O “sotaque da Globo” e o Brasil fictício das novelas de Benedito Ruy Barbosa

Benedito Ruy Barbosa, morto aos 95 anos na terça-feira (7)

Em tempos de reinvenção do Nordeste, é preciso cuidado ao homenagear o autor de novelas globais Benedito Ruy Barbosa, que morreu ontem, aos 95 anos.

A Rede Globo, que inclusive nos arrancou boas risadas ao homenagear Ruy Barbosa com uma novela de outro autor, quer fazer com que ele seja lembrado como o gênio que sabia retratar o Nordeste.

Hoje não, dona Globo.

Não faço linchamentos póstumos – como costumam fazer com as mulheres – mas, francamente: paleta de cores amarelada, sol ardente, cactos e um sotaque nordestino caricato e quase burlesco resumem o Nordeste para Benedito e para a própria Globo?

Não é só o “sotaque nordestino” que é padrão – como se todo nordestino falasse do mesmo jeito, quando, mesmo dentro da Bahia, há diversidade de sotaques: o Nordeste de modo geral é retratado como um lugar de miséria que abriga mortos de fome tupiniquins, um insulto ao povo nordestino.

Mas o que esperar de uma emissora que retrata o Nordeste de modo caricatural há décadas, como se tudo aqui fosse sertão, e como se o sertão fosse só pobreza?

Só poderia mesmo homenagear, ainda que com a novela errada, Benedito Ruy Barbosa como o autor das novelas nordestinas.

E o que esperar desse autor, que já disse que “odeia história de bicha”?

Velhos preconceitos e atualização da xenofobia, com uma estética duvidosa e um sotaque ridículo, que surge de uma construção de personagens medíocre, e de um processo criativo que ignora completamente a diversidade e a riqueza cultural do Nordeste, pra onde eles sempre querem vir nas férias, mas cujos nativos consideram inferiores, como quase todo sudestino.

Ninguém fez uma pesquisa de campo pra saber que o sotaque do Ceará é diferente do baiano, ou eles simplesmente não se importam?

Eu apostaria na segunda opção.

E esse preconceito não aparece apenas nas novelas de Benedito passadas no Nordeste: em “Cabocla”, que eu inocentemente adorava quando era criança, o sotaque reproduzido pelos atores com seus erres puxados, uma mistura de sotaque mineiro caipira com interior de São Paulo, simplesmente não existe em lugar nenhum.

E Terra Nostra, que mistura português e um italiano totalmente duvidoso na cara de pau? O resultado é hilário (não satisfeito, repete a pérola em outra novela, “Esperança”).

Sinhá Moça, uma reprodução escravocrata, diferencia os sotaques dos escravos e de seus algozes (?), tornando clara a distinção pretendida entre ambos, e não se sabe qual dos dois é mais medonho.

Já em “Velho Chico”, gravada às margens do Rio São Francisco, na Bahia, nada do que é retratado pelo autor é realmente observável no território. A Bahia é dividida em 27 territórios diversos e ricos, isso só na Bahia.

Só o Rio é real, e olhe lá. Personagens previsíveis, roteiros cobertos de preconceitos, trilhas sonoras que em nada honram os gênios que o Nordeste produziu e produz.

“Eu não sou do lugar dos esquecidos, não sou da nação dos condenados”, disse Belchior, que Benedito provavelmente nunca ouviu e, se ouviu, não entendeu.

Retratar o Nordeste como pura miséria, além de xenofóbico, revela um trabalho pouco comprometido com a verossimilhança e, ao fim e ao cabo, com o público, mas quem assiste Globo merece.

Eu também, Belchior. Eu também “conheço meu lugar”.

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-sotaque-da-globo-e-o-brasil-ficticio-das-novelas-de-benedito-ruy-barbosa/