplica e humilhação”.
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A apuração da Fórum aponta que a viagem internacional e a inscrição bizarra nesta audiência pública, para tentar reverter uma taxação norte-americana que o próprio clã Bolsonaro e seus correligionários haviam endossado anteriormente, é o reflexo do pânico que tomou conta do comitê de campanha do PL, e foi criticada por muita gente do seu campo.
As mais recentes pesquisas de institutos de grande peso, como Datafolha e AtlasIntel, acenderam o sinal vermelho na legenda. O motivo é puramente matemático e considerado intransponível pela ciência política tradicional: Flávio bateu no teto da rejeição popular. Enquanto Lula oscila estavelmente entre 46% (Datafolha) e 48% (AtlasIntel), o filho 01 do ex-presidente explodiu na reprovação do eleitorado, pontuando 48% no Datafolha e atingindo a alarmante marca de 53% na AtlasIntel. Com uma rejeição consolidada acima dos 50%, analistas apontam que ele se encontra na “linha da morte eleitoral”.
Para o eleitorado moderado, as recentes aparições do senador, que incluíram dancinhas de funk no TikTok e piadas ideológicas com a eliminação da seleção brasileira na Copa do Mundo, soaram como deboche e falta de preparo. Diante do fracasso dessas táticas performáticas, Flávio decidiu “atirar para todos os lados” e usou o púlpito da agência norte-americana para mirar em três pilares estratégicos de sua narrativa.
Os 3 pilares “mirados” na fala-relâmpago
Mesmo sob o manto do improviso emocional e do desespero eleitoral, o discurso do senador não foi aleatório. Fontes internas revelaram que a estratégia consistia em validar o dossiê de 86 páginas enviado previamente ao governo Trump e fixar três bandeiras cruciais para a sobrevivência de sua narrativa em terras brasileiras:
- A bolha extremista nas redes sociais e Judiciário: Flávio dedicou parte substancial de seu curto tempo para denunciar o que chama de “censura” do Supremo Tribunal Federal (STF) em postagens digitais, uma bobagem descabida. Sem apresentar provas técnicas, o senador tentou amarrar as decisões da Suprema Corte a uma suposta influência direta do governo Lula, buscando internacionalizar a narrativa de perseguição política. O ápice do constrangimento ocorreu quando o pré-candidato pediu sanções individuais de Washington a autoridades brasileiras, citando nominalmente a aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes, caso o objetivo norte-americano fosse “pressionar o Brasil”.
- O papo-furado da corrupção: O segundo pilar mirou um assunto que já virou piada. Flávio ressuscitou o fantasma do “Mensalão” e atacou diretamente a atual gestão ao citar um suposto envolvimento do filho do presidente Lula em fraudes relacionadas a descontos de beneficiários do INSS. O senador incluiu ainda o Banco Master no balaio de denúncias, tentando inflamar o antipetismo patológico de sua base e criar um fato político internacional que gerasse cortes para suas redes sociais. O problema é que, há anos, a família Bolsonaro é o principal alvo de investigação e de denúncias sobre corrupção no Brasil. Na prática, uma total hipocrisia e cara de pau.
- A paternidade do Pix: O terceiro ponto foi puramente econômico-eleitoral. Em uma tentativa de angariar o voto do cidadão comum, estrato em que sua pré-campanha amarga forte rejeição devido a propostas vistas como antipovo e focadas na blindagem das elites, Flávio fez questão de destacar que o sistema de pagamentos instantâneos Pix foi implementado integralmente durante a administração de seu pai, Jair Bolsonaro (PL). Diante dos técnicos do USTR, ele afirmou que o Pix funciona perfeitamente, não representa um problema de conformidade internacional e serve como um complemento viável ao sistema de pagamentos dos próprios EUA.
Efeito rebote: subserviência que amplia o isolamento
Se a intenção do senador era parecer um estadista negociando os interesses do país, o tiro saiu pela culatra. Ao afirmar em solo norte-americano que o cenário político do país “mudará completamente em 90 dias” com as eleições e pedir que os EUA esperem a troca de comando porque o Brasil “tem uma grande chance de ter um presidente que não seja antiamericano”, Flávio Bolsonaro cruzou uma linha perigosa.
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Interlocutores da cúpula do próprio PL admitem, reservadamente, que a atitude do parlamentar reforça a percepção pública de que ele atua como um “traidor da pátria”. A postura de colocar os interesses eleitorais de sua família e o alinhamento geopolítico subserviente acima da soberania econômica nacional tende a afastar ainda mais o eleitorado nacionalista moderado, aquele que efetivamente define o pleito.
Ao tentar convencer o governo dos EUA de que o tarifaço é um “erro de timing” feito apenas para beneficiar Lula, Flávio demonstrou que sua ansiedade tem falado consideravelmente mais alto que o pragmatismo político. O diagnóstico de analistas de bastidores é implacável: ao implorar de joelhos pelo adiamento de sanções em troca de promessas de fidelidade futura a Donald Trump, o senador não salvou sua pré-campanha; apenas carimbou, em nível internacional, o desespero de uma candidatura encurralada pelo teto de vidro de sua própria rejeição.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/entenda-fala-relampago-flavio-bolsonaro-3-pilares/

