Aluguel no Rio dispara e pressiona moradores

Praia do Leblon, na zona sul do Rio de Janeiro. Foto: Reprodução

O aumento dos aluguéis no Rio de Janeiro tem levado moradores a deixar bairros tradicionais da zona sul, migrar para regiões menos valorizadas ou até sair da cidade. A pressão ocorre em meio à valorização de imóveis em áreas cobiçadas por turistas, investidores estrangeiros e locações de curta temporada.

O ator e servidor público Rodrigo Gicovate, 37, deixou Copacabana há dois anos e se mudou para Niterói, do outro lado da Baía de Guanabara. Ele chegou ao Rio em 2019, voltou à cidade em 2022 após um período em Campos dos Goytacazes e passou a dividir apartamento com três pessoas para reduzir custos.

“Estava muito difícil pagar aluguel, contas e todo o custo de vida. Não era só a moradia. Mercado, transporte, tudo foi ficando mais caro”, afirmou.

Rodrigo pagava cerca de R$ 1.800 por mês para viver em Copacabana e disse que não encontrou alternativas acessíveis quando tentou procurar quitinetes no Centro do Rio. “Buscava quitinetes no centro do Rio e não achava nada por menos de R$ 2.000 ou R$ 2.500. Quem recebe um salário médio no Brasil consegue pagar isso?”

A decisão de sair também teve relação com segurança, depois de uma tentativa de assalto perto de casa. Hoje, ele mora sozinho no bairro Ponta D’Areia, em Niterói, e paga cerca de R$ 2.200 de aluguel em um apartamento menor.

Como trabalha na cidade, reduziu o tempo de deslocamento, comprou uma bicicleta elétrica e passou a chegar ao trabalho em cinco minutos. “Boa parte da minha renda continua indo para o aluguel. Fico assustado ao pensar no futuro”, disse.

O valor médio do metro quadrado para locação no Rio passou de R$ 36,1, em maio de 2023, para R$ 51,6 em maio de 2026, alta de 42,7%, segundo o QuintoAndar. No mesmo período, a inflação foi de 14,9%. Entre apartamentos de um quarto, o aumento chegou a 51,4% nos últimos três anos.

Apartamentos compactos em Ipanema. Foto: Divulgação

Levantamento do Grupo OLX aponta uma valorização ainda mais forte em bairros da zona sul entre 2021 e 2026. Em Copacabana, o metro quadrado médio do aluguel subiu de R$ 35 para R$ 71, avanço de 101,8%. Em Ipanema, passou de R$ 55 para R$ 115, alta de 108,3%. No Leblon, foi de R$ 58 para R$ 119, crescimento de 105,7%.

A busca por alternativas também atingiu moradores que permaneceram no Rio, mas trocaram o eixo mais valorizado. O gerente de contas Matheus Borges Assis, 31, saiu de Copacabana para Vila Isabel, na zona norte, há cerca de dois anos e meio.

Ele diz que paga valor semelhante ao que encontraria em áreas mais disputadas, mas em um apartamento com varanda e garagem. “A zona sul tem muitos turistas e pessoas de fora. Em Vila Isabel e na Tijuca, isso é bem menos perceptível.”

A pressão coincide com a maior visibilidade internacional da cidade. Dados da Embratur, do Ministério do Turismo e da Polícia Federal indicam que o Brasil recebeu mais de 2,6 milhões de turistas estrangeiros no primeiro bimestre de 2026, e o Rio foi o principal destino de entrada no país no primeiro trimestre, com 884,5 mil chegadas.

O Itamaraty emitiu 479 vistos de nômade digital em 2024, 508 em 2025 e 117 apenas nos três primeiros meses de 2026. Especialistas apontam que a procura por imóveis de curta e média duração reduz a oferta para contratos tradicionais em áreas turísticas.

Um levantamento da imobiliária Patrimóvel mostra que estrangeiros responderam por 28% das compras de apartamentos tipo estúdio feitas entre novembro de 2025 e abril de 2026 em Copacabana, Ipanema e Leblon, com americanos à frente, seguidos por compradores da Argentina, Espanha, Romênia e Suíça.

O economista Jorge Ferreira dos Santos Filho, professor da ESPM, afirma que a valorização reúne turismo internacional, câmbio favorável para quem recebe em dólar ou euro e rentabilidade dos aluguéis de curta temporada. Para ele, a saída não seria proibir esse mercado, mas regular o uso territorial.

“O limite está no ponto em que a valorização deixa de ampliar o bem-estar urbano e passa a expulsar o morador permanente”, disse.

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/aluguel-no-rio-dispara-moradores-zona-sul/