Deputado bolsonarista zomba de alerta do Itamaraty sobre ação militar dos EUA no Brasil: “Tá com medinho?”

O deputado federal Evair de Melo (Republicanos-ES) ridicularizou o alerta do Ministério das Relações Exteriores sobre os riscos de uma eventual ação militar dos Estados Unidos contra o Brasil após a decisão de Washington de enquadrar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.

A manifestação do parlamentar bolsonarista ocorreu nesta terça-feira (7), durante uma conversa captada pelos canais oficiais da Câmara dos Deputados. Ao ouvir uma referência ao ofício enviado pelo chanceler Mauro Vieira ao Legislativo, Evair reagiu com uma pergunta em tom de deboche: “Tá com medinho?”

A fala do deputado aconteceu no mesmo dia em que o Departamento de Estado dos Estados Unidos classificou como “absurda” a avaliação apresentada pelo governo brasileiro sobre os possíveis impactos da medida norte-americana, aumentando a tensão diplomática entre Brasília e Washington.

Deputado ironiza alerta do Itamaraty e ataca Mauro Vieira

O comentário de Evair não foi feito durante uma fala oficial no plenário, mas acabou registrado pelas transmissões institucionais da Câmara. O parlamentar conversava com os deputados Alberto Fraga (PL-DF) e Coronel Chrisóstomo (PL-RO) antes de uma coletiva de imprensa.

Segundo a conversa registrada, Fraga resumiu o conteúdo do documento enviado pelo Itamaraty afirmando que Mauro Vieira teria apontado como principal risco da decisão americana uma possível “invasão militar no Brasil”. Ao repetir a informação, Evair respondeu com ironia: “Tá com medinho?”.

Na entrevista coletiva posterior, o deputado ampliou as críticas e classificou a manifestação do Itamaraty como “precária e frágil”. Também afirmou que Mauro Vieira seria “muitas vezes uma peça meramente decorativa no Itamaraty”, numa tentativa de deslegitimar a atuação do ministro e atribuir a condução da política externa brasileira ao assessor especial da presidência para Assuntos Internacionais, Celso Amorim.

A crítica de Evair ocorreu após ele próprio ter apresentado um requerimento de informações ao governo federal sobre a posição brasileira diante da decisão dos Estados Unidos. O parlamentar afirmou que havia solicitado apenas “informações objetivas” e acusou o Itamaraty de dar uma resposta política ao tema.

A argumentação, porém, ignora que analisar riscos diplomáticos, jurídicos e de soberania nacional faz parte das atribuições do Ministério das Relações Exteriores, especialmente diante de uma decisão estrangeira com possíveis efeitos sobre cidadãos, empresas e instituições brasileiras.

Itamaraty aponta riscos da decisão unilateral dos EUA

O alerta que provocou a reação do deputado foi apresentado por Mauro Vieira em resposta ao Requerimento de Informação nº 1.012/2026, de autoria do próprio Evair de Melo.

No documento, o chanceler afirmou que a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas pelos Estados Unidos poderia abrir espaço para medidas unilaterais com impacto sobre o Brasil.

Segundo Vieira, a legislação norte-americana permite a adoção de medidas administrativas e judiciais de caráter extraterritorial, com possíveis consequências nas áreas financeira, migratória e penal.

O ministro destacou ainda que a decisão poderia, em tese, ser utilizada como justificativa para ações de força contra o território brasileiro.

“O enquadramento como organização criminosa transnacional já permite a cooperação internacional necessária no combate ao crime organizado”, argumentou o Itamaraty, apontando que a classificação como organização terrorista amplia riscos sem necessariamente trazer benefícios concretos para a cooperação entre os países.

A posição brasileira não questiona a gravidade da atuação das facções criminosas, mas critica o instrumento escolhido por Washington e suas consequências para a soberania nacional.

EUA rejeitam alerta brasileiro e ampliam pressão diplomática

Em resposta ao posicionamento do Itamaraty, o Departamento de Estado americano classificou como “absurda” a possibilidade de uma ação militar contra o Brasil e afirmou que os Estados Unidos estariam agindo dentro de suas próprias prerrogativas para combater grupos considerados “narcoterroristas”.

Washington também afirmou que as facções brasileiras teriam atuação em território americano e declarou que o país defenderia sua população contra esses grupos.

Além de negar a possibilidade de intervenção, a manifestação do governo americano atacou a própria preocupação apresentada pelo Brasil, ao afirmar que “alegações vagas de intervenção” poderiam servir como justificativa para favorecer grupos criminosos.

A resposta elevou o tom da disputa diplomática ao transformar uma advertência institucional do governo brasileiro sobre soberania em uma acusação política contra quem questiona a medida.

Classificação de PCC e CV como terroristas abriu crise entre Brasil e EUA

A tensão começou após o Departamento de Estado americano anunciar, em maio, a classificação do PCC e do Comando Vermelho como “Terroristas Globais Especialmente Designados” (SDGT, na sigla em inglês). A designação como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO) entrou em vigor em junho.

A decisão foi assinada pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, sob o argumento de que as facções brasileiras estariam entre os grupos criminosos mais violentos do país e teriam ampliado sua atuação internacional.

O governo brasileiro, por outro lado, sustenta que o combate ao crime organizado deve ocorrer por meio da cooperação entre Estados e dentro dos marcos jurídicos internacionais, sem abrir brechas para ações unilaterais com impacto sobre a soberania nacional.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/deputado-ironiza-acao-militar-eua/