Daniel Vorcaro, dono do liquidado Banco Master, disse a Martha Graeff, em mensagem enviada em 13 de agosto de 2024, que o Itaú teria contratado um jornalista para “bater” no Master e nela. Na mesma conversa, à qual a Fórum teve acesso, Vorcaro fala em uma “pessoa contratada pra ficar municiando os jornais”.
A Fórum preserva o nome do jornalista citado porque o material analisado sustenta a declaração de Vorcaro, mas não comprova contrato, pagamento ou atuação efetiva do profissional a mando do Itaú. No mesmo trecho, o banqueiro diferencia o que chama de informação “certeza”, atribuída por ele a “Loures”, de uma suposição sobre a agência que operacionalizaria a ofensiva.
A mensagem acrescenta uma nova camada à guerra de bastidores envolvendo o Banco Master, o Itaú, o BTG Pactual e grandes grupos de comunicação. Como revelou a Fórum, Vorcaro já havia narrado conversas com donos de “jornais e TV” e citado uma pessoa “municiando” a disputa midiática com André Esteves, do BTG Pactual.
Mensagem de Daniel Vorcaro a Martha Graeff cita jornalista supostamente contratado pelo Itaú, “pessoa contratada” para municiar jornais e agência para enviar “coisas ruins”. A Fórum preserva nomes sem comprovação documental.
Vorcaro cita Itaú e “pessoa contratada” para municiar jornais
A conversa começa às 17h29, quando Martha Graeff pergunta a Vorcaro: “Como foi com a jornalista?”. Pouco depois, ele responde que “com as jornalistas foi péssimo” e afirma que elas estariam “com sangue no olho”. Em seguida, diz que a conversa “com os diretores do jornal depois foi bom”.
“Tem uma pessoa contratada pra ficar municiando os jornais”, escreveu Vorcaro.
Às 17h36, ele aprofunda a acusação. O nome do jornalista foi suprimido pela reportagem.
“Disse que [jornalista] está contratado pelo Itaú pra bater no Banco Master e vc. E que provavelmente a agência que operacionaliza isso eh a [agência]. A info de que ele foi contratado pelo Itaú pra esse fim é certeza, segundo Loures. A info da agência que operacionaliza isso ele supõe”, diz a mensagem.
Na sequência, Vorcaro afirma: “Olha o que acabei de receber” e, logo depois, “A confirmação”. Martha reage: “Nãoooooooo” e pergunta: “Que te falou isso amor????”. Minutos depois, escreve: “Isso é muito sério” e “Não tinha cabimento todos aquele ataques consecutivos”.
Vorcaro então responde: “Tem uma conspiração ja atestada” e acrescenta: “Contrataram uma agencia so pra ficar mandando coisas ruins”. O material analisado pela Fórum, no entanto, não traz documento contratual, comprovante de pagamento ou confirmação independente de que o Itaú tenha contratado o jornalista ou a agência citados na conversa.
Links contra o Itaú aparecem na conversa meses depois
Em nova mensagem, Vorcaro afirma que havia uma “conspiração” e fala em agência contratada para “mandar coisas ruins”.
Os arquivos mostram que a guerra de versões entre bancos e banqueiros seguiu presente nas trocas de mensagens entre Vorcaro e Martha nos meses seguintes. Em 3 de outubro de 2024, o banqueiro enviou a ela um link do Portal LeoDias sobre a “primeira-dama do Itaú” e a tentativa de transformar a vida de Daniela Setubal em assunto de celebridades.
No dia seguinte, 4 de outubro, Vorcaro encaminhou o texto de Lauro Jardim, em O Globo, sobre a decisão da Fitch Ratings de elevar em dois graus a classificação nacional de longo prazo do Banco Master, de “BBB(bra)” para “A-(bra)”, com perspectiva estável. O trecho copiado na conversa afirmava que a melhora refletia “expansão estratégica e aquisições”, além de “níveis de liquidez e lucratividade consistentes”.
