Uma caravana itinerante que promove um filme de Bolsonaro está percorrendo dezenas de cidades do Maranhão utilizando um ônibus amplamente adesivado com imagens de Jair Bolsonaro. A estrutura imponente levanta um questionamento central para a transparência do processo eleitoral de 2026: quem está financiando a ação?
A mobilização exibe o documentário “A Colisão dos Destinos”, que narra a trajetória do ex-presidente. Divulgada em redes sociais e grupos de WhatsApp sob o nome “Caravana Estado do Maranhão — A Colisão dos Destinos”, a ação utiliza o slogan “Deus, pátria, família e liberdade”.
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O roteiro inclui paradas em 21 municípios, passando por São Luís, Imperatriz, Pedreiras, Barra do Corda, Bernardo do Mearim, Caxias, Timon, Codó, Coroatá, Chapadinha, São Bernardo, Açailândia, Distrito Faísa, Buriticupu, Santa Luzia, Santa Inês, São Mateus, Miranda, Itapecuru-Mirim, Barreirinhas e Tutóia.
Imagem Divulgação de Roteiro
O mistério sobre quem financia o filme de Bolsonaro
A reportagem da Revista Fórum localizou o responsável pelo veículo. Em áudio enviado pelo WhatsApp, o empresário admitiu desconhecer a origem dos recursos que bancam a logística. Ele afirmou ter disponibilizado o ônibus a pedido de um conhecido.
“Não, rapaz, essas informações eu não tenho não. E nem quem vai pagar não. Até agora já pediram o veículo, já botei à disposição. E eu não sei se é candidato, não é nada. Só foi que eu tenho um contato que é conhecido meu, aí ele que me indicou e eu tô atendendo aí. (…) Só vi esse roteiro”, afirmou o dono do veículo.
O desconhecimento declarado acende um alerta legal, uma vez que o ônibus cruza o estado caracterizado com identidade visual bolsonarista e peças gráficas que associam a iniciativa à vereadora Flávia Berthier (PL-MA).
Nas redes sociais, Berthier se descreve como “bolsonarista do Maranhão” e “pré-candidata a deputada federal em 2026”. Seu perfil no Instagram concentra publicações, vídeos e artes gráficas promovendo o filme de Bolsonaro no estado, incluindo registros de atos públicos e imagens do veículo envelopado.
De acordo com o perfil oficial da Câmara Municipal de São Luís, Flávia Berthier foi eleita com mais de 4.850 votos, contando com o apoio explícito de Jair e Michelle Bolsonaro, consolidando-se como representante da direita conservadora no Maranhão.
A Fórum enviou questionamentos à vereadora , solicitando esclarecimentos sobre a origem dos recursos, custos com adesivagem, combustível e eventual uso de verba partidária. Até a publicação desta reportagem, a parlamentar não havia respondido. O espaço permanece aberto.
“Efeito outdoor” e os limites da pré-campanha
Para além do debate político, a circulação do ônibus esbarra na legislação. A advogada eleitoral Julia Resende Costa, membro da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (Abradep), avalia que o envelopamento total do veículo com imagens de lideranças políticas pode configurar o chamado “efeito outdoor”.
A Resolução nº 23.610/2019 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) permite atos de pré-campanha e exaltação de qualidades pessoais, desde que não exista pedido explícito de voto. Contudo, a advogada alerta que a ausência do “vote em mim” não isenta a ação de irregularidades.
A lei proíbe o uso na pré-campanha de formatos publicitários que seriam vetados no período eleitoral. A regra para adesivos em veículos limita o tamanho a 0,5 m² por peça, sendo que a justaposição que exceda essa metragem pode ser enquadrada como propaganda irregular.
Segundo a especialista, os adesivos não parecem se enquadrar como um “indiferente eleitoral” (publicidade sem impacto político), dada a presença ostensiva de pré-candidatos. O ponto mais sensível, no entanto, é financeiro.
“A propaganda eleitoral em bens particulares deve decorrer de manifestação espontânea e gratuita, sendo proibido qualquer pagamento ou contraprestação pela cessão do espaço”, explica Julia Resende Costa. Qualquer afirmação de que o dono do ônibus foi pago exigirá provas concretas, cabendo à Justiça Eleitoral analisar a origem dos recursos e o impacto na igualdade de oportunidades da eleição de 2026.
O campo bolsonarista já é alvo de escrutínio no TSE por movimentações precoces. Recentemente, a Fórum revelou que Flávio Bolsonaro foi acionado na Corte por suspeita de propaganda antecipada visando 2026. Vale lembrar que, desde 2023, o TSE declarou Jair Bolsonaro inelegível por oito anos por abuso de poder político.
Pautas conservadoras e promessa de renúncia
Enquanto o filme de Bolsonaro roda o Maranhão, Flávia Berthier acumula polêmicas na capital. A vereadora assina o Projeto de Lei Nº 0507/2025, que tenta proibir a participação de crianças e adolescentes na Parada do Orgulho LGBTQIAPN+ de São Luís.
Conforme noticiado pela Câmara Municipal, o PL propõe multas de até R$ 10 mil por hora para organizadores que descumprirem a restrição, exigindo autorização judicial baseada no ECA para liberar o acesso de menores.
A pré-candidata também protagonizou um duro embate com o presidente da Câmara, Paulo Victor, denunciando supostas retaliações políticas. Conforme repercutido pela imprensa local, Flávia cobrou transparência da Mesa Diretora e foi taxativa sobre seu mandato durante sessão da Casa: “Eu renuncio ao mandato se algo for encontrado a meu respeito que justifique corrupção”.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/filme-de-bolsonaro-onibus-maranhao/