Em 7 de dezembro, às 23h51, Vorcaro enviou três links de uma só vez: uma publicação no Instagram, uma matéria do Diário do Centro do Mundo com o título “Crise interna no Itaú aponta indícios de crimes em gestão” e o texto “O método Itaú”, publicado por O Bastidor. Martha respondeu: “Eitaaaaaa” e, em seguida: “Essa é a melhor série pra assistir”.
A sequência não prova coordenação entre as publicações. Mas revela que Vorcaro acompanhava e compartilhava conteúdos críticos ao Itaú ao mesmo tempo em que, meses antes, dizia a Martha que havia uma estrutura contratada para abastecer jornais contra o Banco Master.
O Bastidor entrou no radar da PF no caso Master
Meses depois da mensagem sobre o Itaú, Vorcaro compartilhou links sobre o banco e sobre a elevação da nota do Banco Master pela Fitch.
O link de O Bastidor enviado por Vorcaro em dezembro ganha peso adicional pelo que veio depois. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo baseada em documentos da Polícia Federal enviados ao Supremo Tribunal Federal, investigadores afirmaram que Diego Escosteguy, fundador de O Bastidor, “recebia dinheiro de Daniel Vorcaro” para publicar informações de interesse do banqueiro.
A mesma reportagem registrou que a documentação tornada pública não informa o valor efetivamente repassado a Escosteguy, mas cita uma mensagem de novembro de 2024 com referência a “2M – Escosteguy” e “3.5M – Agregados – BSB, jornalistas, mídia, notas mensais”.
Escosteguy negou direcionamento editorial. Em nota citada pela Folha, afirmou que a relação com Vorcaro era “estritamente profissional” e que os valores mencionados se referiam a contratos de publicidade e patrocínio, sem interferência na linha editorial do portal.
O ponto central, portanto, não é uma publicação isolada. É o ambiente descrito por Vorcaro nas próprias mensagens: contatos com jornalistas, diretores, donos de veículos, acusações de uma pessoa “municiando” jornais e circulação de conteúdos usados na disputa entre o Master e seus adversários na Faria Lima.
Compliance Zero apura rede, intimidação e ataque ao Banco Central
A disputa midiática narrada por Vorcaro passou a dialogar com uma frente institucional mais ampla da Operação Compliance Zero. Em 9 de julho de 2026, a Polícia Federal deflagrou a 10ª fase da operação para apurar indícios de atuação coordenada em redes sociais voltada, em tese, a comprometer a credibilidade do Banco Central do Brasil.
Segundo a PF, foram cumpridos dois mandados de busca e apreensão expedidos pelo Supremo Tribunal Federal em Brasília. As investigações também apuram possível organização criminosa dedicada à intimidação de jornalistas, ao monitoramento ilícito de pessoas ligadas a autoridades públicas, à obtenção indevida de informações sigilosas e à adoção de medidas destinadas a interferir em investigações criminais.
O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master em 18 de novembro de 2025. A partir daí, o caso deixou de ser apenas uma crise bancária e passou a expor a disputa política, judicial e midiática em torno do colapso do conglomerado controlado por Vorcaro.
Mensagem revela acusação, mas não comprova contrato
A nova mensagem obtida pela Fórum é relevante porque mostra Vorcaro atribuindo diretamente ao Itaú uma ofensiva de imprensa contra o Banco Master. Também mostra que o banqueiro dizia ter recebido uma “confirmação” e que tratava a suposta engrenagem como parte de uma “conspiração”.
Mas a reportagem não afirma que o Itaú contratou o jornalista citado. O que os arquivos mostram é que Vorcaro disse isso a Martha Graeff, em conversa privada, e que a declaração se encaixa em uma disputa maior, já documentada por mensagens, reportagens e frentes da Polícia Federal sobre mídia, bancos, redes sociais e poder econômico.
Nessa paisagem, a Faria Lima aparece menos como um mercado neutro e mais como um campo de guerra. Bancos disputam narrativa, banqueiros acionam jornalistas, operadores falam em municiar jornais e a Polícia Federal agora investiga se parte desse ecossistema atravessou a fronteira entre comunicação, influência e interferência em apurações criminais.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/vorcaro-itau-jornalista-master/

